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Ao ver os exercícios da linguagem cinematográfica de Hitchcock postos em frente à tela, temos sempre certeza de estar diante a um mestre no que se propõe a mostrar. Dono de algumas das obras mais sofisticadas do cinema pós-clássico, principal símbolo deste movimento por revolucionar tanto o modo de se filmar, como exibir doses bem maiores de violência e sensualidade em suas tramas, o diretor se imortalizou principalmente por fazer de cada filme seu uma experiência inédita, tanto para seu público fanático, como para sua própria aprendizagem na tentativa de aperfeiçoar sua técnica. Seja por paixão ou aprimoramentos, o cinema nunca mais foi o mesmo após a intervenção monstruosa do diretor, que consagrou suas obras reais pedaços fílmicos de inovação estilística.

Podemos assim dizer que “Festim Diabólico” é o seu maior requinte técnico, um dos maiores auges da carreira do mestre do suspense, onde deu origem à sua maior experiência estrutural, no que remete ao seu método de filmagem. Influenciando cineastas com seu pioneirismo invejável, como o grande Brian de Palma e Dario Argento, o diretor garantiu seu espaço eminente na história do cinema por sua visão avantajada e quase futurística na arte de se fazer filmes. Não só sabia conduzir os atores com muito profissionalismo, o que fica claro quando vemos as grandes performances de James Stewart em sua melhor atuação num filme do diretor e Farley Granger como os assassinos da trama, até colocando hipóteses de homoafetividade entre os dois, mas quando observamos todo seu potencial que poucos diretores conseguiram se equiparar.

A trama é bastante simplória, mas nem por isso merece menos atenção ou destaque, já que é capaz dos maiores picos de tensão da película. Basicamente é a história de dois companheiros, Brandon e Phillip, que matam seu amigo David no apartamento que os dois dividem e logo após colocam seu corpo dentro de um grande baú, mas que posteriormente causará muitos problemas devido às possibilidades dos convidados da festa, organizada pelos dois, descubram o corpo e todo o ocorrido. Mesmo que simplista, a história garante um suspense absurdo por sempre insinuar que tudo será revelado e os protagonistas serem apreendidos, os quais sentimos uma empatia mórbida nas tentativas de esconder tal crime.

A grande inovação apresentada por Hitchcock e responsável pela imortalidade de seu projeto consiste em gravá-lo em apenas um simples take, literalmente ligando a câmera no começo e a desligando-a no fim de seu filme uma única vez. Com um gosto saboroso de originalidade estrutural, é quase impecável o jogo de enquadramentos e posição dos atores/objetos em frente à câmera que se move para as direções onde a ação ou atenção se deve concentrar, sendo quase impossível identificar onde os cortes ocorreram na película para separar os planos-seqüencia, já que seguir a risca seu desejo primário de formar a obra num só take seria impossível.

Seu experimento exímio resultou numa obra que fez história pela valorização quase obsessiva da estética, cuja não só se revela uma modelagem nova ao cinema feito até aquele ponto, mas infere em conseqüências deslumbrantes dentro de seu contexto e intenção narrativa. Tudo se torna incrivelmente real por fazer de sua câmera os próprios olhos do espectador, que vira junto com ela um personagem concreto e passa a observar as pessoas e ações ocorrendo ao seu redor, fazendo assim parte da história também, um efeito genial que transcende os limites do cinema, pensado por um pioneiro naquilo que produz.

Apesar do diamante técnico produzido, a obra ganha força também pelos fortes argumentos críticos de seu roteiro, pois a razão pela qual o casal matou seu amigo é completamente absurda, mas se encaixa perfeitamente na trama. Os dois homens o teriam assassinado para provarem serem superiores a ele, em todos os sentidos, numa prepotência mórbida assustadora. Tal homicídio desencadeia o discurso principal da obra, o de analisar até que ponto vai a ética de um homem em seguir seus desejos mais primitivos e obscuros, cedendo ao imoral e antiético cada vez mais, porém obtendo prazer nisso. Tais “luxos” só são aceitos e encobertos nas classes sociais mais privilegiadas, num mundaréu de hipocrisias e mentiras que ajudam a construir esse clima pesado no filme, apoiado nos limites extremos do poder e dos atos humanos frios perante a sociedade e a si mesmo, num belo conflito moral.

Hitckcock não abriu mão de suas marcas características na execução de seu ambicioso filme. A perspectiva de observação de tudo o que ocorre ao redor das lentes é magistral, quase que se equipara ao voyeur delicioso visto em sua outra grande obra-prima “Um corpo que cai”, garantido um efeito de realidade em tempo cronológico “verdadeiro” bem maior do que em seus outros filmes. Permite identificar que se trata de uma obra hitckcockiana a presença de um fatídico assassinato e a trama se desenrolando a partir dele, como se a morte fosse a chave para o baú de surpresas que o diretor guarda em sua neurose fílmica.

Uma obra de arte que desafia os limites do cinema e de seu tempo, ao ultrapassar dimensões estéticas com tanta maestria e demonstrar um suspense sublime digno de seu diretor, que consagrou sua mais arriscada e excitante experiência como um clássico do gênero, num jogo de único plano e uma só câmera que se funde ao olho de quem a assiste, marcando um dos grandes auges de sua carreira brilhante. Um petit gateau fílmico irresistível para qualquer cinéfilo que adentrar no mundo de mistério e fascinação técnica de um mestre imortal por suas realizações de obras, por conseguinte, imortais.

“Assassinato deveria ser um privilégio para indivíduos realmente superiores” – Rupert Cadell

Avaliação: 5/5

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