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O rio que antes escoava, agora está congelado. As águas passageiras, com suas calmarias e correntezas, viraram gelo. Assim como os cursos caudalosos se estagnaram, a vida ao seu redor também parou no tempo. O lugar e seus habitantes parecem não ter se desenvolvido, preservando o primitivo e o cruel. É um outro Estados Unidos, aquele sem os luxos das grandes metrópoles ou divulgação em massa, justamente a parte do país mais atrasada e rejeitada pelos holofotes de publicidade. Uma região de frieza, desumanização e vida difícil, quase sem vigilância policial adequada, política e com violência correndo solta, mas também um palco para as mais árduas histórias de vida, com seus habitantes exercendo uma força descomunal para sobreviverem a todo aquele sofrimento.

Entre os moradores da região está Ray Eddy, uma mulher batalhadora que acaba de ser abandonada pelo marido, após ele perder todas suas finanças em apostas e jogos de azar, justamente num momento delicado na vida da família, com crises econômicas de tamanha intensidade que apenas seu único salário é insuficiente para todas suas necessidades e as de seus dois filhos. Quando conhece Lila Littlewolf, uma descendente de índios Mohawk que mora aos redores, as duas se juntam numa atividade ilícita para sobreviverem á todas as dificuldades que enfrentam naquele lugar: ajudar o tráfico ilegal de imigrantes entre os EUA e o Canadá, passando na fronteira entre os países pelo rio congelado Rio St. Lawrence, o que acabará numa ação bastante arriscada pelos guardas que vigiam o local.

Contando uma história dolorosa de se acompanhar e forte no foco da vida de seus personagens, Courtney Hunt exibe um belíssimo primeiro trabalho na direção e um desempenho mais caprichado ainda no ótimo e muito bem construído roteiro que ela própria produziu, conduzindo um trabalho autoral bastante sólido e direto naquilo que quis passar, o de acompanhar a trajetória sofrida e triste daquelas duas mulheres em busca de uma vida melhor numa terra desolada como a que se situam. A diretora novata não poupa doses pesadas de sofrimento e realidade, o que torna seu trabalho um estudo sério e eficiente dos mais diversos assuntos que consegue abordar e de suas ótimas protagonistas, compartilhando a dor e mágoa daquelas duas diretamente com o público, solidificando um filme pesado, relativamente difícil de assistir e de constante suplício, nunca se rendendo a cenas gratuitas ou manipulações de emoções, tanto que não é uma obra para se chorar, rir ou ter pena, embora seja possível.

Incomodando muitas pessoas, a frieza e crueza tão carregada na atmosfera da obra só reforçam esse clima fiel de realismo e melancolia propagado, com planos abertos de paisagens enevoadas e estradas gélidas, revezando com closes fechados nos rostos dos indivíduos esbranquiçados e soltando baforadas de frio. O lugar enregelado acompanha em majestosa simultaneidade o estado emocional e até físico dos seres que lá habitam, todos sufocados pelo isolamento transparente, pela tristeza silenciada e suportada, pelo perigo de viver numa região desumanizada, onde armas de fogo e a ameaça de morte parecem ser o único jeito de solucionar problemas e tomar o controle total, quase numa seleção natural dotada de racionalidade. A alma congelada e o corpo agindo.

Embora todo esse ambiente hostil, há grande empatia pelas personagens, principalmente pela dupla feminina. Compartilhando a dor e a possível solução de suas dificuldades financeiras, Ray e Lila contam uma com a outra para continuarem naquele esquema proibido e de benefício mútuo, embora mantenham certo distanciamento que vai se amenizando no decorrer da trama, quando não apontam mais armas pra cabeça da outra. Uma grande força e determinismo se fazem presentes, bem mais femininos, mas nem por isso menos duros ou de base sólida, muito pelo contrário, é esse toque feminino naquela imensidão gélida que origina a alma do filme, auxiliado pelas atuações satisfatórias de todo o elenco e uma Melissa Leo completamente devastadora, retratando a vida difícil de Ray em sua pele marcada pelo tempo e em sua voz séria de auto-defesa, instinto que todos na região parecem possuir e muito.

Apesar de todas as causas que unem as duas, talvez a de mais peso, aquela em que o filme se foca meio silencioso, é o papel das crianças. A dupla de mulheres faz o que tem que fazer, não se importando se é certo ou errado segundo as normas impostas, movidas pelo desejo de dar às crianças condições para uma vida melhor e mais justa, já que elas significariam uma nova chance, uma nova esperança daquilo tudo mudar e dar espaço pra felicidade, que entra através das brechas dos muros construídos ao redor daquelas pessoas por elas mesmas. Aliás, no final da obra, as crianças são retratadas como símbolo da superação ao preconceito, embora não fique explícito, pois tal atitude é o que não falta na região: Preconceito de pessoas brancas, de índios, de imigrantes, sobra até investidas do medo americano a respeito de muçulmanos, clara referência aos ataques terroristas e ao 11 de setembro, visto nitidamente na cena onde Ray joga na estrada a mochila dos muçulmanos em seu carro, com medo de bombas ou armas químicas, uma sacada fenomenal de muitas.

Consolidando-se num roteiro simples e completo, num bom clima e excelente atriz protagonista, mas principalmente, numa direção iniciante e extremamente segura de Courtney Hunt que não deixa de lado jamais sua veia realista extrema e levemente amadora, “Rio Congelado” é um pequeno filme de grandes acertos, que atinge o tom certo ao retratar a vida árdua e difícil de suas personagens em simultaneidade com o ambiente gélido e isolado ao qual vivem, como se o interior de seus sentimentos estivesse em acordo com a neve que recobre as estradas da região. Estradas perigosas e escorregadias, que exigem cuidado ao serem ultrapassadas, mas suficientemente emocionantes e bem estruturadas para se concluir de que a viagem valeu muito à pena.

Avaliação: 4/5 

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