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Muito mais do que um excelente filme antidrogas. Muito mais. É isso que se pode concluir ao final de uma das grandes obra-primas do diretor estadunidense Darren Aronofsky, que mesmo com os recentemente premiados “Cisne Negro” (2011) e “O Lutador” (2008) no currículo, não fez seu brilhante início de carreira em “ Réquiem para um sonho” ser esquecido. Não somente se contentando em produzir um interessante trabalho de câmera e filmagem, Darren introduz no meio do contexto de drogas e loucura de sua película temas dos mais diversos, que vão de críticas à sistemas de atendimento médico, alienação em massa dos meios de comunicação até a degradação da sociedade. É incrível o fato, assim como muitos dos maiores diretores da sétima arte, de como uma de suas primeiras obras impulsionou inestimavelmente sua carreira e o influenciou para originar projetos futuros, se tornando um dos grandes nomes da nova geração.

Exibindo todas suas características na direção e abordagem de roteiro, Aronofsky exibe sem medo muito pessimismo e assuntos ácidos na trama e nas metáforas que quis passar, tudo de forma incessante. A narrativa já começa com conflitos entre personagens: Harry Goldfarb, com a ajuda de seu amigo Tyrone, rouba a televisão de sua mãe para depois revendê-la, a fim de ganhar dinheiro, muitas vezes para comprar drogas. Sara Goldfarb, a mãe de Harry, sempre tem que comprar o objeto novamente, já que o seu vício em TV é incontrolável. Quando ela recebe uma carta, com a possibilidade de participar de seu programa favorito, ela perde peso rapidamente com a ajuda de pílulas para emagrecimento, mas ela logo acaba se viciando nelas também. Entre descontroles e problemas, os personagens vão cada vez mais cedendo à loucura e suas fraquezas, até chegarem ao clímax extremo da situação. Claramente, é um filme de vícios, da putrefação do sonho americano e dos sonhos de cada um, mas pouco a pouco se demonstra um universo pesado de pensamentos, não sendo recomendável para mentes preguiçosas ou que somente querem um pouco de diversão passageira. É cinema agressivo, diferente, reflexivo.

Entre cada característica dos quatro personagens que dividem a tela, o diretor sempre encontra brechas para críticas ou para reforçar seus argumentos iniciais. Harry Goldfarb e Marion Silver, o típico casal jovem sonhador, desejam abrir uma loja onde pudessem vender as roupas desenhadas por ela, enquanto seu amigo Tyrone sonha em um dia sair das ruas e deixar sua mãe orgulhosa disso, mas claro que tudo é regado com quilos de cocaína e injetadas em veias. Em boa parte do longa os jovens retratam suas angústias e medo de perderem uns aos outros, assim como se perderem, explicitando questões existenciais e crises nas dificuldades em enfrentar a vida hostil a que estão aderidos. Porém, o grande destaque na obra é Sara Goldfarb. Uma dona de casa que sonha em ver o filho num bom emprego, bem-sucedido e casado, enquanto suporta a solidão e o tédio que sente em seu dia-a-dia, cada vez mais acreditando ser uma inútil para todos. Completamente alienada pela televisão (ficando, literalmente, o dia inteiro em frente ao televisor), sua auto-estima é de total dependência do que ela come (e não se satisfaz), do que ela compra, do que ela assiste. Quando todos os quatro personagens, já enfrentando a dura realidade em que vivem, encontram seu ponto fraco na falsa ilusão que os efeitos das drogas causam, a desconstrução violenta de si mesmos é inevitável. Dão adeus para seus sonhos, suas esperanças, foram engolidos.

Não há personagens esquisitos, complexos em suas personalidades. Há pessoas normais, corriqueiras, reais, tornando o que são e o que representam algo indescritivelmente próximo do espectador, seres tão comuns que se tornam quase íntimos. Estão presentes a dona de casa infeliz e os jovens irresponsáveis, figuras facilmente reconhecidas. Mas não se engane. Por trás dessa falsa imagem de previsibilidade, se escondem seres infelizes, amedrontados, mas principalmente, descontrolados. Tal descontrole sobre a vida e sobre si mesmas, engolidas numa busca desenfreada por prazeres, sejam eles drogas, sexo, crimes, consumismo, fama, sempre escolhendo o caminho mais fácil. É um mundo que se desaponta consigo mesmo. É uma sociedade em estágio de degradação, enquanto ela própria se estraga. São vícios, são neuroses, são estampas e rótulos impostos, são fontes rápidas de auto-estima passageira, que deterioram indivíduos, mas que eles continuam a consumir, a receber e aceitar, enquanto tudo se apodrece. O final da obra, em seu auge poético, retrata todos os personagens em posição fetal, em suas camas, como se fossem criaturas prontas para nascerem de novo, terem uma nova chance: há esperança de melhora.

O estilo de Aronofsky, mais precisamente o modo como dirige, nunca se encaixou tão admiravelmente bem. Grande fã da chamada “hip-hop montage”, uma técnica moderna que é basicamente utilizar de seqüencias rápidas, cortes bruscos, efeitos sonoros intensificados e velocidade acelerada para simular ações ou estados, que no caso, são os efeitos alucinógenos e incessantes do uso de alguma droga nociva, o diretor não hesita em bombardear a tela com agilidade, ritmo frenético, imagens distorcidas, ângulos corajosos (indo desde o uso de lentes convexas até a sobreposição descontrolada de imagens), sons diversos, tudo para transformar as sensações dos personagens nas mais perturbadoras experiências para o espectador, algo em que o diretor é mestre em produzir. Além, claro, que as atuações de todo o elenco só potencializam a força da obra, principalmente Ellen Burstyn como Sara Goldfarb, indicada ao Oscar de melhor atriz pelo seu desempenho, mostrando a decadência gradual de sua personagem da forma mais palpável possível, um dos grandes papéis de sua carreira, além das grandes performances de Jared Leto e Jennifer Connely como o casal ao qual a trama se foca, em partes. Seja no tratamento do elenco, no roteiro e em sua temática, no estilo vibrante de filmagem, Darren acabou produzindo um primoroso trabalho técnico que, ressalvo novamente, nunca se encaixou de forma tão perfeita.

É inevitável, após a sessão, não sair com peso nas costas ou sensações pesadas, devido à experiência devastadora montada. É um retrato extremamente realista, cru e impecável de uma sociedade que degrada a si mesma. Como vimos recentemente nos diversos meios de comunicação, a morte de Amy Winehouse foi uma inestimável tragédia, já que apesar de ser uma grande cantora, com muito talento e sonhos, cada vez mais se afundou numa jornada de autodestruição devido aos seus vícios, que acabou no fim da sua vida, assim como ocorre com os personagens do filme, assim como ocorre na vida real. A essência de “Réquiem para um sonho” está na droga e seus efeitos, está na televisão hipnotizante, está nas fraquezas e neuroses do ser humano, está no médico que nem olha para a paciente, está no criminoso morto sangrando na calçada, está mais perto de nós do que imaginamos, mas preferimos fechar os olhos ao invés de ver o horror com que tudo se estraga, tudo se esvai. Não só uma grande obra-prima, não só um filme inteligente e perturbador, não só uma aula de montagem e estilo, não só um maravilhoso filme antidrogas. É o mundo dos vícios e degradação, por Aronofsky.

Avaliação: 5/5 

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