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            Acredito que muitos leitores de narrativas de horror e fantasia tenham começado sua jornada literária através das obras de Stephen King, o grande nome hoje de uma geração de radicais escritores do gênero. Mas não são muitos aqueles que se aventuram nos autores da geração anterior, cujas obras abriram caminho para a liberdade artística do gênero fantástico e influenciaram seus sucessores. Talvez a grande inspiração do trabalho de King seja um dos mais aclamados escritores de ficção-científica de horror e suspense do século XX, um norte-americano naturalizado norueguês chamado Richard Matheson.

Autor de diversos contos e livros que habitam a cultura literária e fílmica, tendo várias obras adaptadas ao mundo cinematográfico e com sua própria autoria nos roteiros, Matheson é o nome por trás de várias obras cults, como “O Incrível Homem que Encolheu” (1956) e “Amor Além da Vida” (1978). Um de seus primeiros romances e o indiscutivelmente mais popular foi “Eu Sou a Lenda”, escrito em 1954 e carregando três adaptações literárias nas costas, a última com Will Smith em 2007 num filme morto, destruído pelo CGI e que deturpa muito a história original. Como a maioria dos grandes livros do gênero, “Eu Sou a Lenda” parte de uma história repleta de sofrimento e desumanização para tocar nas feridas e temores não só de sua época, mas do homem como ser social e, até certo ponto, racional.

Durante boa parte do livro, acompanhamos o cotidiano de tédio e solidão de Robert Neville, o sobrevivente de uma grande bactéria que assolou o mundo e transformou seus habitantes numa espécie de zumbi-vampiro. O dia-a-dia de Robert em Cimarron Street seria de constante horror e desespero caso ele não tivesse feito de sua casa um abrigo anti-vampiros, vivendo num tédio e acomodação sem fim mesmo com o inferno lá fora ao cair da noite. O tédio foi a consequência: O instinto de sobrevivência fala mais alto do que o de sair pelas ruas exterminando vampiros e provavelmente acabar como um cadáver drenado num beco qualquer. Segundo o próprio Matheson, “um homem habitua-se a tudo, se a isso for forçado”. Robert é o homem entendiado, sozinho, numa existência monótona e que cada vez mais perde suas razões de continuar.

Reflexo não só de uma vida vazia e marasmante, a sobrevivência de Robert ao “terrível vazio das horas” é frequentemente resumida a doses cada vez maiores de álcool, abstinência sexual e perturbação, numa mente torturada de sobrevivente de guerra e único resto humano de um mundo pós-apocaliptico. O sentimento que impera nesse isolamento em todas suas formas é o de solidão, é a falta de confiança no outro e no mundo, é o medo de se relacionar novamente e o sofrimento inevitável das perdas tão constantes na vida de Nevillle, em que algo a se segurar adquire formas líquidas. Sua solidão vira rotina e a esperança da manhã do amanhã ser um novo recomeço vai se deteriorando na medida em que o tempo modela Neville como um animal enjaulado. Sua prisão interior/exterior é rarissimamente interrompida.

Ben Cortman, Virginia, cachorro e Ruth. O grupo compõe o campo restrito de contatos de Robert com o mundo exterior, mesmo que seja por meio apenas de lembranças, ainda vivas e dolorosas. Isso sem contar que um já havia se tornado um vampiro sedento para drenar o sangue de seu amigo, outra só nos é apresentada no leito de morte, outro morreu imediatamente após selar união com o protagonista e a última se revelou uma filha-da-puta e uma das representantes da raça que emergia para exterminar a raça anterior, a humana. Seu escape da solidão que devora sua humanidade como traças são esses pequenos fragmentos de existência além da sua. Enquanto Robert não está socializando com o álcool – “beber pra fugir, esquecer” –, explodindo de raiva ou tentando tragicamente aliviar seu isolamento, também parte em busca da cura para a nova maldição da sociedade.

Porém, sem sucesso. No caminho, Neville vai conseguindo algumas explicações, como a razão do horror ao sol, a pouca ou nenhuma respiração e a necessidade dos vampiros em entrar em coma quando os raios solares rasgam o céu, mas vitória e alegria parecem coisas abstratas na nova realidade de Neville. O ato de viver se tornou um enigma. O instinto de sobrevivência dá os seus gritos mais primitivos e Robert luta não só para se preservar, mas também para manter sua própria individualidade, não morrer pelas mãos de uma massa uniforme e hostil, o isolamento como consequência. Bons eram os tempos em que não havia que agir por conta própria, nos quais sempre contava com Virginia, sua segurança e estabilidade, sua unidade familiar e porto-seguro, corroída pela bactéria e levando consigo toda a base de segurança da vida de Robert, que de marido típico se tornou o último homem na terra.

