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Éramos nós quatro. Eu, Harry, Rony e Hermione. Nos conhecemos ainda crianças, no Expresso de Hogwarts, mas foi só o início de uma grande amizade. Aprendemos a fazer magia, quase fomos comidos por um cachorro de três cabeças e aranhas gigantes, nos escondemos dentro da capa da invisibilidade e tomamos poções polissuco, conhecemos criaturas mágicas como hipogrifos e elfos domésticos, jogamos um xadrez mortal e várias partidas de quadribol, fugimos de chaves com asas e dementadores, fomos caçados por lobisomens e dragões, lutamos contra comensais da morte e cobras gigantes, voamos em carros flutuadores e vassouras mágicas, estudamos feitiços e teorias em Hogwarts, nos perdemos em labirintos de plantas e de prateleiras contendo esferas com profecias, nos ferimos no Salgueiro Lutador e em batalhas mortais, sentimos o amor e o ciúme, crescemos com nossas escolhas e responsabilidades, amadurecemos para a vida.

Mas a aventura chegou ao fim, logo após a subida dos créditos de “Harry Potter e as relíquias da morte – Parte 2”, quando me despedi, encharcado de lágrimas, de alguns dos meus melhores amigos. A saga, que começou bem tímida no cinema em 2001 com “Harry Potter e a pedra filosofal” agora encontrou seu magnífico final. Dirigido por David Yates, que assumiu a direção a partir do excelente quinto filme, o desfecho da série se demonstrou um grande épico em concepções cinematográficas e uma experiência devastadora para os fãs devotos que esperaram uma década por ele. O mundo todo se preparou para mais um grand finale, como se voltasse no tempo quando Luke Skywalker trouxe de volta o equilíbrio da força para o universo ou quando na Idade Média o precioso anel do poder foi destruído, um legítimo evento cinematográfico que acabou satisfazendo a grande maioria de seu público. Triunfando em diversos aspectos, o último capítulo de uma das maiores sagas que o cinema já produziu se concretiza num filme muito bem amarrado e excelente em ofuscar seus pequenos erros com seus imensos acertos.

Apesar de Afonso Cuarón (diretor do terceiro filme) ter feito o melhor trabalho em sua experiência, David Yates foi logo depois o melhor diretor da série. Fez o magnífico quinto, o emocionalmente inexpressivo sexto, o intenso sétimo e finalmente o oitavo épico. É verdade que Yates é um diretor meio atrapalhado, colocando música de fundo onde não deve, cortando detalhes que não deveria e enfiando melodrama barato em cenas delicadas, além da grave falta de ritmo no desenrolar da trama. Acontece que no último filme todos seus tiques foram surpreendentemente amenizados, porém não desfeitos totalmente, mas o romance e a aventura estão em seu perfeito tom, as cenas de ação são empolgantes e bem coreografadas, os ângulos são ousados e muito bem pensados, o sentimentalismo aliado com a correria exacerbada conseguem perfeita simultaneidade, o decorrer da trama consegue sua velocidade ideal, há sim alguns cortes bruscos e falta de compasso no decorrer de tudo, além de cenas como a morte de Belatrix e Fred Weasley não possuírem a intensidade que deveriam, mas tudo fica num pleno saldo positivo nas mãos do cada vez mais experiente diretor.

Mas não foi só ele que resolveu caprichar incessantemente nesse último filme, mas todos os envolvidos. Desta vez, os roteiristas responsáveis por adaptarem a obra literária para o cinema fizeram um trabalho admirável e fiel, num roteiro excelentemente amarrado, intenso e com pouquíssimos furos que nem sequer pesam no desenvolvimento da trama. Em relação ao lado artístico, tudo aponta para um máximo capricho da direção de arte, que enriquece a tela com cenários detalhados e construídos impecavelmente dentro da temática bruxa, assim como todos os figurinos usados pelos personagens, um deleite visual. Os efeitos especiais continuam fantásticos, principalmente nos feitiços das varinhas, que possuem sonoridade parecida com a de chicotes no ar, no dragão que o trio usa para fugir de Gringotes e em todas as características do mundo bruxo presentes, um real espetáculo tecnológico, que só aumenta pela excelente edição de montagem produzida. Responsáveis por grande parte da magia aderida à obra, a fotografia sombria e gélida e a trilha sonora única dão o clima essencial que a película necessita, aumentando ainda mais o delírio técnico montado.

As atuações estão incríveis, tanto para o trio principal, como para os personagens “esquecidos” que obtiveram menos atenção nos outros filmes, principalmente Neville e a professora McGonagall, tendo aqui sua chance de brilhar novamente e provar para o que vieram, um belo trabalho de atores que contém algumas falhas, como quase ignorar alguns personagens que nem feito à Belatrix, mas consegue um desempenho admirável mesmo assim. Apesar de todo o elenco, os holofotes estão bastante voltados para o inesquecível trio que protagoniza a série desde seu primórdio, sendo Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger) e Rupert Grint (Ron Weasley) os grandes aventureiros e responsáveis pelas lágrimas histéricas dos fãs, incorporando seus personagens completamente e recebendo todo o crédito merecido. É claro que desta vez Daniel Radcliffe assume o controle de seu personagem e lidera toda a aventura, mostrando cada vez mais seu amadurecimento como ator, o que fica explícito nas cenas de confronto com o vilão Voldemort, interpretado de forma bizarra por Ralph Fiennes, num dos ápices de atuação e adrenalina na película.

Com poucos erros e muitos acertos, Yates finalmente concebe ao mundo o desfecho tão esperado de uma saga inesquecível, onde pudemos ver a superação de suas limitações como diretor, o desenvolvimento dos personagens em simultaneidade com as atuações e sentir a avalanche de sentimentos que se concretizou com o desfecho da trama. Um final digno de uma série cinematográfica que marcou profundamente a história e muitos diversos corações, principalmente da geração que cresceu junto com ela e seus três excelentes protagonistas, da qual eu participo. Nós encontramos a pedra filosofal, descobrimos a câmara secreta, conhecemos o prisioneiro de Azkaban, conquistamos o cálice de fogo, formamos a Ordem da fênix, desvendamos o enigma do príncipe, destruímos as relíquias da morte e acabamos com o reinado de trevas que se apoderava do mundo bruxo, amadurecemos e nos despedimos justamente onde fizemos nosso primeiro contato, no fumacento Expresso de Hogwarts.

“As palavras, na minha singela opinião, são as formas mais inestimáveis de magia” – Dumbledore

Avaliação: 4/5 

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