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Sabe aquela sensação de não saber o que você achou do filme que acabou de passar pelos seus olhos? Pois bem, “Prometheus” foi uma dessas experiências, já que os trailers e a imensa divulgação prometiam um outro tipo de filme do que nos foi apresentado. Todos já sabiam que o mais novo filme da franquia “Alien” não teria muitas relações com o Xenomorfo, aliás, seria o início uma nova história, com novos monstros, para uma possível nova franquia, estabelecendo sim conexões com o filme original, mas não fazendo delas os seus pontos centrais. Portanto, todos já sabiam também que o filme carregaria boa parte da atmosfera originada por Ridley Scott no primeiro “Alien”, de mistério se revelando gradualmente e tensão absurda que vai engolindo o espectador, perdido, assim como os personagens, em meio a todo aquele visual moderno, de escuridão e mortes inesperadas.

 
Então, o que fez muitas e muitas pessoas se decepcionarem com “Prometheus”? Bem, pode-se dizer que o prelúdio de “Alien – O Oitavo Passageiro” quis, erroneamente, ser a ficção científica de horror do século, assim como o primeiro filme da franquia passou a ser a maior do século XX. Com o próprio Ridley Scott afirmando que seu filme seria uma espécie de “2001 – Uma Odisseia no Espaço com anabolizantes”, o pretencionismo de seu filme começou desde aquele viral com Guy Pearce, interpretando o (ainda) jovem Peter Weyland (o presidente da Corporação Weyland, que financia a pesquisa dos cientistas), e foi aumentando cada vez mais com a imensa divulgação, virais, fotos e os excelentes trailers, prometendo ser um filme diferente do que acabou sendo. “Prometheus” carrega sim muitas das características do primeiro “Alien” e consegue uma identidade própria, porém pertence a uma espécie de filme diferente da que o próprio diretor pensava estar realizando.

Comecemos pelo enredo. Um grupo de pesquisadores, liderados pelas investigações científicas de Elizabeth Shaw e Charlie Holloway, guiados pelos indícios de conexão entre alienígenas e humanos em pinturas rupestres, partem numa viagem para uma distante lua, a fim de descobrirem as respostas para a origem da raça humana e todo seu futuro. Abordo da nave Prometheus, metaforicamente se referindo à mitologia do titã Prometheus que roubou o fogo de Zeus e foi eternamente punido, os cientistas aterrissam na lua LV-223 e passam a explorar o grande templo alienígena encontrado, mas nem imaginavam o quanto suas ambições em descobrirem o início, agora os encaminham para o fim de suas próprias vidas. Estabelecendo real contato com formas de vida alienígenas e obtendo algumas das respostas que procuravam, o grupo passa agora não a procurar descobrir nosso surgimento no universo, mas a fazer de tudo para sobreviver ao pesadelo ao qual deram início.

A dupla de roteiristas, Damon Lindelof (“Cowboys & Aliens”, alguns episódios de “Lost”, acostumado a deixar pontas soltas em seus roteiros) e Joh Spaihts (“Hora da Escuridão”) fizeram um trabalho competente, que praticamente pode ser dividido em duas partes. A primeira parte é o desenvolvimento dos questionamentos e de premissas fascinantes sobre a origem da existência humana, de onde viemos, qual o nosso início temporal e biológico, e para onde vamos, até quando nossa raça irá viver e até onde poderá chegar, inicialmente guiando os tripulantes através de um mapa estelar que pode revelar a origem humana e sua relação com alienígenas, mas depois chegando cada vez mais perto das verdadeiras questões a qual o filme se desenvolve ao redor: Estamos preparados para as respostas de nossas maiores perguntas? Será que realmente queremos ter conhecimento delas? O que nossa ambição em descobrir verdades maiores que nós mesmos pode acarretar? As respostas, como visto na segunda parte, são as mais pessimistas.

As questões de cunho mais filosófico e a estética que muito lembrava “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, com contemplação de corpos celestes e um ritmo mais gradual, presentes na primeira parte, agora são substituídos pela insanidade da segunda parte, que revela a verdadeira faceta do filme a que estamos assistindo, a de uma experiência violenta, bizarra, de luta pela sobrevivência e arrependimento pelas ambições descontroladas e intenções mal calculadas, a sede pelo conhecimento tem agora sua garganta rasgada. De uma ficção-científica filosófica de tensão delicadamente construída, somos imersos num filme de horror intenso, de ações brutais e resultados absurdos, alguns até inverossímeis. De um intenso mistério pela procura de sinais dos nossos criadores, tomando cuidado para nada ser revelado antes de seu momento, agora somos levados a uma viagem alucinada, de monstros com grandes tentáculos, uma nova espécie de facehugger, zumbi alienígena e Space Jockeys exterminadores.

“Prometheus”, com seu desejo intenso de ser um épico do horror, consegue sim tocar em vários assuntos, mesmo que muitos deles sejam tratados de forma bastante simplista. A obra toda gira ao redor da hipótese de alienígenas serem os criadores da existência humana, visitantes constantes da Terra e controladores de todo o desenvolvimento da humanidade com o passar dos milênios, portanto, nossos “Engenheiros”. Apesar de todas as perguntas e dos tais “Engenheiros” serem revelados, não ficamos sabendo quem eles realmente são, se apenas se trata de alienígenas avançados que usaram a raça humana como cobaia e, agora, desejam encerrar suas experimentações, ou se eles podem ser uma espécie de semi-deuses, encarregados de guardar as respostas divinas para as maiores perguntas, preferindo matar e se calar ao invés de entregá-las. A criatura humanoide, albina, misteriosa, de grande força e altura, é de longe o ser estranho que ganha mais destaque, já que seu papel é fundamental na trama para todo o entendimento dela e sua conexão com o primeiro “Alien” (porém é bom lembrar que os dois filmes ocorrem em luas diferentes).

