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No final da década de 90, surgiu um dos maiores filmes cult contemporâneos, pelas mãos de uma diretora em pleno início de carreira e um grande sobrenome nas costas. A tal era Sofia Coppola, que resolver seguir os passos de seu pai Francis Ford Coppola – um dos monstros do cinema norte-americano, tendo realizado“O Poderoso Chefão” (1972), “Apocalypse Now” (1979) e muitas outras grandes obras – e acabou dirigindo seu primeiro filme, o que na verdade se revelou um grande acerto, ao nos revelar uma verdadeira artista de tamanha personalidade e olhar íntimo que é impossível não concordar sua herança para o talento cinematográfico, tanto que a partir daí foi só obra-prima seguida de obra-prima, sendo “Encontros e Desencontros” (2003) o filme máximo de Coppola, que também é um dos filmes máximos da década que passou.

Mesmo sendo fruto de sua iniciação no mundo cinematográfico, “As Virgens Suicidas” é um pequeno grande filme da diretora. Pequeno, por que não esconde sua simplicidade na estrutura, na forma em se contar a história. Grande, por que além da trama simples e rostos bonitos, se encontra uma jóia tão sincera e reflexiva, saída da cabeça inspirada de sua autora, que é um feito espantoso a mesma ter feito uma sutil obra-prima já em sua primeira tentativa. Contando com um elenco eficiente e de algumas caras conhecidas, como James Woods e Kirsten Dunst (que realiza a melhor atuação do longa, não sendo por acaso que a diretora tenha escolhido a mesma atriz para interpretar, anos mais tarde, o papel de protagonista em seu “Maria Antonieta” – 2006 –), o filme é um marco no cinema noventista e uma das grandes obras do excelente ano que foi 1999.

Desde o começo de seu trabalho, Sofia nos convida gentilmente a observar de perto suas cinco Rapunzéis (comportadas, angelicais, de cabelos louros), ou melhor, quatro, já que uma logo no início acaba não suportando e pula da torre, em seus “inocentes” 13 anos. Todas elas acabam trancafiadas na casa, completamente fechadas em um mundo aberto. Não há cabelos longos o bastante para fugirem, não grandes príncipes encantados para socorrê-las. Por mais que vemos as meninas pela ótica dos meninos do outro lado da rua, sentimos que não estamos próximos o bastante daqueles seres desamparados, estranhos, longe demais para serem tocados. Vazias elas não são, mas é o que parecem. Atrás de seus sorrisos tímidos, pele branca e fios lisos, os sonhos e os desejos se escondem pelo regime repressor ao qual estão submetidas, jogando no ar e deixando que o vento sugue toda a jovialidade que possuem, e conseqüentemente, a vida.

A superproteção dos pais e retardamento do amadurecimento natural das garotas é tido como real na trama, mas funciona muito melhor como uma metáfora do isolamento ao qual muitos pais submetem seus filhos e o quão complexa e enlouquecedora pode ser essa fase tão embaçada em tudo que é a adolescência. O pai e a mãe, figuras altamente limitadas e sem contato social, inibem todas as garotas de fazerem coisas que as adolescentes de suas idades normalmente fazem, como sair com rapazes, dormir na casa de amigas, usar roupas mais ousadas, justamente na fase da nascença da sexualidade, da construção de caráter e começo na vida amorosa, isolando-as num casulo completamente conservador (repúdio ao rock, aversão obsessiva aos rapazes e suas “intenções”) e sem brilho, tudo pelo medo exagerado de acabarem perdendo suas princesinhas para um mundo cheio das mais diversas experiências, prazeres, responsabilidades e, por fim, da chegada da vida adulta.

Elas pareciam ter tudo. Tinham uma casa agradável, uma família cheia de amor, condições de fazerem bons estudos, aparências ótimas e sorrisos brancos. Um mundo quase perfeito, sem riscos e crises, se somente olhássemos na superfície como os vizinhos ou na ótica da mídia sensacionalista, que condenam e se torturam de remorso por não terem feito nada para impedir um suicídio coletivo, numa hipocrisia tragicômica não menos real. É o clássico caso da observação em degradação da atitude, do não se mover enquanto males estão sendo expostos bem diante dos olhos, mas sempre há neblinas para cegá-los. Para as restrições obsessivas dos responsáveis pelas garotas suicidas, não há leis que proibissem os fatores que levaram à derrocada emocional delas, e nem haverá. As implicações e conseqüências da fase da qual as jovens viviam é um problema quase que totalmente interno, um beijo nos lábios ou uma traição corrosiva nunca poderão ser combatidos a não ser pelas próprias pessoas que o realizam. Porém, cada pessoa é capaz, gozando do máximo de sua liberdade, de destruir a vida a outra, mesmo que sejam simples pais tentando proteger suas crias.

A autora Coppola termina seu filme com a mesma perspectiva inicial dos garotos do outro lado da rua. Sem conseguir encaixar as peças daquelas personalidades femininas, encontrar definições para as motivações dos fatos ocorridos, e tentar inutilmente resolver o mistério de ressentimentos e aventuras inibidas que levaram as jovens a reavaliar a relevância de suas vidas. Os adultos ao redor, com ar de maturidade por já terem vivido situações semelhantes, dizem que tudo passa e, posteriormente, cicatriza. Mas, para as garotas, não houve tempo para cicatrizar, a ferida já estava aberta tempo demais. E tudo as consumiu. Quando se passa o momento, a fase, é impossível regredir no tempo. Não é algo que se possa voltar atrás, mas se lamentar. O baile, o beijo, o carro, o rock, o campo, os garotos, nada parecia mais importar. Um período tão delicado, de tantas descobertas e compreensão confusa de mundo, é desrespeitado e transformado em pó, pelo descaso e falta de seriedade da qual a adolescência é vista. No final, só o que resta é o remorso, e a mágoa de nunca descobrir o que será o amanhã.

Avaliação: 4/5 

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