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É comum no ramo das artes que determinada obra, desvalorizada em seu tempo, passe a ser reconhecida por gerações posteriores. Não importa se foi vítima de um massacre de crítica e público, os tempos são outros, a visão é outra, a arte é tida de formas diferentes. O cinema, especialmente, é abundante em clássicos, subestimados em suas épocas, que não só fizeram parte da redefinição de cinema, como também abriram possibilidades para outras obras prejudicadas no passado pudessem obter o respeito que mereciam, agora no presente. Beneficiada pelo interesse de inúmeros cinéfilos, “Parceiros da Noite” conseguiu nos dias de hoje se estabelecer como um clássico cult, fugindo da imagem de filme maldito odiado por críticos e grupos específicos. Sua reascensão se deu tanto pela maestria com que tudo é conduzido, quanto pela tremenda ousadia exibida sem pudores.

Logo no início, somos apresentados ao submundo do sexo gay hardcore, em bares noturnos e camuflados, que serão palco para os mais bizarros fetiches, incluindo fantasias de policial, transas públicas, golden shower, fist fucking, jockstrap. Steve Burns, um policial hétero, tem o dever de se infiltrar nesse mundo sombrio de erotismo para capturar o assassino que está matando os freqüentadores gays do lugar, a fim de subir na profissão. Em meio a tudo isso, percebe-se a impecável criação de ambiente, cheio de fumaça e corpos suados numa fotografia noturna, que privilegia o preto e o azul, ainda contanto com uns travellings bem usados para exibir a diversidade de rostos e roupas de couro. Cada olhar parece acusador ou libidinoso, cada um daqueles seres pode ser o potencial assassino pela visão de Steve Burns (e isso é excelentemente usado, por que nós, espectadores, já sabemos a identidade do psicopata). O perigo ronda cada beco tomado pela escuridão.

A narrativa segue perfeitamente, caminhando em cautela por uma trama policial obscura e bem amarrada, até o foco mudar para se concentrar no principal suspeito e perdendo um pouco do efeito que o filme estava mantendo. Não que chegue a prejudicar, mas o que poderia ser excelente, acabou na base do satisfatório. Se o foco da trama fica instável, a tensão se mantém durante todos os minutos, se apoiando no clima de submundo e nas ótimas cenas de assassinato para compor uma experiência única no cinema. Apesar do suspense absurdo, há cenas em que o humor negro domina, como a interrogação policial cuja conseqüência de não confessar é a de ter o rosto marcado pelo tapa de um negro brutal.

Pelo seu estilo, percebe-se que William Friedkin se sente seguro em filmar ambientes incomuns, estranhos e regados a perversão, que, no caso da obra, são os bares gays noturnos. Além disso, Steve Burns parece ser um típico personagem de seu diretor: Imerso num mundo desafiador, sofrendo física e psicologicamente pelo desgaste, se expondo a autoflagelação e ao sacrifício para concluir seu objetivo. Se o mocinho consegue ser bem trabalho, o seu antagonista também consegue. É realmente uma pena que o assassino tenha aparições em pouquíssimos momentos, já que, além de sua voz e aparência serem ameaçadoras, sua mente é terrivelmente atormentada pelos íntimos desejos homossexuais, ao mesmo tempo em que sente repulsa por eles, numa espécie de homofobia por ele próprio, tirando a vida de homens para que possa reprimir seus instintos. Sua presença às vezes é confusa, pois, mesmo quando sua identidade já é revelada logo no começo, as outras cenas de assassinato são escuras, o que pode gerar dúvidas a respeito de ser ele ou não.

Porém, é de se estranhar que um filme desse alto nível pudesse ter sido tão massacrado. A razão é simples e direta: Friedkin escolheu o momento errado para dirigir seu filme (não que tenha havido um período certo). A camada gay lutava fervorosamente pela conquista de seus direitos, ainda sofrendo pela morte do ativista Harvey Milk, e de repente chega aos cinemas uma das únicas obras cinematográficas que abordam os gays, e ainda por cima os exibe como criaturas cheias de doenças e viciadas em sexo. Porém, o objetivo do diretor não foi de mostrar a verdadeira faceta dos homossexuais, mas de ambientar sua trama num local onde grande parcela da sociedade ainda acha o cúmulo da degradação, habitado pelos seres mais baixos e vulgares. A polícia obriga os travestis a fazerem sexo oral, os humilhando, mas ninguém dá a mínima para aquelas “aberrações”. Com isso, seu filme tem uma grande parcela de denúncia contra a corrupção policial e o descaso da sociedade com as questões LGBT, ou seja, é favorável aos direitos dos homossexuais, em vez de condená-los.

De uma trama cercada de sexo, morte e fetiches, Friedkin faz nascer um grande filme. Pelo respeitável diretor que é, conduz sua obra com uma autonomia raríssima ao recriar ambientações e temáticas incômodas, guiando seus espectadores na viagem ao seu submundo obscuro, de tarados e assassinos. É um tipo de cinema que a cada dia se extingue com a restrição da liberdade de expressão, uma mistura de controvérsia e inteligência cada vez mais rara nas telas de cinema. Não é só seu excelente filme que tem de ser redescoberto, mas também a própria carreira de William Friedkin precisa ser desvinculada de preconceitos e olhares fáceis, para que as experiências fornecidas por sua filmografia, seja na visita á casa de uma garota possuída, um bar de orgias gays ou uma cidade tomada por traficantes e policiais prepotentes, possam ser vividas e admiradas por gerações futuras e, como se espera, feitas de pessoas com pensamento mais amplo.

Avaliação: 4/5

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