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   De uma série que começou sua nova temporada com a imagem de uma cruz feita de pedaços de madeira, ao mesmo tempo em que ouvimos Adam Levine falando sobre sexo, não se pode esperar algo dentro dos padrões. “American Horror Story” estreou sua segunda temporada em outubro de 2012, após ser intensamente divulgada através de um bizarro material, que incluía teasers e pôsteres, com refinamento artístico sinistro e repleto de mensagens subliminares sobre a trama.  Carregando o subtítulo “Asylum”, a série já iniciou suas novas histórias com tudo, prometendo ser aquela mistura deliciosa de bizarrice, terror, personagens estranhos, mistérios excitantes, muito humor negro e sexo, que acabou se comprovando no passar dos episódios. Longe de ser aquela bagunça tosca e descontrolada principalmente do começo de sua temporada original, a série conseguiu passar por cima de seus erros no passado e nos entregou uma temporada sensacional, rica em acertos.

   Como já sabiam os mais bem informados, tudo mudou aqui, mas de certa forma continua o mesmo. Dos anos 2000, vamos parar na década de 60, de conservadorismo forte, da tentativa de se manter intacto o american way of life em frente às mudanças sociais que começavam a transformar a sociedade norte-americana. De uma misteriosa casa mal-assombrada, somos levados a uma instituição psiquiátrica enlouquecedora. De uma família suburbana sendo aterrorizada por espíritos, passamos a acompanhar os criminosos e habitantes perturbados de um hospício. De Rubber Man, somos apresentados ao doentio Bloody Face. De vizinha diabólica, Jessica Lange se transforma numa freira-chefe maléfica. O reordenamento das tramas, cenários, temas e papéis dos atores principais mudaram, porém, a essência da série continua intacta, a de afogar gradualmente seus espectadores nas histórias anormais e sangrentas de um lugar engolidor de vidas e liberdade. Enquanto a primeira temporada clama por anarquia, bizarrice, sexo, confusão, violência gratuita e muita pressa, a segunda optou pela classe, numa ótima construção de tramas, metáforas, apresentação de temas sociais e arrancando diversas feridas, horror físico e psicológico, muita claustrofobia, dor e sofrimento, mas sem deixar de lado o sexy e o insano.

Indo de psicopatas e humanos deformados até alienígenas, a série teve uma grande expansão de seus temas centrais, e amarrou todas as histórias desenvolvidas durante seus treze episódios de forma majestosa. É claro que Ryan Murphy podia não ter matado quase todos os personagens e não ter entregue algumas soluções fáceis (que na verdade nem incomodam), mas foi incrível como depois de um início de temporada tão alucinado e cheio de teias, os roteiristas conseguiram conectar cada história e fazer cada detalhe ter sua importância no desenrolar dos fatos, com nada soando gratuito. Aliás, aquela trama inicial de Leo e Teresa indo transar nas ruínas de Briarcliff e sendo mortos por Bloody Face realmente pareceu avulsa, tanto que não apareceu em diversos episódios, mas depois recebeu um esperto encaminhamento e recebeu sua devida importância do final da temporada, com Dylan McDermott sendo Bloody Face Jr. e interpretando um papel que caiu perfeitamente em seu estilo, ao contrário da atuação sofrida que fez de Ben Harmon.

Apesar das criaturas, dos demônios e de toda a maluquice, “Asylum” encontrou seu principal triunfo na representação de um horror real, palpável, de vítimas de uma sociedade doentia e humanos monstruosos. Todos aqueles que, de alguma forma, não se encaixavam no perfil de aceitação sessentista, acabam subjulgados a um submundo como é aquele hospício. Pepper e os deficientes mentais, que eram culpados por tudo e tendo sua deficiência aproveitada por aqueles ditos normais, Lana e os homossexuais, submetidos aos mais cruéis tratamentos e tidos como portadores de alguma doença, Kit/Grace e os adolescentes incompreendidos, condenados por acreditarem na verdade diante de seus olhos e clamarem por justiça, Shelley e a libertação sexual feminina, condenada pelo machismo dominante. Os internados na instituição eram alvos de uma sociedade tão conservadora, infeliz e a favor dos bons costumes, que acabou criando um sistema hipócrita e desumano para trancafiar todos aqueles que, de alguma forma, ameaçam seu estilo de vida e a lembrava de como as coisas estavam muito erradas.

