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Assistir a um filme de Ingmar Bergman é como apreciar uma escultórica pintura, pincelada com cautela e perfeccionismo notável. Cada quadro é uma obra de arte, não só pela identidade visual belíssima, mas também pelas profundas reflexões e questionamentos que instigam a mente a definir suas próprias conclusões e sentidos, além claro, da parte técnica irretocável. Complexa é sua linguagem, brilhante é sua imagem, genial é sua mensagem. Não é a toa que o diretor sueco é considerado um dos grandes nomes do mundo cinematográfico em sua história, principalmente por originar filmes em seu mais puro estilo e abordar temas universais através de sua ótica enigmática, seja a velhice, a morte, a existência de um ser supremo, a árdua compreensão da mente humana. Entender por completo uma obra bergmaniana é algo inalcançável, que muito menos era pra ser inicialmente. É a arte da observação, revelação, contemplação.

Sólido destaque de sua carreira artística, “Gritos e sussurros” é a dor e a mágoa transformadas em imagem. Tudo dentro e fora da tela exala horrores abafados e sentimentos contidos, fundando uma das grandes e pessimistas obras de Bergman, que já transmite seu ambiente melancólico e de fúria camuflada na ótica das cores vermelhas e jogos de luz. Evitando a todo custo a queda no comum ou no explícito, o diretor preservou grande parte do estilo construído em sua anterior “Trilogia da fé” e constitui uma obra de constante silêncio, o que só agrava a tensão insuportável com que tudo vai caminhando, e a angústia mórbida de uma calmaria e sossego ilusórios. Como se num pesadelo surrealista de seu autor, a trama gira em torno de quatro mulheres, unidas pela doença grave de Agnes, a qual Karin e Maria, suas duas irmãs, e Anna, a empregada, terão que lidar para tentarem salvar a vida de sua companheira enferma, ou pelo menos garantir a ela o direito de uma morte não solitária e digna, tudo fundido numa oscilação de amor e ódio constante.

Fica claro no desabrochar da obra que Bergman é um diretor de toques. Sua grande narrativa para uma pouca trama se contorce na análise delicada dos seres em tela, que apoiada na direção de arte que parece ter vida própria, se transforma numa experiência penetrante na consistência ao mesmo tempo obscura e cercada de sutilezas de seus quadros. Seus personagens mal se aproximam, apenas trocam olhares e palavras aflitivas, imersos num ambiente de um sutil pessimismo contínuo, escondido nas paredes vermelhas. É fascinante o modo como ele funde o cenário e suas criaturas em um só estado de espírito, como se o exterior falasse pelo interior e os dois se juntassem numa única peça, complementando seus discursos.

É visível a cautela e sutileza adotada por Bergman, insistindo num cinema lento de intelecto e observação, notório quando se percebe que não se faz presente a gritaria barata, as brigas histéricas e emoções escandalosas dos tipos mais lugar-comum dos filmes do gênero, já que os suspiros e choros são o grande agente corrosivo do interior sentimental de cada uma das mulheres, que abafam suas histerias e secam suas lágrimas no silencio das palavras que nunca chegam a expressar. Claro que há momentos onde a calmaria é quebrada e horrores, que vão desde berros provenientes de fortes dores físicas até beijos frios de cadáveres, tomam controle da racionalidade sagrada que impera na linha tênue entre a loucura e a sanidade, mas o verdadeiro triunfo que torna tudo mais pesado e denso está na composição e essência do cenário delicado e mulheres cautelosas, em suas expressões e atitudes, provenientes da sutileza agressiva do autor.

A teia de emoções que o diretor constrói entre as quatro mulheres é irretocável. Não só faz delas seres humanos profundos e confusos, mas acaba explorando a relação de todas em relação à vida, suas lágrimas e seus momentos. Elas entendem as frustrações, dores e tristezas uma das outras, principalmente por se encontrarem nas mesmas situações de donas-de-casa, enferma e criada, todas forçadas a ficarem presas em casa diante de um mundo extremamente machista e hostil. Mesmo que não se entendam completamente e não cheguem a se entregar umas as outras para criarem fortes relações de amizade, há um senso de companheirismo que paira no ar quando estão juntas. Todas são mulheres sofridas, submissas, sentimentais, humanas, fragmentadas por suas vidas e unificadas em prol de um bem maior, tornando a obra num belo conto feminino de tristezas e agonia.

Fruto da obsessão perfeccionista de Bergman, o filme se compõe numa sucessão de quadros equivalentes a pinturas, imagens que se movimentam numa intocável aura artística a qual o filme se infiltra e se transforma numa emolduração de telas que ocorre durante toda a projeção. É só visualizar as famosas cenas onde a face dos personagens se enquadra no centro de foco da tela, num jogo de luz e sombra, penetrante nos olhos fixos deles diretamente pra o público, como se olhassem num espelho invasivo; na cena onde Anna acolhe Agnes em seu colo, como se fossem mãe e filha; no take simbólico que ilustra Maria passeando no jardim arbóreo, em plena paz de espírito; tudo para se atestar de que o diretor e suas escolhas são dignas dos maiores expressionistas das artes em geral.

Do começo ao fim, a sensação de estar afundando nas enormes dores e mágoas daqueles quatro seres desamparados, que sacrificam a própria felicidade em busca da preservação de uma vida, é inevitável. Uma das grandes obras, e possivelmente a mais depressiva, de um cineasta que transformou o cinema numa arte de inestimável sucessão de imagens e idéias, espelhos e metáforas, retratando o que há de mais belo em sua filmografia. “Gritos e sussurros”, apoiado em interpretações exímias, vide a beleza e profundidade das expressões de Liv Ullmann, em diálogos dolorosos e interrompidos assim como os estados de espírito daqueles seres perdidos nos grandes cenários pitorescos, por vezes pesados e manchados de vermelho, por vezes leves e calmos num verde claro relvado, se estabelece como um espetáculo artístico em toda a neurose bergminiana que chega perto da perfeição, em uma das maiores experiências cinematográficas do diretor, onde prova não só sua multiplicidade de temas, abordando o mundo feminino pela sua ótica fascinante, mas também ser um autêntico artista que fez da imagem sua fonte de imortalidade.

Avaliação: 5/5 

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