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Se os anos 80 sofreram com uma onda de slashers e os 90 com as sobras do sucesso da década anterior, os anos 00 foram vítimas tanto dos infinitos remakes, como da ascensão de um novo subgênero do horror, o “mockumentary”, que é basicamente um falso documentário (supostamente real) no qual os próprios personagens gravam o filme inteiro, ou seja, o espectador é posto como se pertencesse a trama. Eleva o realismo, eleva a interatividade, eleva a tensão, eleva o dinheiro no bolso das distribuidoras…

O estilo nasceu com “A Bruxa de Blair”, mas em sua época específica não fez muito sucesso e não eram muitos os que botavam fé naquela experimentação de câmera. Rebuscando essa estética na segunda metade da última década, “Atividade Paranormal” fez um estrondoso sucesso e instalou de vez o “falso-documentário” no cinema de horror. Não faltaram obras oportunistas como “Cloverfield”, as seqüências de “Atividade Paranormal” (2007), “O Último Exorcismo” (2010), e filmes (pouquíssimos) que usaram essas características para se consagrarem como obras-primas, como o espanhol “[REC]” (2007). Infelizmente, “A Filha do Mal” pertence ao primeiro grupo, os descaradamente oportunistas.

O problema mesmo nem é o fato de ser oportunista, mas sim o de não cumprir o que promete. Quem vai ver um filme sobre uma mulher que viaja para a Itália com o objetivo de ver sua mãe que, “só” duas décadas atrás, matou três pessoas durante um exorcismo, não quer saber de nada além do medo, da tensão. É claro que o roteiro, a direção praticamente nula e as atuações (as únicas que soam convincentes são a da Maria Rossi possuída e da garota no porão) só estão lá para dar estrutura a um castelo de cartas tão frágil que o mínimo sopro já o derruba. Um estrago de grandes proporções.

Pra começo de conversa, o roteiro é horroroso. Como de costume, a história caminha do nada para o nada. As informações dadas sobre a mãe e sobre os exorcismos são todas jogadas na tela, são poucas as que fazem alguma diferença na trama, que caminha bamba entre as cenas que mostra e a relação delas com o resto da narrativa. Aliás, chega uma hora em que a mãe é simplesmente esquecida, o que é deveras incabível, pois, além do roteiro inteiro girar ao seu redor, ainda há o fato de existir outros demônios dentro dela, não só aquele que possuiu o padre. Tudo vai sendo construído dessa forma, simples e precariamente, até o longa se auto-destruir com um desfecho que nada explica, nada assusta, um belo nada.

Há uma grande escassez de sustos, o que é praticamente suicídio num filme como esse. Um cachorro late ali, alguma coisa cai em algum lugar, mas nenhum susto que realmente mostre algo que persista, algo honesto com o espectador. Se nem os sustos conseguem ser eficientes, pelo menos a atmosfera do filme é ótima, tanto pelo estilo que provoca uma crescente tensão, quanto pelo próprio tema de exorcismos e a fotografia gélida de alguns cenários italianos. Por abordar a vida de uma mulher drasticamente mudada pela situação de sua mãe e padres realizando exorcismos ilegais, ou seja, sem a autorização do Vaticano (o longa faz uso disso como se fosse uma obra corajosa, transgressora, o que só contribui com a precariedade de tudo), há bons diálogos a respeito de possessão demoníaca e seus sinais, a hipocrisia e prepotência do Vaticano a respeito do tema, a preparação dos padres para suas realizações e o envolvimento de pessoas comuns com essas entidades maléficas e desconhecidas.

A trama é encharcada de furos, obviamente. Só para citar alguns: (1) Quando a mãe fala “Conecte os cortes”, supõe-se que as cicatrizes indiquem algo escrito em seu braço, mas não, é só um bando de cruzes viradas ao contrário; (2) No início, quando os corpos estão sendo filmados, algo bate na câmera e a desliga, mas isso nunca é citado novamente na trama; (3) Pra que serviu aquela cena tosquíssima do batismo? O outro padre simplesmente não notou que seu companheiro estava possuído?; (4) O caso de um dos protagonistas com o tio é citado, mas nunca é revelado nada que se concretize; (5) A tentativa de mostrar a inconformidade dos protagonistas com a câmera filmando todos os seus passos, o que gera cenas ridículas e que não servem pra nada; (6) O final. A coisa mais imbecil realizada em toda a duração foi realmente o final, um desfecho completamente abrupto e sem explicações. “Ué, mas já acabou o filme?” Acabou sim, e todo mundo na sala de cinema riu da palhaçada.

Quatro cenas ficam na cabeça depois dos créditos. A primeira é o exorcismo filmado e exibido para os padres analisarem, que é simplesmente hilária, não dá pra segurar o riso com a atriz tentando fazer uns sons bizarros de algum animal esquisito; a segunda é o exorcismo no porão, que é disparada a melhor cena do filme, caprichadíssima em todas as contorções da garota e no ambiente pesado; a terceira é a mãe da protagonista no hospital, quando está deitada e amarrada enquanto os padres tentam exorcizá-la, que é também uma cena bacana de acompanhar; a quarta é o suicídio (?) do padre, tensa por não sabermos em que hora ele atirará. O resto do filme é resto, não há muito do que aproveitar.

Por sugar quase tudo que possui de outros filmes, é óbvio que aqui encontraremos várias referências (e muitos plágios). Desde as mulheres possuídas soltando altos palavrões e frases diretamente pegadas de “O Exorcista” (1972), como “Essa porca é minha! Essa porca é minha! Arrr!”, até o uso todo clichê da câmera, com lentes desfocadas, a imagem parada num lugar avulso enquanto os protagonistas fazem algo em off-screen, o filmador com mal de Parkinson, os cortes dentro das cenas que retalham completamente a sensação de “tempo real” criadas. É tudo copiado, mas se ao menos conseguisse copiar bem, ia sair algo satisfatório, mas é algo que está claramente além da capacidade de William Brent Bell, que dirigiu também o lixo tóxico “Stay Alive” (2006).

Mas, vamos ser sinceros. Os que vão assistir filmes como “A Filha do Mal” querem mesmo é somente se assustar, ficarem tensos com o que está sendo mostrado, amedrontados pelos horrores em tela, o que a obra faz de uma maneira bem razoável. Se nem os sustos conseguem proporcionar diversão, pelo menos o clima pesado faz bem sua tarefa. Brent Bell tinha vários recursos bons em mãos, mas conseguiu estragar tudo ao dirigir com absoluta falta de interesse um longa tão safado quanto esse aqui, que até fica bacana se analisarmos os furos, as atuações falsas e todas as bizarrices ao longo da projeção. A obra diverte, mas pelos motivos errados. Pra quem quiser ver um filme relativamente tenso, com uma ótima atmosfera, mas quase sem sustos e indubitavelmente burro, é uma boa pedida!

Avaliação: 2/5

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