Aliás, não é só em relação ao Space Jockey que “Prometheus” tem conexões com a franquia “Alien”, em especial com o primeiro. Afinal, a premissa desse mais novo capítulo é muito semelhante a do filme original, com um grupo de pesquisadores aterrissando numa lua (por motivos divergentes, já que no de 1979 é a intercepção de um estranho chamado o motivo do pouso), interagindo com forças alienígenas desconhecidas e enfrentando brutais consequências pelos seus atos. As funções sociais de cada tripulante na nave ainda estão lá, conservadas, como o otário que morre de maneira terrível, o cara simpático e com alma de liderança que é morto pelas circunstâncias, o negro que se sacrifica para ajudar os sobreviventes da tripulação, a mulher forte que vai criando força na película e crescendo de importância cada vez mais. A atmosfera carregada de tensão e frieza do primeiro é renascida aqui, primeiramente dominada por uma curiosidade sombria e descobrimento de segredos universais, depois mergulhada numa imensa claustrofobia, de horror no espaço, de impossibilidade de fuga, com tripulantes sendo mortos por monstruosidades e o pânico se instalando. Apesar do que possa parecer, Ridley não repete o trabalho que realizou a mais de trinta anos atrás, mas sim o remoderniza para um novo modelo de sci-fi horror, mais explícito, ágil e com maiores expectativas em torno de si mesmo.

Ainda com relação aos personagens, tirando a protagonista Elizabeth Shaw, interpretada pela sempre ótima Noomi Rapace, que dá vida a uma mulher forte e responsável por grande parte dos questionamentos sobre fé e religião presentes no filme, e o androide David, o coadjuvante mais bem trabalhado (apesar de ser sugado do robô do primeiro filme), cheio de intenções duvidosas e atitudes ambíguas, interpretado por um dos grandes nomes do cinema atual Michael Fassbender, quase todos os outros são desprezíveis. Isso não chega a denegrir o filme, já que em todos os capítulos da franquia (menos no inicial) os personagens também não recebem muita importância, profundidade e poucos ganham destaque (somente para suas mortes serem sentidas). Com exceção do primeiro filme, os personagens de cada exemplar da franquia são antipáticos e mal escritos, sejam eles os tripulantes imaturos de “Aliens – O Resgate”, os marginais de “Alien 3”, os vândalos de “Alien – A Ressurreição”, os gananciosos de “Alien VS Predador” e agora os idiotas de “Prometheus”. Mesmo que nesse mais recente capítulo da franquia a nave tenha 17 passageiros, torcemos para apenas dois deles alcançarem um final digno.

Se há uma coisa em que “Prometheus” acerta com exatidão, é o deslumbre visual. Captando a alma de mistério pelo desconhecido e pelo perigo mortal, temos uma lua desértica, de terrenos cinzentos e montanhosos, que escondem um imenso templo alienígena, sombrio e cheio dos mais diversos detalhes. A estética futurista, presente principalmente nas naves humanas e alienígenas, impressiona pelo realismo, pelo inédito e pelos efeitos especiais avançadíssimos com relação aos quais a série já apresentou em filmes anteriores, já que não há razão para que a tecnologia apresentada aqui seja inferior a da apresentada em “Alien” e suas sequências, pois obviamente estamos hoje num nível superior dela do que trinta anos atrás, ou seja, a lógica temporal na qual os filmes foram feitos torna completamente compreensível a evolução técnica de “Prometheus”. Seja em planos gerais absurdamente belos ou em planos mais fechados, é no deslumbre visual que o filme consegue atingir o mesmo nível de perfeição alcançado em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, uma de suas maiores influências.


Se “Prometheus” não fosse tão ambicioso, se levando tão a sério e querendo ser a sci-fi de horror do século, talvez a decepção de muitos não teria acontecido, ou, pelo menos, seria amenizada. O filme de Ridley Scott é um belo exemplo de obra cinematográfica prejudicada pela publicidade extrema e pela imagem que fez de si mesma, que não corresponde ao real filme que é. “Prometheus” é o típico filme B de sci-fi horror, com teorias mirabolantes, monstros diversos, momentos chocantes (a já clássica cena da cirurgia), inúmeros furos, cenas absurdas e personagens, em sua maioria, estúpidos, porém com estética de filme A, com atores de altíssimo escalão, ótimos efeitos especiais e um visual arrebatador. Por mais que Scott queria ter feito seu filme o mais sério e inteligente possível, é justamente não o levando tão a sério que sua obra se transforma numa viagem angustiante, de questionamentos válidos e absurdamente divertida. Se nas outras obras de ficção-científica de Ridley Scott o objetivo é amedrontar (“Alien – O Oitavo Passageiro”) ou provocar reflexão (“Blade Runner – O Caçador de Andróides”), aqui fica bem claro que o principal objetivo é o essencial entretenimento.

Avaliação: 4/5 

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