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Faróis rompem a escuridão da estrada desértica. Os pneus da Porsche 550 cantam seu barulho ensurdecedor enquanto o carro acelera cada vez mais em sua sede por velocidade, com os indicadores do painel aumentando rapidamente. O carro atravessa o caminho no auge de seu movimento acelerado, o motorista experimenta a sensação do perigo veloz e se vicia nela, como uma droga de efeitos simultâneos. Um Ford Custom Tudor 1950 aparece repentino no meio do trajeto. Crash. As duas máquinas se estraçalham na batida. James Dean está morto. No momento da colisão, o astro foi tomado por uma vibrante descarga de adrenalina, que o fez sentir-se mais vivo do que nunca mais seria. Uma descarga comparável ao orgasmo de tamanha intensidade da sua força. Se pudesse sentir a mesma sensação de estar no ápice mais uma vez, Dean bateria com o carro quantas vezes fosse preciso.

Carros. Sexo. Velocidade. Orgasmo. Vida. Morte. Obra-prima. Um dos grandes destaques da carreira insana de Cronenberg, mesmo não sendo seu projeto mais reconhecido, é construído com extrema eficácia e devastador, para não dizer excitante, em sua temática hipnotizante. Depois de alguns anos após lançar o surreal “Mistérios e paixões” (1991), o diretor deixou de lado o alucinógeno e partiu para a realidade, mas continuou com a mesma abordagem única dos temas escolhidos e com o excelente desenvolvimento da trama, que conquista o espectador em suas provocações libidinosas.

Por uma engenhosa comparação, a obra encontra sua base primordial e se desenvolve a partir dela. A tal equiparação é a igualitariedade imposta entre o pleno ato sexual e violentas manobras de carro, insana quando nos apresentada, mas que produz todo um efeito genial no contexto alucinado do filme. A máquina é o retrato do corpo em si, acelerando sua velocidade assim como a tensão sexual e excitação vão tomando conta dos sentidos humanos, até se tornarem absurdamente ingentes e incontroláveis, levando ao êxtase sensorial liberado da adrenalina pulsante de uma batida de carro e de um orgasmo veemente. Depois de montada sua principal idéia narrativa, a trama se expande ainda mais.

Cronenberg não só usa toda essa dinâmica estúrdia como desculpa para encher a tela com sua obsessão por automóveis furiosos e corpos em atrito, mas também a usa para difundir os sentidos e interpretações sobre o homem perante seus desejos, o que em sua obra fica latejante e explícito. É admirável como em suas mãos os atores se convertem nos personagens e conseguem a intensidade perfeita em seus desempenhos, com uma Deborah Unger extremamente sensual a ponto de quase se tornar uma Afrodite do sexo, e Elias Koteas que incorpora com uma estranheza sedutora o melhor e mais genial personagem da obra, Vaughan, que solta numerosas frases de efeito sobre seu projeto de aliar sexo e acidentes numa só sensação absoluta, num frenesi que contagia todos os outros a sua volta a buscarem o que for preciso para se satisfazerem em suas neuroses carnais, completamente sem restrições ou limites.

O inconsciente humano a respeito de sua sexualidade e o desconhecido que a cerca toma proporções inimagináveis nas mãos do diretor. A mente humana, assim como suas necessidades primitivas, é conduzida pelo instinto muitas vezes irracional de desejo e posse, adotando sem ressentimentos ou questões os mais diversos fetiches e perversões para alcançar o auge dos prazeres. De fato, não importam as situações e nem limites quando o assunto é o auge do desejo erótico humano. Cabem aí relações homossexuais entre héteros, certa fixação pela “reformulação do corpo humano através da tecnologia moderna” (sejam cicatrizes, próteses ou outros), sexo em lugares arriscados e incomuns, qualquer necessidade pode ser suprida quando os fetiches que alimentam a fome de prazer são postos a prova.

Os personagens são conduzidos numa busca desenfreada por tal êxtase, procurando alcançarem a plena satisfação sexual num ato de extremo perigo e excitação para ambos os parceiros, mas que parece nunca ser tão magnificente quanto fora almejada. “Talvez, na próxima vez… Talvez, na próxima…” Catherine Ballard repete para si mesma, insatisfeita com a realização de seus desejos carnais como todos os outros em cena, encontrando num novo risco de vida automobilístico seu mais novo clímax sensorial. Deixando freqüentemente seus fantoches a ponto de bala, David conduz seu show com maestria e encaixa tudo num realismo dominador de quem se submete a essa experiência insana.

O tratamento do sexo e suas vertentes se mostra tão lascivo e cerebral quanto os melhores discursos do diretor em seus filmes mais endeusados pelo grande público. Nota-se toda a cautela de Cronenberg em moldar a história sem que todo aquele ambiente voluptuoso e complexo não se tornem banais e muito menos apelem para vulgaridades, num juízo misterioso e absurdamente sensual que evoca seu grande mundo dos prazeres a todo o momento. Também fica reparável o cauteloso equilíbrio tecido sobre seu trabalho, numa sutileza palpável em se lidar com o primitivo e até o agressivo dos seres sedentos que prende aos quatro cantos de sua câmera invasora e aos desejos incontroláveis que os movem constantemente para um novo estado de abstinência.

Talvez o melhor e mais frenético de sua carreira cinematográfica, “Crash – Estranhos prazeres” explicita toda a genialidade e ousadia de David Cronenberg em retratar nas suas obsessões o ser humano desnudo em frente a sua ótica intéprida. A grande obra-prima do diretor canadense é justamente aquela em que consegue plena liberdade narrativa para soltar alusões e insanidades continuamente, consolidando sua visão de homem e máquina relacionados numa cadeia impúdica e intima de auges emotivos e físicos. Envolvente e penetrável em toda sua duração, a obra obtém sua magnitude estilística e interpretativa na bomba-relógio que construiu a partir de um estouro automobilístico encerrado num gemido de prazer, se solidificando num jogo de fascínio e inspiração digno da altura de seu autor.

“Um acidente de carros é muito mais fertilizante do que um evento destrutivo. Uma liberação de energia sexual mediando a sexualidade daqueles que morreram com uma intensidade que é impossível de qualquer outra forma. Experimentar isso, viver isso, é o meu projeto.” – Vaughan

Avaliação: 5/5 

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