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   “Bem-vindos a Twin Peaks. Meu nome é Margareth Lanterman. Eu moro em Twin Peaks e sou conhecida como a Mulher do Tronco. Há uma história por trás disso. Há muitas histórias em Twin Peaks. Algumas são tristes, outras são engraçadas. Algumas são histórias de violência, de loucura. Algumas são ordinárias, mas todas possuem um certo mistério. O mistério da vida. Às vezes, o mistério da morte. O mistério da floresta, a floresta ao redor de Twin Peaks. Para introduzir essa história, direi que ela inclui o tudo. Vai além do fogo, apesar de poucos saberem o que isso significa. É uma história de muitos, mas começa com uma. E eu a conhecia. Aquela que nos leva a muitos é Laura Palmer. Laura é a escolhida” – Senhora do Tronco

   É assim que se inicia uma das melhores e mais revolucionárias séries de televisão da história. Se você é um apreciador de seriados ou acompanha programas de televisão, com certeza já ouviu falar de “Twin Peaks”. Isso porque a série ultrapassou várias das barreiras de seu tempo para se tornar um programa atemporal, uma experiência única que transformou o mundo dos seriados televisivos, que se divide no antes e depois de “Twin Peaks”, e a visão do público a respeito do que passariam a consumir a partir daquele ponto. Mesmo passados mais de vinte anos de seu ano de estreia, em 1990, a série continua um espetáculo cult, sendo admirada por muitos fãs ao redor do globo e usada como parâmetro para não só outras séries, mas também novelas e filmes.

Criada por David Lynch e Marc Frost, o seriado rapidamente se tornou um fenômeno de audiência, conquistando o apreço dos críticos e a admiração de milhões de pessoas, que não paravam de se perguntar “Quem matou Laura Palmer?”, frase essa que virou um dos slogans da cultura dos anos noventa. Tudo presente na série acabou contribuindo para seu status de revolucionária. Tendo seu plot principal a investigação do brutal assassinato de uma bela e aparentemente exemplar jovem da pequena cidade de Twin Peaks, a história se liberta de quaisquer amarras ou fórmulas para trazer uma narrativa inovadora, cheia de camadas e metáforas, que vai se desenvolvendo junto à complexa investigação do crime e se amplia para as histórias dos vários moradores da cidade, trazendo a estrutura das novelas para o mundo das séries, numa trama estranha cercada de personagens duvidosos e enigmas que se desenrola em continuidade durante várias temporadas, abrindo as portas para que outras séries fizessem o mesmo. Ou seja, “Twin Peaks” é a grande mamãe de seriados também espetaculares como “Arquivo X” e “Lost”.

   Mais do que isso, a série também apresentou uma absurda liberdade criativa para a época, dando brechas em sua própria lógica para exibir sonhos, delírios e personagens ainda mais bizarros que, de certa forma, contribuíam ainda mais no andamento dos fatos. “Twin Peaks” não só quebrou com o tradicional no que se refere à narrativa dos seriados, mas também abusou de ousadia ao colocar como o centro da história o assassinato de uma adolescente, trazendo temas como estupro, drogas, obsessão, morte, segredos, prostituição, seres humanos dúbios e a revelação de todo um outro mundo bem debaixo dos narizes dos habitantes da cidade, rasgando com o “american way of life” e a ilusão de que todos viviam algo perfeito (prática comum dos filmes de David Lynch). Como o próprio Mark Frost definiu, a série é uma “novela noir”, uma sucessão de mistérios embalada em tramas de relacionamentos humanos e imergida numa atmosfera de segredos, do horror, do cômico e dramático.