 Que de cônjuge amoroso se tornou o assassino de sua esposa vampira. Malditas criaturas trazidas pela bactéria, sedentas por sangue e destruição. Malditas tempestades de areia e epidemia. Malditos dias resumidos a caças, colares de alho e estacas, quebrados apenas por algum fator que logo desaparece e condena novamente Robert a suas falsas esperanças, ao seu cotidiano de morte. Mal ele sabia que, ao conhecer Ruth, sua vida estava a ponto de mudar. Se nos primeiros momentos ela era alvo de desconfiança e paranoia, ao mesmo tempo em que representava o alívio de Neville em encontrar outro ser humano ainda vivo, logo o destino trágico de Robert esmurrou sua cara e a revelou uma espiã vampira. E pior, uma vampira com a bactéria mutante, que agora os permite caminhar sob a luz do sol.

Não demora muito para que esses novos vampiros, mas resistentes, inteligentes e violentos, deem início ao domínio do mundo. Se no começo Robert era um homem contra o mundo, o quadro se virou para o mundo contra um homem. Contra o horror e a contradição de ser diferente, de ser mortal. Engolido por essa violenta e primitiva nova geração de seres, no ápice da humanidade em ruínas, Ruth dá a possibilidade de Neville acabar com sua própria vida, e ele a acata, para que a sociedade possa completar seu ciclo. Justamente por ser a personificação da mortalidade no meio de criaturas imortais, Robert morre para finalmente se tornar a lenda. E o leitor, depois de massacrado pelo sofrimento e isolamento do personagem que serve como um passaporte entre a realidade e àquele mundo perturbador, encerra o livro numa quietude indecisa entre o alívio da angústia e a inconformidade de torcer em vão pela vida de um ser humano, tão igual e vicioso quanto qualquer um.

E esse é o horror construído por Matheson. Uma história de pouquíssimos picos de adrenalina e que privilegia o olhar para o cotidiano, para o ritmo gradualmente menor de batimentos cardíacos. Sua escolha na observação do dia-a-dia da vivência de Robert e seu modo em construir a narrativa potencializam a realidade de sua criação, o diálogo do fantástico com o retrato de sua época. É o homem do pós-guerra cercado de paranoia e insegurança, machucado por forças além da sua, levando sua família e sanidade pro túmulo. “Eu Sou a Lenda” continua sendo o homem de hoje, individualizado, perturbado, trancafiado, cada vez mais isolado e colecionando temores. É a existência líquida e a sobrevivência, a ameaça onipresente e a desconfiança generalizada, é a saúde deteriorada, é o homem que vê dentro de si um estranho, que antes denominava “consciência”. É o apocalipse interior.

Mesmo quase totalmente focado no pós-apocalipse na vida de Robert, Matheson dá brechas em sua história para o pré-apocalipse, se tornando fundamental que olhemos para os reencontros com Virginia, para as lembranças da bactéria se disseminando, a histeria coletiva, a imprensa sensacionalista e a desesperada busca por religiosidade, para chegarmos na completude do estado de Neville. Seu desenvolvimento no decorrer do livro é linear até certo ponto, seguindo a cartilha de aproveitar o espaço-tempo deixado pela separação de capítulos para avançar na história e na deterioração do protagonista.

O romance apresenta quadro capítulos que se diferem por essas brechas na trama. O primeiro retrata o dia-a-dia dessa nova realidade, o segundo narra Robert com Virginia e o cão, o terceiro concentra-se no contato com Ruth e o quarto é o grand finale. Devido a suas cento e poucas páginas, número reduzido de personagens, estrutura episódica e desenvolvimento psicológico conciso, o livro de Matheson se assemelha mais a um grande conto de um homem só, lembrando o passado do autor de pequenos contos escritos para revistas e jornais alternativos antes de virar romancista. Apesar de sua curteza, “Eu Sou a Lenda” é da linha de publicações breves e complexas, utilizando de uma narrativa que conjunta com eficiência os pensamentos do protagonista, as próprias reflexões de Matheson e a narração em terceira pessoa.

Pra quem ainda não se convenceu em colocar o livro em sua lista de meta de leitura, “Eu Sou a Lenda” é um dos romances mais influentes no mundo da literatura fantástica e também no meio audiovisual, inclusive na TV onde teve claras influências em “True Blood” (2008-Hoje) e sua concepção de vampiros inteligentes, mas hostilizados, passando a viver “vidas noturnas e predatórias” e sofrendo preconceito principalmente religioso, e também em “The Walking Dead” (2010-Hoje), no isolamento e psicológico perturbado, na dinâmica de sobrevivência a um mundo que só deseja o seu sangue. Além da fama de ser um dos únicos trabalhos que trazem uma explicação científica sobre os vampiros, “Eu Sou a Lenda” continua firme e forte habitando o mundo cult da literatura, sendo muito mais do que a releitura de uma criatura que acompanha o homem desde os fins do século XIX, e um retrato ainda moderno sobre os medos, mágoas e solidão da frágil existência do homem moderno.

Escrito por Bruno Kühl. 

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