   Briarcliff era o perfeito retrato disso. A representação de um mundo dominado por loucos, que criava monstros e seres humanos iguais, onde os inocentes e os diferentes eram culpados, oprimidos por saberem da verdade, e os soberanos mantinham seu sistema problemático, quase sem escapatória, decadente. Todos que detinham poder na instituição eram, de alguma forma, condenáveis. Basta lembrar de Jude (que contém semelhanças com a história nada santa de Madre Teresa de Calcutá), freira que escondia por trás de seu conservadorismo, fanatismo, moral e absurda crueldade, um passado de hipocrisia e sujeira com vícios e morte, de Padre Timothy, um mentiroso e covarde disposto a fazer tudo para obter reconhecimento, de Dr. Arden, que atropelava quaisquer dos direitos humanos para avançar em seus experimentos, usando pacientes como cobaias, e ainda mantinha segredos sobre o tempo quando era um oficial e médico nazista, como vimos no episódio duplo “I Am Anne Frank”, de Eunice, uma jovem literalmente possuída pelo mal, de freiras que maltratam seus pacientes, de cozinheiros que não lavam as mãos, de policiais armados de cassetetes e armas prontas para atirarem.

Talvez, o maior exemplo desse poder corrupto seja o de Oliver Thredson, o psicólogo assassino que nunca conseguiu curar sua própria loucura. Um monstro que conseguia se infiltrar e se manipular a todos, que julgava a sanidade de outros, sendo que a sua mente era uma das mais perturbadas. Sua revelação como Bloody Face foi simplesmente chocante, já que Kit e Arden também eram grandes suspeitos, e as cenas em que demonstra toda sua insanidade são algumas das mais fortes da série, incluindo necrofilia, estupro, tortura, assassinato. Nascida pra sofrer, Lana Winters se torna a última vítima de Bloody Face após a grande revelação, surtando em horror, e acabando grávida do monstro. A jornalista passou a temporada inteira sofrendo, e o público junto à ela, já que rapidamente se tornou a melhor personagem. Teve sua namorada morta, foi internada injustamente, eletrocutada, iludida, torturada, mantida em cativeiro, estuprada, quase assassinada duas vezes, presenciou o suicídio de um homem, sofreu um acidente de carro, foi novamente internada, tentou abortar com um cabide, foram tantos traumas e horrores que ela não podia continuar a mesma.

   Após sua liberdade, possuindo a fita da acusação de Oliver, Lana logo começa todo seu legado de denúncias e sucesso. Meteu uma bala na cabeça de Thredson, denunciou as pessoas mortas e desaparecidas em Briarcliff, e lançou o histórico “Maniac”, livro que narrava suas desventuras nas mãos de Bloody Face. Após essa onda de exposição, Lana se mostrou uma jornalista astuta, corajosa, mas com esperteza em primeiro lugar e dona de uma certa arrogância, egoísmo. Durante sua vida, foi um símbolo de feminismo, da igualdade, mas também da luta contra aquilo que julgava errado numa sociedade que não cansou de apontá-la como o erro. Por encarar o mal e horrível, a escritora também arcou com as consequências, e se tornou bem mais amarga do que aquela doce Lana que conhecíamos, e bem mais oportunista também, mesmo fazendo o correto e se tornando um ícone. Nem tudo realmente é da forma perfeita como nos é mostrado na deturpação midiática. Exemplo disso é o fato de que só depois da tecnologia da filmagem chegar a ser disponível, é que Lana resolveu fazer sua reportagem denunciando Briarcliff e todos seus absurdos e horrores, já que via o futuro do jornalismo na área do visual.

Winters conseguiu fechar Briarcliff, após as terríveis e realistas imagens que gravou para a matéria, mostradas no último episódio da temporada, denunciou Timothy, que covardemente cometeu suicídio, e foi buscar Jude, mas ela não estava mais no hospício. Fuçando nos papéis da instituição, ela descobriu que Jude foi entregue aos cuidados de Kit. Em sua emocionante visita ao rapaz, Lana ouviu o quando aquela senhora foi capaz de mudar. De uma mulher conservadora, cruel e hipócrita, Jude teve que passar por tudo aquilo que proporcionava aos seus pacientes, ser oprimida pelo próprio sistema que criou, passar anos enlouquecendo para que pudesse ter sido mudada. Se os opressores experimentassem o que fazem aos oprimidos, o mundo não seria essa injustiça toda que todos já estamos acomodados. Com uma pequena ajuda alienígena, Jude se torna uma senhora amável, tolerante, em paz em consigo mesma. Quando vê a morte a esperando, ela dá um lindo discurso para as duas crianças de Kit, agora mais crescidinhas, e aconselha à filha de Alma a ser livre, pois já se deu início à década de setenta, e ao filho de Grace seguir uma carreira que ame, e que não faça nada apenas pelo dinheiro.

