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A vida em sua forma pura e simples se resume a um recomeço diário de movimento, sensações e idéias que logo se dissipam, num ciclo interminável de amores e recaídas. Todo dia, quando despertamos, somos expostos a um fluxo constante de felicidade, tristeza, expectativas e desafios que se intensificam grandiosamente quando estamos rendidos a paixão. O amor louco, incondicional, infinito, que se converge num misto de dependência e corrosão quando tudo começa a desandar e a desilusão vem com o tapa na cara. Quanto a história caminha para um fim, nos lembramos dos momentos felizes, pequenos intervalos de contentamento, memórias perdidas no tempo, sorrisos e alegrias emolduradas em nossa mente, mas o encerramento parece tão perto que só nos resta acreditar na solução de começar de novo, um promissor início. Respirando a miséria amorosa e a finitude de um relacionamento perfeito, Kar Wai Wong fez de “Felizes juntos”, grande destaque de sua carreira, uma tragédia romântica pincelada de formas variadas, cautelosas e de uma beleza melancólica inatingível.

Tudo na obra gira em torno de Po-Wing e Yiu-Fai, um casal homossexual de Hong Kong que vai passar uma temporada na Argentina e, sem dinheiro, terão que ficar mais um tempo no país, mas visivelmente estão em constante crise. Enquanto Yiu-Fai é mais responsável e comportado em suas atitudes, Po-Wing é mais instintivo e movido pelas suas vontades, porém essa diferença de personalidades é só uma das múltiplas pequenas origens do desentendimento mútuo entre os dois. Entre discussões e desconfiança, o casal vai cada vez mais mantendo um ciclo amoroso que se repete ao darem uma nova chance ao amor incondicional e, tempos depois, verem ele se deteriorar com as conseqüências do tempo. O título “Felizes juntos” nada mais é do que uma bela brincadeira do que eles gostariam que fosse aquela íntima relação e o que ela é na realidade bruta e pura, uma idealização romântica que só é possível no mundo utópico das músicas de amor.

Os relacionamentos ganham forma e aparência únicas na película, como se o ambiente falasse pelos personagens e esses dialogassem por si mesmos, acabando por criar um drama denso e niilista em todos os altos e baixos daquela fragilidade na estabilidade do amor. São as pequenas negações, as atitudes em desacordo, as duas almas que não conseguem encontrar uma simultaneidade na dedicação e degustação daquilo que um dia já foi digno de união e prosperidade, que dão início ás infinitas crises, ao medo sufocante da total entrega de um para o outro, à dificuldade de dizer um “eu te amo” sincero, ao início do encerramento. Durante toda a trajetória narrada, os dois protagonistas vão coletando as migalhas que ainda sobraram, numa tentativa insistente em reedificar tudo aquilo que constantemente constroem e derrubam, ou pelo menos sentir as mesmas emoções novamente. Estão sempre buscando a alternativa de um nova possibilidade.

A visão do cinema de Kar Wai extasia. A aparência de seu mundo é descontrolada, confusa, de luzes fortes e escassez de uma lucidez ótica, um mundo íntimo de constante profusão de cores e localidades invadidas pelo espectador que ânsia, quando já tomado pela imagem desfigurada em momentâneos cenários quase alucinógenos, observar aqueles dois personagens perdidos na tela multifocal do diretor. O grande efeito de seu poema visual é justamente admirar e pincelar o quão bela é a relação de uma melancólica miséria de seus dois protagonistas, expressando o poder sentimental pela pobreza demonstrada nos móveis e paredes, pelas sombras numa interminável luta com os holofotes, na mescla de ambientes e emoções. É no preto-e-branco antigo, se transformando num close azulado da imensidão das Cataratas do Iguaçu, por sua vez se mutando em enquadramentos de um apartamento sujo e descuidado, que tudo é convertido na experiência ocular tão desejada e envolvente em todas suas loucuras ofuscantes.

Ao final, fica impossível não concordar que tudo tem um fim, até os batimentos rápidos do amor, que sobrevive de nossas escolhas e se liberta de dores e obstáculos da realidade somente nas próprias memórias. Quando a desilusão vem à tona e tudo parece sem controle, como águas devastadoras indo em direção a um buraco que mal se torna visível mediante as neblinas, é inútil tentar mudar seus cursos. A vida se torna confusa, a visão de tempo e ação se torna desfocada e tudo parece incerto, assim como o cinema de Kar Wai Wong, uma crônica sobre o amor e suas conseqüências, num misto de veias underground e sobriedade escassa, desajustado em sua essência de relação corrosiva e depressivo em mostrar que, apesar dos insinuantes olhos de ressaca da paixão, nos tragando á exaustão, é sempre possível nadarmos em direção a um novo início, à uma nova alternativa. Sempre há tempo para recomeçar.

Avaliação: 5/5

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