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A alta sociedade sempre foi alvo para as alfinetadas de Luis Buñuel, que sabia dos lugares mais sensíveis possíveis para cutucar os costumes e atitudes dela. O espanhol nunca pareceu esconder essa fascinação satírica a respeito de tal classe, expondo-a ao completo ridículo em obras como “Discreto Charme da Burguesia” (1972) – título que já insinua algo contraditório – e “O Anjo Exterminador” (1962), justamente algumas de sua galeria de mais prestigiadas pelo mundo cinéfilo. Equilibrando muita classe com uma dose considerável de ousadia e escândalo, que podem passar despercebida hoje em tempos que o sexo virou algo banal, o diretor se centrava principalmente em sua ótica deliciosamente surrealista e extravagante do que seria palco para suas críticas e bizarrices geniais.

Chocando o público em plena década de 60, período de grandes transformações de valores na sociedade e mudanças drásticas no cinema com a revolucionária nouvelle vague, Buñuel lançou em 1967 uma de suas grandes obras-primas com “A Bela da Tarde”, protagonizada por Catherine Deneuve, atriz de um talento impressionante assim como a porcelana francesa de que é feita, tornando o filme o cúmulo de sofisticação satírica. Através de uma peculiar história para realizar as mais íntimas e estranhas reflexões, o diretor acabou por transformar a repressão da sexualidade por normas estabelecidas com o tempo e os desejos humanos mais ocultos num conto transgressor de libertação e verdades antes escondidas. O humor negro anda lado a lado com a inteligência, criando uma experiência tão inédita e sofisticada que fica difícil crer em todo aquele charme fino e classudo construído em prol da total hipocrisia, ascensão sexual e denúncia sem pudores naquilo em que se foca.

Tudo gira em torno de Séverine. Uma mulher belíssima, de curvas estoneantes e envolta por uma graça imensa, esposa de um médico bem-sucedido, mas que enfrenta um grande problema: Não consegue obter prazer com seu marido. Conseqüentemente a isso, a dama vai procurar pelas ruas de Paris um novo modo de atingi-lo novamente e se livrar de sua vida entediante, até que encontra uma casa de prostituição de luxo, onde as garotas fazem programas simplesmente pelo prazer, mesmo recebendo algum dinheiro como recompensa. Era tudo que ela, a determinada “Bela da Tarde”, desejava. Entre surrealismos, obsessões e entregas, Séverine embarcará num submundo inusitado, tendo até que se fingir de morta para a satisfação de seus clientes.

O começo já pega o espectador de surpresa, um rápido dedo no gatilho e um fetiche inesperado. Aliás, o fetiche propriamente dito parece ser a grande fonte de inspiração para a realização de sua crônica sexual libidinosa, modelando todas as ações e sentimentos de seus personagens ao redor não só dele, mas da abstinência, do sexo, do amor, da violência e do quão o desconhecido pode ser excitante. O desenrolar da trama vai cada vez mais acentuando essa visão intrínseca, com carruagens saídas de um conto de fadas para levar a protagonista ao seu “mundo encantado”, diga-se, o mundo que cabe totalmente em seus desejos mais íntimos e secretos, e sonhos eróticos contendo um bom nível de sujeira. É magistral a condução de Séverine ao longo da história, principalmente quando ela já está no sistema de prostituição e não há possibilidade de fazer escolhas ou objeções, tornando-a totalmente submissa aos homens com quem realiza os programas, mas se sente satisfeita e deleitosa em sua entrega de prazeres sem restrições, já que não os encontra com seu marido. Tudo vai caminhando até o agravante encerramento, com o fim trágico costumeiro do diretor, que encerra sua obra com um final aberto inquietante.

Não há consideração nenhuma pelo suporte de aparências e camuflagem da verdade, tudo o que tem que ser dito é explícito e o que tem que ser mostrado é estritamente o necessário, nunca apelando para nudez completa ou mastigação a respeito dos significados dos devaneios de seu autor. Quanto mais contraditória e promíscua for sua personagem principal, mas o filme ganha o poder almejado de desmascarar a hipocrisia do sexo e a verdadeira faceta do ser humano por trás de suas posturas corretas e uniformes, conduzindo tudo com um humor negro delicioso e uma imprevisibilidade melhor ainda. Há bastante espaço para os fetiches quaisquer que sejam (alguns dignos de boas gargalhadas), atitudes e pensamentos subentendidos, reviravoltas e foco em assassinato, com momentos em que Buñuel até arrisca colocar uma relação lésbica no meio da história, mas prefere se controlar, já ousou demais.

Sendo o filme mais famoso do diretor, devido a sua vitória justíssima do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o tom de sátira e inteligência alcançado nesse seu filme não deixa nada devendo a obras do nível de “Discreto Charme da Burguesia”, considerada sua melhor realização. Buñuel conseguiu provar mais uma vez que a monstruosa fama de seu nome não é por acaso, ao transformar mais uma vez seus delírios surrealistas e paródias ácidas em verdadeira fonte de genialidade na construção de sua obra-prima, que utiliza Séverine como instrumento para a abertura de excitamentos sexuais e revelação do lado mais desconhecido humano, claro, com muita sofisticação e charme irônico no rasgo de facetas hipócritas. Seja para causar risadas de situações cômicas ou provocar reflexões que vão além da classe de beleza e estética a qual o filme pertence, a impressão final é a de que vemos uma obra tão corajosa e exímia como se firmou seu autor ao longo dos anos, se consolidando também num dos melhores filmes de sua década.

Avaliação: 5/5 

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