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O ser humano tem uma sede animalesca de conhecimento. Não importa a quem doer, não importa quem sofrer, o homem é um animal sedento por expandir suas concepções e idéias, derrubando aquelas já estabelecidas e formando novas, e procura sempre se modernizar mediante às próprias transformações que causa na sociedade em que está incluso. São diversos tipos de tortura, inúmeros bodes-expiatórios, testes experimentais em diversos animais, tudo pra encontrar as grandiosas respostas de perguntas que nunca serão respondidas. Mas a maior delas, a de para onde vamos após a morte, chega a um dos seus maiores ápices desconcertantes num dos filmes mais polêmicos da atualidade.

Horrorizando platéias por onde passou, “Martyrs” segue a linha dos excelentes filmes de horror franceses recentes, como “A invasora” (2007) e “Alta tensão” (2003), com um ótimo roteiro e muitos baldes de sangue. Ganhando mais um status de “cult”, já que não chegou a ter muito reconhecimento pela maioria do público, a película se revela uma aterradora experiência a respeito de quão longe o homem pode ir para achar as respostas de perguntas que sempre fez ao longo de sua vida. Cheio de reviravoltas e cenas inesperadas, o sucesso do filme está principalmente no seu efeito de deixar o espectador perdido mediante aos rápidos acontecimentos, deixando a película a partir dos trinta minutos inicias uma verdadeira caminhada no escuro, pois nunca sabemos o que está por vir.

A história começa a partir da primeira de suas três partes, onde nos é apresentada Lucie, uma garota que foi seqüestrada e torturada durante 14 meses, quando finalmente conseguiu escapar com vida. Anos depois, Lucie já virou uma mulher, mas seu desejo furioso por vingança continua a correr pelas suas veias e ele só será saciado após ela finalmente concluir sua missão. Anna, sua amiga de infância, tenta ajudá-la a se recuperar de seus traumas e evitar que o pior aconteça a ela, porém mal elas sabiam que estavam prestes a passar as experiências mais aterradoras de suas vidas, tendo fim num desfecho completamente perturbador.

Contando com algumas das melhores cenas de horror da década passada, a obra choca pelo realismo e crueza em suas imagens, sem medo de mostrar o que acha que deve ser mostrado. Por vezes exagerando dose de insanidade, consegue equilibrar na maioria de sua projeção a violência sem limites e a desumanização do ser humano de maneira muito satisfatória. A cena da vingança da primeira protagonista contra uma família, logo no início, é genial e quase poética de tão intensa que se estabelece, começando como um comercial de margarina com uma família feliz e brincalhona, e acabando com um show homicida e sangrento. A cena da mulher com uma barra de metal na cabeça a ponto de lágrimas de terror caírem pela força sádica que possui. O final conclui a obra com muitos calafrios e olhos arregalados, um desfecho primorosamente doente pra um filme devastador.

Além de um excelente filme de horror, com direito a fantasmas, torturas, sangue, assassinato, também se mostra um tenebroso estudo sobre os limites de quando o ser humano deixa de ser humano para se tornar um literal monstro. Lidando com a vida e a morte da maneira mais doente possível, vemos que enquanto Lucie se vinga daqueles que tentaram tirar sua vida para dar base a estudos sobre o além da vida, ela é perturbada pelo espírito da mulher que não salvou quando teve a oportunidade, a encaminhando pra loucura e provavelmente para sua morte também. Os personagens sempre estão rodeados dessa linha entre a vida, a sobrevivência, e a morte, a depressão, a loucura.

O abuso de violência pinta o tom obscuro da obra, deixando o clima da película algo extremamente pesado. Abordando a dimensão da perversidade humana numa ótica pessimista, não há limites para o que vai ser mostrado na tela, os personagens simplesmente são jogados num mundo de abusos físicos e morais enquanto buscam ainda se manterem vivas mediante de tanta opressão e frieza a que são submetidas. São diversos tipos de tortura mostrados, que gelam a espinha de qualquer um que se imaginasse numa situação parecida a que as vítimas daquele lugar sofreram, tudo sem que o espectador seja poupado em nenhum minuto sequer.

 Porém, talvez o efeito mais controverso do filme seja o de conseguir com que o espectador fique interessado e ansioso pelo que vem a seguir, não importando se aquilo corrói sua ética ou visão de mundo, apenas encaminhando quem assiste à cenas brutais e de crueldade intensa, dando espaço para o espectador acompanhar toda aquele nível altíssimo de violência enquanto a natureza da consciência humana, em sua forma mais primitiva, vai se revelando uma verdade desconcertante. Por mais que o ser humano busque a paz e reprima seus instintos mais animalescos, na obscuridade de cada pessoa sempre há a curiosidade de explorar a violência, o desequilíbrio, a impetuosidade que reside no silêncio da alma humana.

Um clássico de terror francês moderno da perversidade humana e dos limites de até aonde o homem pode chegar na busca de suas respostas, abordando criticas à igreja católica, reflexões sopre a natureza humana e um nível de violência capaz de gelar até a mais insensível alma. Um obra de horror puro, que enlouqueceu os fãs do gênero e já se estabeleceu entre os melhores filmes de horror da década. Mas não é um filme pra qualquer um. Se quiser se submeter a essa experiência forte e intensa, esteja preparado para os quase 100 minutos em que você será a testemunha de toda uma insanidade, presenciará tudo aquilo de boca fechada, onde você será o mártir.

“No mundo como ele realmente é, não há nada mais além de vítimas” – A senhora

Avaliação: 5/5

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