O seriado foi um dos primeiros fenômenos culturais (se não o primeiro) em seu campo, ao se expandir para outros meios de comunicação além da televisão. Expansão essa influenciada pelos numerosos e ávidos fãs que, em busca de respostas e teorias, partiram para á mídia e redes sociais, aumentando ainda mais a popularidade da série e o culto ao seu redor. Vendo-a nos dias de hoje, “Twin Peaks” continua hipnotizante. Seus fascinantes e amplos mistérios, embarcando numa montanha-russa de diversos outros gêneros, sua refrescante originalidade, sua insanidade conquistadora. A cidade de Twin Peaks simplesmente se torna um microcosmo, como se aquela pequena comunidade fosse um mundo próprio, vivendo os gêneros mais comuns da maneira mais estilizada. Porém, seu efeito de hipnose deve-se também a sua excelente produção, trazendo a sofisticação e qualidade do cinematográfico para os programas de TV, e a antológica trilha sonora de Angelo Badalamenti, composta de pianos, estalos e saxofones, sempre presente e ajudando a solidificar a tão perfeita atmosfera.

   Todo esse delírio e fascinação tem início quando somos apresentados aos cenários da cidade interiorana de Twin Peaks, onde o corpo da jovem Laura Palmer é encontrado, enrolado em plástico. Uma garota aparentemente do bem, tida como exemplar, assassinada brutalmente por algum morador da cidade. Devido a grande comoção da comunidade e complexidade do crime, o agente do FBI Dale Cooper é chamado para ajudar o xerife nas investigações do crime. Logo, o que parecia um acontecimento isolado numa cidade banal e pacífica, ganha múltiplas camadas no desmoronamento das aparências, revelando um mundo controverso, denso e bizarro. Rompendo com a tranquilidade de uma cidade serena apenas em superfície, mergulhamos junto a Cooper num outro mundo, profundo, de violência, sexo e crime. De uma vida e convivência perfeitas sendo desmoronadas. De segredos mortais, escondidos na grama tão verde do vizinho, e em nosso próprio gramado.

Esse caminho de escuridão e sucessivas descobertas é traçado por uma minuciosa e atípica investigação, que segue na linha entre a lógica e a ilusão, para nos conceber mistérios fascinantes, além do fogo, de pistas constantes de um quebra-cabeça que esfrega suas soluções em nossa cara, da forma mais camuflada e abstrata possível. Seu desenvolvimento é gradual, mas dá fôlego às partes que o compõem e origina uma trama ágil, sempre em movimento. O curso de Cooper naquela cidade traiçoeira é marcado também por ótimos diálogos, que fogem do óbvio e complementam a formação das pistas, e uma galeria de personagens excelentes que, além de suas caricaturas, se mostram dúbios, redondos e completos de personalidade.

Basta lembrar da Senhora do Tronco, uma velha estranha que leva em seu colo um pedaço de tronco, e suas introduções em cada episódio, praticamente um diálogo entre o diretor David Lynch e seu público, se comunicando através de códigos e discursos enigmáticos que induzem a certas linhas de pensamento e são capazes de mudar toda nossa visão sobre o que veremos a seguir. Lembrar do próprio agente Dale Cooper, um profissional experiente de métodos inusitados, satírico, irônico e cativante; do xerife e seus companheiros policiais; da mimada e absurdamente carismática Audrey Horne e seu ambicioso e corrupto pai Ben Horne; da colegial Donna e seu amor pelo rapaz James; de Shelley e Norma e seus corações divididos; dos perigosos Leo, Hank e os irmãos Renault; da sedutora Jocelyn e seus constantes atritos com Catherine Martell; do alívio cômico trazido por Lucy e Andy; da grosseria e objetividade de Albert; da dor infinita de Leland; e, finalmente, de Laura. Garota dúbia, perigosa, autodestrutiva, libidinosa, perdida em sua própria existência e condenada ao inferno.

