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Há mais de dez anos os fãs fervorosos da trilogia “Pânico” vinham esperando a mais nova seqüência da série de terror teen, que ofuscasse os erros decepcionantes que o terceiro filme da saga havia causado e aumentasse ainda mais o sucesso dos dois primeiros filmes. Claro que em todos esses anos passados, houve uma avalanche de notícias e boatos falsos a respeito do quarto filme que sempre reascendiam as esperanças do público e, logo após revelada a verdade, era uma grande decepção. Mas quando Wes Craven finalmente oficializou que “Pânico 4” iria ser feito, foi um verdadeiro carnaval para os fãs, que estavam esperando por todos esses anos um filme assustador, inteligente, uma obra além das expectativas.

Porém, não acabou sendo o filme que muitos dos fãs esperavam. Com Wes Craven novamente na direção e Kevin Willianson sendo o responsável pelo roteiro, dupla que conseguiu fazer os dois primeiros filmes da série serem uns dos melhores dos anos noventa, e a volta do elenco formado pelo trio principal Neve Campbell, David Arquette e Courteney Cox, não havia chance de erro: O quarto filme se igualaria ao primeiro. Mas o que aconteceu de fato foi que passou longe de se igualar ou chegar ao nível do primeiro filme, devido a suas faltas em aspectos primordiais e exageros em coisas desnecessárias. Seja qual for o motivo dos responsáveis acertarem e errarem tantas coisas, o resultado não é tão satisfatório pra quem procura terror e violência, mas uma excelente sessão pra quem quer ver muita gozação e auto-paródia aos montes.

O grande erro dessa quarta seqüência é a quase total ausência de terror. Esqueça aquelas grandes cenas de morte muito bem elaboradas (com exceção da “cena do closet”) e as maravilhosas cenas de perseguição entre o assassino e a vítima como vimos nos dois primeiros filmes. Aqui o grande destaque mesmo é a gozação, sem espaço pra muita violência, com quase todos os personagens morrendo com simples facadas em cenas que não duram mais que alguns segundos (tem personagens que simplesmente ficam esperando morrer, sem nenhuma reação) e outros morrendo com simplórios tiros na cabeça, muita banalização do uso de celulares, em que qualquer pessoa liga a qualquer hora imitando um psicopata e estraga a tensão que deveria estar nas poucas horas em que o assassino realmente liga, muita câmera tremida, o que não havia nos filmes anteriores e deixou as cenas bem mais confusas de se acompanhar, são erros atrás de erros para a carreira de um cineasta que já foi um dia uma lenda no cinema de horror.

Se por um lado não há terror, pelo outro há muita auto-paródia e entretenimento muito divertidos. Pra começar, o início é um dos pontos mais geniais do filme, deixando o espectador com dúvida naquilo que é real ou fictício, e também fazendo uma alusão a todas aquelas séries de terror que sobrevivem de infinitas seqüências que muitas vezes perdem a qualidade e podem chegar a serem ridículas de tantos equívocos em um roteiro somente feito para angariar mais dinheiro em cima do nome do filme original, tudo isso visto de uma ótica cômica muito interessante. A obra é cheia de auto-paródia e metalinguagem, algo também já usado por seus anteriores, mas aqui ganhando muito mais destaque e enchendo a tela de piadinhas e definindo milhares de regras novas justamente para quebrá-las logo em seguida.

Referências aos outros filmes da série é o que não faltam, Craven faz algo parecido com “Novo Pesadelo – O retorno de Freddy Krueger” (1994) e enche a obra de menções sobre toda a série feita até ali. Desde os mínimos detalhes até partes fundamentais da trama completamente inspiradas, é um verdadeiro deleite para os fãs da série ir acompanhando todas as citações feitas e descobrir as que parecem desapercebidas. Um exemplo é o filme “Stab” que o Clube de Cinema de Woodsboro assiste, o mesmo que estava passando dentro do cinema quando houve o assassinato do casal inicial em “Pânico 2” (1998). Outro exemplo é a cena em que Sidney conta a Jill que ela a faz lembrar de quando era jovem, claramente se referindo ao namoro dela com Billy Loomis. A aparição do diretor, que sempre consegue se camuflar em alguma cena nos filmes da série, aqui infelizmente foi cortada e acabou com esse ritual pessoal dele e dos fãs de sempre estarem procurando onde ele se enfiou. São detalhes assim que enriquecem ainda mais a obra no geral.

Pra tentar adaptar o filme a um público mais jovem e moderno, Wes também optou por trazer referências a cultura pop no geral, que vai de “Harry Potter” até “Jogos Mortais”. Também tentou colocar um clima mais descontraído, cheio de piadinhas adolescentes naquele clima colegial nostálgico, mas o que era pra ser uma virtude, vira um demérito. Nenhum dos personagens da nova geração tem simpatia ou personalidade suficiente para que torçamos para suas vidas serem poupadas (com exceção de Kirby, a tradicional “melhor amiga” que cumpre seu devido papel), cada um mais sem sal que o outro. Se no primeiro filme temos um verdadeiro nerd cinéfilo de horror Randy Meeks, aqui ele é multiplicado por três sendo que nenhum deles tem metade do carisma do personagem que os originou. O que se pode concluir é que tudo o que foi feito e deu certo no primeiro filme foi usado e travestido de “inovação” nesse exemplar da série.

O final foi o que realmente concretizou a imagem do filme como uma inteligente crítica aos filmes de horror atuais e a banalização da violência pela mídia. Mostrando de uma forma bem humorada os filmes que apostam em muito sangue e tripas em vez de bons roteiros, seqüências intermináveis que vivem das sobras dos originais, filmes de horror que cada vez mais se saturam de usar sempre as mesmas fórmulas e caírem nos mesmo clichês, o filme acaba construindo uma inteligente sátira a respeito das obras de horror comerciais que cada vez mais enchem as telas de cinema com sua mediocridade. Claramente fazendo referências também ao poder que a mídia tem nos dias de hoje, tornando assassinos verdadeiras celebridades heróicas de tanta divulgação em cima deles e transformando homicídios e violência sem limites algo comum, corriqueiro, que está presente em nosso dia-a-dia vendo notícias que usam do horror real para benefício próprio, concluindo a obra com um tom crítico muito bem construído.

Um filme que foi aguardado por mais de dez anos e se mostrou um verdadeiro divisor de águas para seu público, os que amaram sua comicidade exacerbada e os que desgostaram de seu nível de horror quase nulo. Querendo trazer o máximo de originalidade que era possível, o filme até exagera na quantidade de auto-paródias e humor negro que eventualmente trouxe com toda sua sede de novidades, mas esquece de dar atenção a pontos fundamentais para se fazer um ótimo filme de horror. Um filme que evita e evita os vários clichês, mas acaba caindo em todos eles novamente. É claro que o filme é valido para matar a saudade da franquia depois de todos esses anos e ver a heroína Sidney, que está muito bem no filme, novamente lutando contra Ghostface para salvar sua vida. Só que se fosse pra criar novas regras e fazer uma verdadeira inovação, não deviam ter reciclado tudo já feito e travestir como novo, mas claro, isso é só uma das piadas do show de sátiras que é esse quarto filme da franquia, que deixou muito a desejar.

“A primeira regra das seqüências: Não mexa com o original!” – Sidney

Avaliação: 3/5

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