Tags

“Caminhando no mundo dos mortos como ratos numa esteira”

            Histórias pós-apocalípticas sempre habitaram o universo das narrativas literárias e audiovisuais, ganhando destaque no século XX e todas suas guerras, conflitos diplomáticos e epidemias em massa. O temor do fim da humanidade, seja no sentido de existência do ser humano ou daquilo que o torna um, ganhou os mais diversificados tipos de forma, seja zumbis com conotações sócio-políticas, vampiros-zumbi, comunidades espaciais abandonando planetas inabitáveis, blockbusters explosivos, pregações religiosas extremistas. Fugindo de todo escapismo e ficções que ultrapassam a barreira do real, encontramos na literatura contemporânea uma história simples e verossímil sobre um pai e sua criança tentando sobreviver ao mundo cinzento e morto que costumávamos chamar de casa.

Ganhador do Prêmio Pulitzer de  Literatura em 2008, A Estrada” trouxe aos leitores de Cormac McCarthy a revelação de um lado mais intimista e sentimental do autor, mas igualmente trágico e se permitindo brutalidades. A simplicidade da história e a falta de virgulas tornam a escrita de McCarthy na grande mina de ouro da obra, deixando na secura, no silêncio e nas descrições abstratas a voz de duas vidas que apenas existem pela necessidade de sobreviver. Portando uma arma e duas balas, pai e filho contam um com o outro para seguir em frente em meio a um mundo pós-apocalíptico. Talvez não queiram encarar a realidade. As consequências baterão à porta.

O choque de realidade é constante. O marasmo de um planeta cinza e sem vida, de deteriorado senso de humanidade e organização tornam as páginas de calmaria do livro em desespero, angústia contida, tornando os dois seres em presas se alimentando enquanto os predadores saem por aí com suas facas e bastões de ferro. Como se a qualquer momento a jornada dos protagonistas pudesse ser interrompida pela violência esporádica, fazendo-nos questionar sobre todo o rumo até ali, se ainda vive aquela adoecida esperança.

Colhendo as migalhas de um mundo destruído, os dois preservam o laço familiar apesar de todos os abalos, e tentam manter a humanidade apesar de todo o horror. O pai não sabe mais se é melhor fechar os olhos ou deixá-los abertos. Pode apenas lamentar pela visão do inferno a qual seu filho é exposto, e aos atos horríveis e necessários cometidos durante a jornada. Jornada essa sem perspectivas, sem nome do Pai. Deus abandonou seus filhos às cinzas sem renascimento.

A sensação constante de ir pouco a pouco desaparecendo junto ao mundo. É a convivência com a morte, nossa velha conhecida. Nunca falada, sempre temida. A luta pela própria sobrevivência, a proteção da família e da integridade em meio a temores modernos de isolamento e sociedades selvagens, o outro não mais como semelhante, mas alarmante perigo. Os olhos ingênuos de uma criança tentam compreender e abraçar os mortais, os famintos e os animais, em contraponto aos espinhos do real, da malícia da vida adulta e do entendimento de mundo como uma cadeia alimentar banhada à sangue do próximo.

Relógios à 1h17min. Sonhos de dias coloridos. Lembranças que só corroem. O passado, os clarões de luz e a despedida da falecida esposa e mãe pouco importam, já que a realidade do agora não dá trégua. De dor já basta a visão do presente. Dias de estadia em casas de fantasmas e florestas sombrias, noites na mais completa escuridão e umidade de chuva, barulhos de riachos e pequenos grupos de extermínio pra quebrar o silêncio dominador, o vento e seu lamento. O carrinho de suprimentos sendo empurrado pela estrada era o único som que os lembravam de ainda estarem vivos, além de suas vozes.

Conversas breves, de uma criança curiosa e mais profunda do que se supunha, e um pai apenas tentando protege-la. Um a vida do outro. “Está tudo bem”. Diálogos curtos e objetivos, o mundo cinza não deixou muitas palavras para serem ditas. Conversas tão secas, mas que não deixam dúvidas da necessidade mútua do filho e pai. Continuam repetindo um para o outro que está tudo bem, está tudo bem, como se tentassem se convencer disso. Do pouco que restou, contentar-se com misérias está tudo bem.

Uma vida cercada de abismos, estranhos e assassinos cruzando caminho, porões de extermínio, corpos humanos putrefando e outros cozinhando. A subsistência com dias contados e a humanidade virando poeira. Porque a tragédia sempre vem acompanhada, e a ela estamos condenados.

De temáticas contemporâneas ao mesmo tempo em que referencia o Holocausto, as ditaduras e a situação dos refugiados em tempos de direitos humanos corrompidos, “A Estrada” invoca valores universais e sentimentos familiares para testar-lhes os limites, expondo a barreira entre aquilo que nos torna humanos e simples selvagens através de figuras familiares. Todas as cinzas e o sofrimento anunciam o que já sabemos de início, sem happy endings e sem ir em contramão à delicadeza por vezes cruel de McCarthy. O autor termina por fazer uma das grandes obras sobre o pós-apocalíptico, colocando em jogo a sobrevivência da família e da integridade, girando ao redor de expectativas, verossimilhanças e ritmo cadenciado que se encaixa perfeitamente à espera eterna do livro por algo desconhecido, mas almejado. “A Estrada” é um daqueles livros que nos coloca de frente às misérias da vida terrena, em busca de algo que nos aproxime de seu sentido, ou da falta dele. Por fim, assim como o pai e filho, somos entregues ao destino e aos mistérios do mundo.

Por Bruno Kühl. 

Anúncios