   Além de seus habitantes, acidade de Twin Peaks é construída também como um personagem. Longe de tudo, o local parece um conjunto isolado de cenários comuns de cidades pequenas, num clima de interior, de comodidade, trazendo tons amarelos e marrons frutos das madeiras usadas nas paredes, móveis e em todos os lugares, pra depois ser rompido pelas fortes cores e mudanças visuais, de luz e sombra, descontrole. A cidadezinha perfeita, de convivência saudável, desmoronada no cair das cortinas, nas mortes, no tráfico, no passado sujo e desenterrado. Uma terra onde todos são suspeitos, camuflam sua hipocrisia, escondem seus segredos. Com suas florestas sombrias, de árvores de muitas camadas e troncos descascando, podemos sentir a presença de uma outra parte, desconhecida. É nessa simbologia das florestas, troncos e raízes que “Twin Peaks” se abre para vários de seus símbolos e metáforas.

   Na madeira, nos semáforos, nas cores. Em tudo há uma dualidade, um outro significado na linguagem formada por David Lynch e Marc Frost, conversando com o espectador através de imagens e sons, personagens e ideias, de forma  sempre extraordinária e desafiadora.  Instigando seu espectador a não só buscar por respostas, mas também adquirir uma obsessão por suas teorias e possibilidades deixadas em aberto, o seriado foi o grande pioneiro ao exibir mistérios em continuidade, múltiplas interpretações, várias provas para inúmeras hipóteses, decifrar sonhos para encontrar soluções. Mais do que isso, se consagrou como uma arte além da compreensão, tão normal quanto fantástica, tão real quanto extraordinária, algo que desafia todas as lógicas e fórmulas na sua transição entre o clássico e moderno, variabilidade de gêneros e mistério infinito.

   Com relação aos episódios, sua primeira temporada expõe tudo do que fez da série um marco televisivo, caindo no gosto do público com seu estilo inovador, estranheza, pistas e seu status de pioneira, dando espaço também aos jovens incompreendidos e descontrolados em contraponto aos adultos sem compreensão e “caretas”. Sua season finale é simplesmente sensacional, fechando com chave de ouro um ciclo inconclusivo de mistérios, entregando respostas e fazendo surgir outras, enquanto exibe momentos fortes e decisivos. Nos episódios iniciais da segunda e última temporada, “Twin Peaks” já era um espetáculo próprio e resolveu deixar a investigação ligeiramente mais pesada, com um certo tom sobrenatural, mais bizarrice na comédia e mais violência, enquanto vai caminhando para o fim de seu problema principal. Eis que chega o excelente episódio 2×09 e a série resolve encerrar sua trama central, a morte de Laura. A tão esperada revelação do assassino é feita, chocando pelo horror e resolução quase irretocável, deixando ainda para o próprio espectador montar todas as peças do quebra-cabeça e presenciar em si mesmo, no mundo ao seu redor e no microcosmo da série um lado desconhecido, mais obscuro.

A partir do episódio 2×10, a série se perde e o nível de qualidade sofre uma grande queda, devido à falta de estrutura e objetivo que a opção por revelar o assassino tão cedo causou. O clima que impera é o descontraído, há muito humor pra pouca graça, algumas decisões contradizem com o mostrado até então e tudo o que restou foi tentar desenvolver as outras partes da trama e pendências da série. Desenvolvimento esse tão previsível e na maioria das vezes óbvio, sem mistérios que realmente funcionassem e resolvendo os problemas por um estilo bem mais novelesco e carente de criatividade, que a série continuou com seu nível insatisfatório de audiência e caminhou para seu cancelamento. Tentaram traçar por um lado mais sobrenatural, de alienígenas e mensagens secretas, traçando um caminho parecido ao de “Arquivo X”, tentaram reconquistar seu público com novos personagens e participações especiais de futuras celebridades, como David Duchovny, Billy Zane e Heather Graham, tentaram até dar novos tratamentos a figuras já conhecidas, como as atrocidades cometidas contra a família Horne, mas nada funcionou. Mesmo que a estética cinematográfica e o trabalho sonoro continuassem lá, a série caminhava entre excessos e tramas novelescas, mas sempre continuando algo assistível.

