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Há quem diga que o verdadeiro amor é impossível ser resumido em simples palavras. Elas seriam muito pouco para exprimir tudo aquilo que queremos dizer, até medíocres se comparadas à magnitude do puro sentimento de estar apaixonado. Nada mais digno então transformá-las em músicas de amor, a forma mais poderosa de expressão que nós, simples almas desamparadas, chegamos ao universo poderoso da paixão. Principalmente na juventude, quando os hormônios estão à flor da pele e a sexualidade vem à tona, levando com uma força devastadora a união de muitos casais que, juntos, finalmente descobrirão o verdadeiro amor.

Em meio à guarda-chuvas coloridos que abrigam diferentes histórias dos mais diversos corações, os créditos iniciais anunciam em letras azuladas o nome do diretor Jacques Demy, que aqui teve provavelmente sua obra mais reconhecida em sua breve carreira marcada pelos doces romances e musicais que não tiveram a repercussão que mereciam, com exceção de “Guarda-chuvas do amor” e seu prêmio de melhor filme no Grand Prix em Cannes. Mesmo não tão famoso quanto os outros musicais clássicos de Hollywood e Cia, seu espetacular filme sobreviveu ao tempo justamente pelas mesmas razões pelas quais sobreviveu em 1964: Seu sublime poder hipnotizante.

Intenso em toda sua curta duração, a obra se estabelece como uma música de amor contínua que acompanha em tonalidades de sons e cores os sentimentos dos personagens enquanto caminham naquele pequeno conto de amor ingênuo entre dois jovens franceses apaixonados enfrentando os tradicionais problemas da juventude, sobretudo ao que se refere à despedidas e separações. A poesia de amor cantada durante seus noventa e poucos minutos nunca cessa, todo o filme é narrado com falas transformadas em cantigas e simples conversas transmutadas em cenas de uma magia palpável, convertendo o filme numa experiência hipnotizante pelo seu encanto que transborda seus limites e atravessam a tela em direção ao coração já conquistado nos minutos iniciais de quem a presencia.

Somos primeiramente apresentados a Guy Foucher, o protagonista da história, trabalhando na oficina mecânica onde os funcionários sujos e pobres cantam felizes acompanhados do som de saxofones ao fundo de suas conversas. Logo conhecemos também Geneviève Emery, uma jovem encantadora e apaixonada, assistente na loja de guarda-chuvas de sua mãe e namorada de Guy, com quem troca suas mais amorosas frases de amor. Mas então, o jovem Foucher é convocado para serviço militar e terá que ficar ausente durante dois anos, período de muita dor pela ausência e solidão que um causará na vida do outro, levando-os a selarem aquele romance com uma futura e inesperada gravidez de Geneviève, que carregará para sempre o fruto de uma de suas relações mais intensas, tudo regado com uma das mais longas e belas trilhas sonoras do cinema francês.

O que fica na memória não é nenhuma música em especial, por que elas não existem já que se trata de uma singular canção gigantesca de vários cantores, mas sim a descarga emocional proporcionada por aquele conto de fadas tão caprichado em sua simplicidade que seguir a história e toda sua aura mágica nunca se torna algo menos que espetacular. As performances dos dois atores principais, principalmente o da novata na época, mas veterana nos dias de hoje Catherine Deneuve, juntamente ao desempenho técnico da obra, com a trilha sonora doce e ininterrupta de Michel Legrand, uma direção artística admirável nas cores e ambientações captadas pela câmera emoldurada perfeitamente por Demy, restando acima de tudo uma fascinante melodia de sentimentos transformados em imagem.

A cena de Guy no trem se despedindo de Geneviève, enquanto sua amada vai se afastando cada vez mais dele e da câmera é um exemplo da bela polidez em que a obra se movimenta, principalmente pela insistência de Jacques Demy em realizar fielmente sua pequena obra-prima musical como havia idealizado, com todas as conversas banais ou significativas tomando uma grande proporção de beleza por serem cantadas até a última frase. O final, realista e bem triste, mostra a tamanha maturidade do diretor em não se render aos desgastados clichês românticos e ao óbvio e investindo mais em um desfecho real em contraste com o sonho fantasioso em que o filme é estruturado, adicionando verossimilhança a sua musical história de amor, desprovida de um final feliz pleno, mas tão real quando as emoções dos personagens em cambalear de amores naquele conto de fadas apaixonado.  Um musical esplendidamente diferente dos outros do gênero, que conseguiu sua dose de magia e originalidade por transformar a vida numa literal canção de amor, uma experiência inédita na vida de qualquer cinéfilo amante de musicais disposto a vivenciar uma das grandes viagens cinematográficas de todas. Hipnotizante desde a estranheza que causa em seu início até a magnitude com que se encerra, “Guarda-chuvas do amor” não deixa nada a desejar se comparado aos grandes clássicos hollywoodianos, dotado do mesmo encanto puro e a magia tão almejada por filmes desse gênero e que este exemplar nos entrega tudo isso com muito capricho e amor, uma jóia tão simples e devastadoramente deliciosa que é impossível não querer que nossa vida seja uma grande canção de amor como aquela, mais uma vez, vinda das grandes telas de cinema.

Avaliação: 4/5

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