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Se já é difícil para um diretor arrancar a realidade pura de seu roteiro e das interpretações dos atores, é ainda mais difícil fazer com que o público creia nessa verdade incontestável. Um dos grandes obstáculos do mundo cinematográfico, independente do gênero apresentado, é convencer as pessoas a respeito daquilo que está sendo exibindo e principalmente, fazê-las parte disso. Porém, persuadir o espectador a acreditar nessa verdade nunca foi um obstáculo para John Cassavetes. Aliás, não é um exagero dizer que toda sua carreira foi baseada na arte de extrair o real cru para as telas, utilizando de diversas formas e maneiras para cumprir seu objetivo ambicioso. O resultado de seu trabalho pode ser visto tanto em seus filmes, como em sua carreira num todo que marcou história no cinema, principalmente o norte-americano.

Definindo um dos grandes primeiros passos do cinema independente, contando com o fato do diretor apenas contar com empréstimos de amigos e familiares para rodar seu longa, filmado apenas em apartamentos ou night-clubs comuns, “Faces” é uma pequena grande obra que habita o mundo cinéfilo. Cassavetes constrói um universo que se aproxima do íntimo na abordagem nua da realidade minimalista, exprimindo pessoas infelizes, confusas, despreparadas para a vida e o amor, enquanto suas personalidades vão se construindo com as ações e palavras muitas vezes improvisadas pelos próprios atores. A película revela bastante do seu estilo cinematográfico, que repete a cada uma de suas obras, fazendo dessa em particular uma digna do posto de obra-prima justamente por ser uma das primeiras lançadas oficialmente, com “Sombras” (1959) sendo o marco inicial nove anos antes.

Ao focar numa trama simples e em partes comum, o destaque é originado na força das palavras secas ao invés de grandes acontecimentos no roteiro. A história se concentra na vida de um casal de classe média alta em plena crise matrimonial, quando Richard Forst deixa sua esposa em segundo plano para se encontrar com a garota de programa Jeannie Rapp, e Maria Forst, por sua vez, sai com as amigas e se deixa levar pela simpatia vulgar do também garoto de programa Chet. Apesar de tudo ser embebido em litros de álcool e sentimentos adúlteros, o ponto de vista para tais questões não é de maneira alguma moralista ou condenável, mas consiste em registrar as atitudes e situações por uma ótica neutra do que seria moral ou não, certo ou errado, apenas mostrando a traição, falsidade e alcoolismo como um singelo observador.

É principalmente uma obra que sobrevive de expressões. Os close-ups e a captura rápida de quadros nada seriam sem o trabalho intenso do diretor com as atuações em cena, que facilmente multiplicam o profissionalismo e estilo visionário de Cassavetes, exibindo interpretações sublimes como resultado da rígida preparação dos atores, arrancando toda a verdade dos personagens que vem e vão no espaço retangular da câmera e na narrativa multipolar. O maior destaque dos atores, sem dúvidas, é a esposa do diretor na época, Gena Rowlands. Revezando entre olhares meigos e odiosos, usando da franja loira e da maquiagem para compor sua intensidade dramática, Gena magnetiza quando se faz presente em tela, dona de um dos momentos mais memoráveis da película, quando interrompe uma canção e exibe um olhar indescritível. Os outros atores, em especial Lynn Carlin e John Marley (o casal principal da obra), formam um conjunto de interpretações tão fortes e legítimas que é difícil de acreditar serem apenas atores contracenando um simples roteiro. São olhares, risadas e palavras que rompem a linha fictícia.

As pessoas retratadas na obra são constantemente voláteis, confusas tanto fisicamente no espaço da tela, como em suas vidas vazias. Elas se movimentam entre os planos da câmera e falam como se estivessem prontas para soltar pequenas humilhações ou ridicularizar algo ou alguém, numa tentativa arriscada de esconderem os próprios anseios e inseguranças e não acabarem machucadas. Cada palavra anunciada corre pelo ambiente num risco imediato de ofensas e más interpretações, alterando não só o clima que passa a ser absurdamente tenso, mas o humor de cada personagem, tão instável quanto eles. Dá-lhe bebedeiras exageradas, falsidade, xingamentos, risadas espontâneas que logo mutam para a histeria, a distração que logo se transforma na tortura. São criaturas perdidas que não estão prontas para lidarem com a vida, o casamento, as responsabilidades, muito menos para o amor. Confusas, indecisas e cruelmente humanas.

O círculo dramático montado se resume em pessoas que podem ser interpretadas somente pelo modo de olhar, as atitudes que tomam e as faces que demonstram. Mesmo sendo um cinema cru, não havendo espaço para as tradicionais metáforas e alegorias dentro da narrativa, muito menos flashbacks e surrealismos, o diretor opta por uma ação quase em tempo real, filmando de diversos ângulos e formas seus personagens que simplesmente vivem suas vidas e tomam ações cotidianas, enquanto a câmera invisível registra os fatos em silêncio. O estilo cria ambiente e narrativa extremamente realistas, marca registrada do diretor, enquanto os atores improvisam seus diálogos e o ritmo flui com primor narrativo.

Seguindo a forte instabilidade dos personagens, a câmera intensa de Cassavetes se apropria do movimento como fator fundamental. O preto-e-branco charmoso, os focos nos diversos rostos, sedentos por extrair olhares emotivos e sentimentos implícitos, o uso quase amador da imagem como uma invasão frenética (que mais tarde influenciaria inúmeros diretores, dentre eles Lars Von Trier) capaz de transformar o público no único ser sóbrio daquele grupo de alcoólicos, tudo decorre num ritmo preciso e ágil, origem dos dois anos e meio somente de montagem e cortes experimentais. A filmagem acompanha os atores na arena, balança no ambiente de mudanças instantâneas, exibe enquadramentos e cenas incessantes, gera uma linguagem fílmica que move suas engrenagens e se mantém tão inquietante como as criaturas afogadas em suas próprias vidas.

Poucas vezes as risadas alcançaram um ápice tão elevado no cinema, com gargalhadas repetitivas se transformando em desespero e o hilário cedendo lugar para o ofensivo, uma obra-prima da instabilidade. Num legítimo filme autoral, desde sua árdua pré-produção até a extensa montagem final, Cassavetes prova ser um diretor maduro e concreto em seu estilo de filmagem, tanto que aproveita de rostos altamente expressivos e câmera invisível para montar seu espetáculo de realismo, contando ainda com lágrimas e sorrisos angelicalmente culposos de Gena Rowlands, atriz de uma beleza hipnotizante. Para um diretor que mais tarde viria a entregar ao público obras como “Uma Mulher Sob Influência” (1974) e “A Morte de um Bookmaker Chinês” (1976), “Faces” é um excelente início de uma carreira consagrada que só viria a aumentar com o passar do tempo, marcando um dos primeiros passos de um visionário e nos lembrando sempre que somos apenas seres humanos prontos para o próximo copo de vodca.

Avaliação: 5/5

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