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Só tomamos pedra. Aquela conta que não saiu como previsto, aquelas situações que não chegam nem perto da idealização gerada e aquele relacionamento em que se depositava fé e evaporou tão rápido. O jeito é sorrir e continuar a caminhar, tentando reerguer a cabeça. E nunca se esquecer de sonhar, pois é isso que acaba alimentando a alma e, conseqüentemente, a alegria de viver. Não seria a vida, então, uma incansável busca pela felicidade? A esperança pode responder. Ela que já fez e fará tanto por Charity. A dançarina loira, de alma juvenil, a qual todos vêem, mas poucos a conhecem realmente.

Moça tão encantadora essa que um longa-metragem fascinante foi feito só pra contar sua história. A adaptação norte-americana do roteiro de “As Noites de Cabíria” (1957), clássico europeu realizado pelo mestre Federico Fellini, é posta em vida nesse que é um dos gigantes trabalhos do diretor Bob Fosse. É de surpreender qualquer um o fato de Bob ter começado sua carreira já com uma obra-prima, nem sempre reconhecida como deve. Além de tornar explícitas suas maiores características na direção, seu filme é facilmente um dos grandes nomes dos musicais por volta da década de 70, explodindo em qualidade narrativa e estilo visual. É claro que sua obra não surgiu do nada: o roteiro é uma versão adaptada de uma película européia, o jogo de cores parece ter vindo dos visuais dos filmes de Jacques Demy, entre outros. Mas a arte da coisa está em justamente tornar, daquilo que o inspirou no passado, em presentes e novas fontes de vida fílmica.

É um obra inspirada e inspiradora. Prova disso é a grande referência a um dos grandes feitos de Robert Wise, o maravilhoso “Amor, sublime amor” (1961), com a cena de “There’s Gotta Be Something Better Than This” muito parecida ao número ocorrido em um terraço vermelho cheio de escadas como plano de fundo, e os personagens cantando sobre suas esperanças de uma vida melhor. Fica claro também, quando assistimos ao número “The Aloof – The Heavyweight – The Big Finish”, que a obra foi foco para inúmeras influências futuras, uma claramente vista no clipe “Get Me Bodied” da cantora Beyoncé.

Visto tudo isso, fica claro que Fosse não hesita em demonstrar a fonte de sua inspiração, pelo contrário, quer mais é exibi-la. Com figurinos misturando desde os vestidos clássicos das musas de jazz até a mais escandalosa vestimenta de travestis em parada gay, estilo bem influenciado por Federico Fellini (novamente ele!) e suas deliciosas extravagâncias, o ambiente é de pleno êxtase visual que se expande principalmente com as coreografias energéticas e em plena coordenação, graças ao trabalho exímio do diretor, que é também dançarino e coreógrafo, que é também amante de um bom musical.

Seu filme possui uma personalidade chamativa, de luzes e cores variadas, como se visitássemos a boêmia e os clubes de jazz, transformando a sensualidade e fumaças de cigarro em sua própria atmosfera. Holofotes vermelhos costumam avisar quando as dançarinas farão seu trabalho, carregando suas roupas exageradas e maquiagem lotada. Elas chegam com seus saltos altos e dão início a coreografias tresloucadas, enquadramentos de câmera inusitados, muito calor e energia. Mantendo ainda o ar ingênuo e bem aproximado do teatral dos filmes clássicos musicais, mas já adicionando uma modernidade de captura da imagem (só ver o número composto de três frases pra saber do que estou falando) e temas não tão agradáveis assim, como a traição e desilusão, “Charity, Meu Amor” é um marco de transições em seu gênero.

Já em seu primeiro trabalho no ramo cinematográfico, Bob se permite as mais diversas “brincadeiras”. Em vários momentos, o diretor acaba por quebrar a linearidade de 24 quadros por segundo e foca somente uma imagem durante um certo tempo, como se fossem exibidas várias fotos, a fim de tornar a falta de movimento algo memorável, e consegue, principalmente quando o sorriso de Charity aparece inalterado por muitos segundos. Outra digna de notar é quando o filme sofre uma rebobinada, somente dentro dos números musicais, repetindo o presente que julgávamos já ser passado.

Realizando suas “brincadeiras”, percebe-se que Fosse tem certeza do que faz. Possui tanta segurança que arranca performances exemplares de seus dançarinos, e atores também. É indubitável que a o desempenho de Shirley MacLaine se equipara a de Liza Minelli em outro grande clássico feito por Fosse, “Cabaret” (1972). Energética, feminina e brilhante, a atriz incorporou toda a vibração emocional de Charity, sua ingenuidade, alegria boba e empolgação, produzindo uma personagem extremamente adorável e memorável na história do gênero. Sua personalidade se expande e atinge a trama, de ininterrupto charme, encanto e ingenuidade ao transformar a traição e solidão em delírios de palavras e luzes, um sonho onde o que realmente importa é o buscar ser feliz.

A premeditada morte aos 60 anos foi uma lástima, porém, um verdadeiro artista deixa sua arte viva após sua partida e, no caso de Fosse, pelo menos outras duas obras-primas. É difícil não se entregar à doçura de Charity, às vibrações dos passos de dança, à música lavando a alma e o ritmo de uma existência que apenas levanta os ombros para os problemas e dá espaço para um novo dia chegar. Não importam quantas pedras a atingirão, Charity continuará sempre a sorrir.

Avaliação: 5/5

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