   Ao desenrolar da temporada, a mudança dos personagens foi um dos grandes pontos. Oliver se revelando, Lana passando de vítima para uma arrogante justiceira, Kit de assassino e perturbado para um garoto altruísta, Jude de vilã cruel para uma doce “vovó”, Eunice de santa para demônio, Arden de cientista nazista e gelado para alguém que via numa jovem freira a representação de uma inocência e bondade extintas no seu mundo de horrores. A bela construção de vários mistérios durante principalmente os episódios iniciais, como quem era Bloody Face; o que eram as criaturas das florestas criadas por Dr. Arden, que depois descobrirmos serem cobaias de seu experimento para elevar a imunidade humana; qual era o envolvimento de Kit com os alienígenas, revelando ser o garoto um estudo sobre a vida e reprodução de sua espécie; foram gradualmente se resolvendo e reduzindo para os roteiristas darem mais atenção ao desenvolvimento de cada personagem. Alguns partiram muito cedo (a mais desperdiçada foi Shelley), outros ganharam destaque lá pro final (Pepper), mas o tratamento dado para os protagonistas foi sensacional.

   Deu pra sentir amor e raiva, pena e rancor por cada um deles (tá, pelo Kit talvez não). Suas tramas, que de início pareciam isoladas, foram ganhando encaminhamentos interessantes e se convergindo em entrelaçamentos que, no final, acabaram quase irretocáveis. Muitos estranharam que vários pontos e figuras da narrativa foram se encerrando meio cedo, como a morte daquela que se tornou a grande vilã da temporada, Irmã Eunice, e a saída repentina de Lana do hospício, mas tudo foi contornado com esperteza, não deixando nada faltar ou a peteca cair, resultando numa maravilhosa season finale. Coesa, dando dignidade a cada personagem e tão poética a ponto de cair lágrimas, com o Anjo da morte buscando Jude, mas nunca deixando de ser violenta e absurda. Apesar dos ótimos textos da temporada, dando tempo para cada história em tela, seus triunfos também se devem à edição rápida, à agilidade sempre presente nas direções e também à sua concepção visual, que acaba formando grande parte de seu estilo.

Com tons cinzentos e desbotados, explorando escuridão, luz e sombra e cores em momentos fortes, aliados aos ângulos estranhos, movimentos de câmera por vezes cinematográficos, por vezes bizarros, a série conseguiu uma bela perícia técnica em seu retrato de podridão e terror, retratando um mundo decadente através de uma fotografia irretocável. Mas o deslumbre da temporada também se expande para diversas referências cinematográficas, na busca de fórmulas de boas histórias, e de fazer delas um delírio irresistível. O assassino com máscara de pele humana, referência direta a Leatherface, o serial killer da série de filmes slasher “O Massacre da Serra Elétrica”; a figura da enfermeira-chefe prepotente e sádica, já vista no clássico “Um Estranho no Ninho” na pele de Mildred Ratched; as cenas estouradas e clean de raptos alienígenas no melhor estilo “Arquivo X”; tudo no resultado dos roteiristas em estudar e fazer uma constante rebuscagem de personagens e histórias que conseguiram impacto e do medo em sua forma mais crua.

   “American Horror Story – Asylum” foi um épico do horror como há muito tempo não se via na televisão. Tanto sofrimento e dor num mundo de realidades cruéis e dobras no fantástico foram recompensados na entrega de uma temporada concisa, brutal, emocionante, com diversos de seus segmentos tocando em feridas morais e sociais, trazendo à tona confrontos ideológicos, preconceitos, intolerância de uma sociedade hostil e conservadora, sistemas opressores, aparências e realidades. Ultrapassando os obstáculos que tornaram a primeira temporada algo enfadonho, Ryan Murphy presenteou os fãs de sua mais bizarra e assustadora criação com um espetáculo além do terror, da bela recriação de época e duelos de interpretações. Com sua estética rápida, expansão temática e perturbação, “Asylum” nos mostrou o quanto estamos suscetíveis ao mal e como, ao enfrentá-lo, uma parte dele residirá sempre em nós.

“Just remember. If you look in the face of evil, evil’s gonna look right back at you” – Irmã Jude

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