    Nos momentos finais do 2×16, após a morte de uma personagem, as alucinações voltam a acontecer e a série começa a voltar aos trilhos. Corrigindo o que estava errado, a comédia voltou a ter graça, a criatividade estava lá novamente, junto aos pequenos mistérios e revelações, e a série ganhou força novamente com suas investigações alienígenas e as peças de xadrez de Windom Earle, porém não da maneira perfeita de antes. Mesmo conseguindo estabelecer um ótimo nível em seus episódios finais e acertar na sua construção de um direcionamento bizarro, já era tarde demais e o cancelamento era realidade. Diante disso, temos um dos melhores episódios da série (se não o melhor) sendo o seu último. Explorando alienígenas, as armações de Earle, o passado de Cooper, o interessante mistério ao redor do White/Black Lodge e fazendo tudo isso dar certo, o episódio final, com direção de David Lynch e com certeza seu dedinho não creditado no roteiro, se encerra em momentos de pura criatividade e genialidade, e acaba numa das melhores e mais chocantes cenas da história dos seriados.

“Twin Peaks” foi vítima da própria modernidade, condenada por ser à frente de seu tempo. Mesmo revolucionando a televisão e destoando com o conservadorismo de sua emissora de exibição ABC (na época em que não era esse grande monstro que é hoje), sendo um de seus programas de maior sucesso, o seriado sofreu com a pressão crescente da própria emissora e também do público (os níveis de audiência haviam caído entre as temporadas) para revelar logo o assassino de Laura Palmer, não compreendendo o intuito da série em fazer das investigações da morte apenas uma desculpa para uma avalanche de revelações e tramas complexas. Com a revelação indo ao ar, o público cada vez mais abandonou a série devido à posterior queda de qualidade, e seus criadores David Lynch e Marc Frost perderam o interesse em continuá-la, migrando os dois para projetos no cinema, resultando na fase sem rumo do seriado. Apesar de consolidar um caminho alternativo no final e entregar um encerramento perfeito, a série já estava cancelada. Foi o fim de um dos maiores espetáculos que a TV mundial já proporcionou.

Como já dito e redito aqui, ver “Twin Peaks” é uma experiência única. É como entrar num thriller corajoso que ousa não seguir com a verossimilhança, fórmula ou lógica, mas se guia através um delírio agarrado à realidade e às pistas de mistérios repletos de significados. Um thriller de profundidade, de caminhos diversos e mentes dúbias, um mundo próprio de aparências, de homens sucumbindo à loucura, corações partidos, maldade. Com os símbolos de inocência, ética e beleza se perdendo nesse cada vez mais “mundo cão”, uma rosa se abre em meio a ramos de galhos espinhosos, uma rosa chamada Laura Palmer. Sua morte é o princípio, seu legado é o abrir das cortinas para toda a verdade enlouquecedora residente em todos os lugares. “Twin Peaks” é o acordar para um mundo obscuro e íntimo bem debaixo de nossos narizes, é o penetrar numa atmosfera de mistério, horror, do tragicômico e bizarro, é o flertar com o nonsense, com a ilusão e o próprio pensamento.

    É a arte recriando a realidade e ao seu próprio público. Se derruba a barreira entre sonhos e realidade, se abre um portal que nos leva ao desconhecido, aos segredos, ao mal, às nossas florestas interiores. Somos apresentados a um mundo além da compreensão, sanidade ou qualquer limite. Criou-se um exercício de liberdade criativa, de múltiplas interpretações e multissensorial, que revolucionou a televisão e até hoje se configura como uma das grandes artes que a mesma já nos concebeu. O que nos resta agora é aplaudir Lynch e Frost, e aprender a viver com essa nova visão de mundo pós-“Twin Peaks”.

“O que vemos não é a natureza, mas a natureza exposta ao nosso método investigativo” – Annie Blackburn

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