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Um grupo de rapazes conversa na calçada de uma rua. Eles começam a perambular pelos arredores, estalando os dedos num ritmo que acompanha seus passos. São os Jets. Caminhando por entre as avenidas, o grupo vigia seu território. De um a um, se inicia uma grande dança coletiva, com passos ensaiados e simultaneidade rígida, para afirmarem mais uma vez de que a região os pertence, aquele bairro é o literal palco para todas as performances de seus integrantes. Mas uma coisa não está certa. Os Sharks estão ali. Receosos, os dois grupos se aproximam detectando o perigo que um representa para o outro. Não demora muito para que a batalha se inicie, numa briga determinada por passos de dança e rítmica na melodia que a acompanha, num mundaréu de pessoas, rodopios no ar, correria para todos os lados, dando início a um dos maiores musicais já produzidos em Hollywood.

 
Adaptando a famosa tragédia romântica de Romeu e Julieta, escrita pelo mestre do teatro William Shakespeare, para as telas de cinema em plena década de sessenta, “Amor, sublime amor” já foi conquistando público e crítica logo após sua estréia. Apesar do título nacional comum e sentimental demais, escondendo a beleza do título original “West side story”, a obra encontra o tom certo no trato do amor juvenil e no romance a que se destina a mostrar, numa abordagem perfeita para o gênero ao qual pertence. Vencedor de 10 Oscars, incluindo melhor filme e direção, o musical se concretizou como um dos mais exuberantes e respeitados da reta final na chamada “Era de Ouro dos Musicais”, encerrada nos primeiros anos da década de sessenta. Ao lado de “A noviça rebelde” (1965), cujo possui o mesmo diretor Robert Wise, e “Cantando na chuva” (1952) de Gene Kelly, o musical angariou seu espaço no cinema e no coração de muitos cinéfilos pelo seu máximo capricho e vigor que enchem a tela.

 
A trama é bastante simples, principalmente para aqueles que já tiveram contato com a obra-prima literária de Shakespeare. No lado oeste de Nova York, onde se concentram a aglomeração dos guetos de imigrantes, há uma grande rivalidade entre os Jets, grupo de descendentes anglo-saxônicos, e os Sharks, grupo dos porto-riquenhos, que disputam o domínio daquele território com unhas, dentes e paços de dança. Entre os constantes conflitos entre as gangues, surge um lindo e inesperado romance entre Tony, integrante dos Jets, e Maria, integrante dos Sharks, o que trará muitos problemas para ambos os grupos e para o casal apaixonado. Apesar de não seguir tão fiel à história em sua reta final, a obra não deixa de ser uma adaptação magnífica da peça para o cinema, até conservando um pouco dos diálogos e do ambiente naturais do teatro, principalmente nos cenários que parecem grandes palcos teatrais para os artistas fazerem suas performances, mas são características que engrandecem o filme principalmente por darem muito estilo ao próprio, só engrandecendo o espetáculo.

 
Sem medo de ser extremamente exuberante, o musical não economiza nas cores, danças e sentimentos. Todos os lugares se assemelham aos palcos teatrais e as diversidades de luzes parecem um show, criando um cenário grandioso e envolvente em todo seu esplendor. Belissimamente fotografado, captando sempre a essência das cenas, seja brincando com o uso de primeiro e segundo plano, seja desfocando imagens para tornar apenas um detalhe algo nítido, seja quebrando a barreira do real e transformando várias passagens em sonhos coloridos e brilhantes. A montagem também claramente ajuda nessa construção, editando e captando as cenas de uma forma precisa e ajudando no ritmo delicioso que se estrutura no conjunto. Um impecável devaneio em sua estrutura e em seu capricho em tudo o que se dedica.
 

Como se trata de um musical, é de fundamental importância que tudo relacionado ao seu gênero esteja excelente, o que acaba se revelando a situação deste. O maior destaque são mesmo as músicas, mesmo que nem todas sejam brilhantes (mas não desnecessárias), algumas gravam na memória para sempre e contagiam com a melodia vibrante, nos casos das românticas “Tonight” e “Maria”, das animadas “America” e “I feel pretty”, das estilosas “Gee, Officer Krupke” e “Cool”, todas acompanhadas de danças precisamente coreografadas, incrivelmente estimulantes, a ponto de querermos adentrar no filme só para participar daquela fantasia, e sempre enfeitadas pelos mais temáticos figurinos. A magia do filme é ainda mais intensificada pelas ótimas atuações, principalmente dos coadjuvantes George Chakiris e Rita Moreno que possuem uma química indescritível e se tornando mais conquistadores que a dupla de protagonistas Richard Beymer, numa atuação que nem fede nem cheira, e Natalie Wood, plenamente encantadora.

 
Apesar desse clima de alegria e celebração, a obra contém temas sérios incrementada em sua trama aparentemente ingênua, o que fica nítido quando vemos o clima ficando mais pesado com o passar da duração. A discriminação e xenofobia ocupam grande parte do conteúdo retratado, explorando de forma cautelosa e cheio de apuro tais temas, mostrando como o ódio e o preconceito podem contaminar as relações entre pessoas de raças e origens diferentes, até a fatídica cena final e a última frase, inesquecível. Ao mesmo tempo em que dá atenção ao ódio, também dá muita para o amor, aquele sentimento devastador sem barreiras, que não precisa ser explicado, mas sim sentido como Tony e Maria sentiram ao se olhar pela primeira vez e já caírem de amores um pelo outro, um filme que esbanja sentimento. Há espaços também para outros diversos assuntos, como o idealismo de perfeito que se cria ao redor dos Estados Unidos, subjugando a violência e o subdesenvolvimento de outros países da America Latina, o que acaba se revelando uma verdadeira farsa, além de muitos outros tópicos que só consolidam essa base forte e cheia de conteúdo do longa.

 

“Amor, sublime amor” é um daqueles maravilhosos clássicos que somente quem se entregar completamente poderá ver toda sua grandiosa magia, seu conteúdo excelentemente trabalhado e sua impecável veia artística e técnica, que até pode aparentemente conter pequenos errinhos, mas logo evaporam com a profunda efervescência artística montada. O diretor Robert Wise nunca conseguiu superar, nem com o também maravilhoso “A noviça rebelde”, o esplendor cinematográfico que originou com sua obra máxima, discorrendo sobre paixão, discriminação, arte e muitas questões da vida, embaladas nas mais lindas canções de amor e nas mais belas mensagens para um sentimento tão sublime, o amor.

 
“Good night, good night

Sleep well and when you dream

Dream of me

Tonight!”

 

Avaliação: 5/5  

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