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Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir 
(Maria Rita – Encontros e despedidas)

O Brasil é o seu povo. Um mundaréu de culturas, raças e indivíduos espalhados pelos mais diversos cantos da nação, numa diversidade imensa de histórias de vida. Há filhos se reencontrando com os pais que não viam em décadas. Há namorados viajando para uma lua de mel inesquecível. Há mães chorando pela ausência dos filhos que partiram. Há amigos se reunindo para uma grande noite regada a cachaça. Há nordestinos chegando às metrópoles do sudeste. Há cariocas esperando chances de novas amizades. Há paulistas apressados pelo atraso no trabalho. Há pessoas indo e vindo, chegando e voltando, mas somente poucas ficam.

Todo esse cenário é visto regularmente nos dias de Dora, uma idosa cansada pela vida dura que viveu. Escritora de cartas para analfabetos na estação Central do Brasil, ela vive nesse movimento constante de idas e partidas de pessoas na estação, quando percebe que Josué, um garoto cuja mãe fora atropelada recentemente no local, continua no lugar. Vendo o estado desamparado do garoto, Dora resolve levá-lo para viver com o pai, que nunca viu antes, sem condições de sustentar tal criança. Entre caronas e situações complicadas, os dois seguem numa viajem até o interior do nordeste, selando uma linda amizade enquanto atravessam o sertão cheio das mais diversas histórias de vida.

Marcando não só a volta do cinema brasileiro de qualidade ao palco mundial após anos sem nenhum filme em destaque, “Central do Brasil” se consolidou como uma das maiores e mais importantes obras nacionais já feitas, por toda a qualidade técnica e sua sinceridade em abordar o Brasil com suas verdadeiras facetas, sem estereótipos ou imagens feitas. Privilegiando sempre o real, é impressionante como o diretor consegue extraí-la de seus atores, num desempenho maravilhoso de Fernanda Montenegro (que deveria ter levado o Oscar naquele ano) e do ator mirim Vinícius do Oliveira que surpreende por nunca soar artificial. A relação tão explorada entre Dora e Josué, a velhice e a juventude, é o principal destaque desse clássico moderno de nossa nação, numa relação muito emocionante que primeiramente começa com estranhamento, mas logo os dois começam a enxergar um no outro suas muitas semelhanças, criando fortes laços afetivos e profundos.

A escritora de cartas vê logo no garoto a chance de ajudar alguém, a esperança de fazer algo valer a pena em sua vida, ao mesmo tempo em que se livra gradualmente de seus demônios interiores. A mulher percebe naquele menino grandes semelhanças com sua própria infância e personalidade, se tornando grosseiro e solitário. Ela tenta de todas as formas colocá-lo em um bom caminho, o proibindo de roubar, mentir, e faltar com educação com as pessoas, mesmo que ela hipocritamente faça tudo isso, pois não enxerga mais esperanças de um futuro promissor para si mesma, mas sim no garoto e seu espírito jovial. Quando ela finalmente acha um futuro bom para o menino, é hora de se despedir. Ela vai embora, lembrando-o do retrato que tiraram juntos. Tudo o que resta agora são apenas memórias.

Interessante observar que o diretor Walter Salles, assim como Bruno Barreto e outros, se saem bem melhor fazendo filmes em sua terra natal do que no exterior. Obras como “Diário de motocicleta” (2003), que fez sucesso e até concorreu a alguns Oscars, e “Água negra” (2005) foram muito abaixo do grande potencial do diretor visto o inteligente “Linha de passe” (2008) e o emblemático “Abril despedaçado” (2001). Com “Central do Brasil”, Salles realiza sua grande obra-prima, com todas suas partes no eixo e um interessante trabalho técnico. Notam-se os detalhes encarregados por ele que acabam enriquecendo a obra, principalmente o trabalho de câmera mostrando em planos abertos os cenários do Brasil e do sertão, num horizonte de secas e pobreza, mas realizando em planos fechados o foco nos diferentes rostos que compõe a população, com marcas e expressões contando suas jornadas.

Apesar de orgulhosamente brasileiro, o filme é comovente par qualquer tipo do público, seja ele de outro status social, país ou língua. Há muito coração entre os relacionamentos dos personagens e muita verdade da abordagem de um povo batalhador e sofredor, fugindo daquela imagem de pessoas excessivamente amigáveis e felizes, mostrando um Brasil triste, comum e real aos nossos olhos de quem vive nessas terras. Num lindo enredo sobre voltas e partidas, amizades e lembranças que residem no coração ao passar do tempo, a produção conquistou um espaço enorme e merecido, com algumas indicações ao Oscar e um Urso de Ouro nas costas, mas o que fica quando os créditos sobem na tela é a certeza de que tudo é passageiro, que os momentos da vida são só capítulos de nossa jornada em busca de um futuro bom. Pois o trem que chega é o mesmo trem da partida.

“O dia que você quiser se lembrar de mim, dá uma olhada no retratinho que a gente tirou junto. Eu digo isso por que tenho medo que um dia você também me esqueça. Tenho saudade do meu pai. Tenho saudade de tudo.” – Dora

Avaliação: 5/5 

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