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Geralmente os curtas-metragens sofrem um relativo preconceito de uma parcela considerável do público. Talvez seja por que nunca passem nas telonas do cinema, e se aparecerem é na companhia de um longa-metragem, ou talvez por serem curtos demais e não terem a repercussão que merecem. Servem principalmente como base primordial para diretores iniciantes terem suas primeiras experiências com o ramo, uma vez que tem uma distribuição desprezível e são mais uteis como material de curiosidade, freqüentemente sendo rebaixado dos outros tipos de cinema. Porém, eis aqui um curta que é disparado bem melhor que muitos longas-metragens feitos recentemente em terras nacionais, fato comprovado pela sua grande vitória no Festival de Cinema de Paulínia em 2010.

“Eu não quero voltar sozinho” veio tímido conquistando espaço entre o público brasileiro e hoje já arrebatou muitos corações alheios, mesmo recentemente sendo impedida sua exibição no Acre devido a grandes forças conservadoras. Dirigido por Daniel Ribeiro, que também fez o ótimo curta quebrador de barreiras “’Café com Leite” (2007), aqui dá um passo a frente na qualidade e mostra que cada vez mais está se aperfeiçoando em sua carreira cinematográfica, fortalecendo seus pontos fortes e se destacando como um dos possíveis profissionais de cinema promissores do nosso país, em escassez de diretores realmente talentosos.

Uma palavra que serve de definição ao curta é sensibilidade. Em sua pequena duração, a obra demonstra uma delicadeza em abordar um tema tão sério e que ainda é encarado de uma forma não muito favorável pelas massas. A relação dos dois jovens é mostrada como algo extremamente normal e comum, como deveria ser visto hoje, sem aquelas camadas de preconceito e ignorância que recobrem o tema. Assim como em “Café com leite”, os homossexuais são retratados como indivíduos absolutamente normais e capazes também de viverem os mais incríveis momentos de amor ao lado de seus parceiros.

O roteiro é breve e suficientemente atrativo para sustentar o curta. A história começa logo na sala de aula, onde Leonardo, um deficiente visual, e sua melhor amiga Giovana estudam. Gabriel é aluno novo na escola e está na mesma turma que os dois, começando uma bonita amizade com eles. Mas o tempo vai passando e os laços afetivos entre Gabriel e Leonardo vão tomando cada vez mais força, até os dois cogitarem na possibilidade daquela boa amizade se tornar num lindo romance.

A história é tão simples que acaba por ser charmosa em sua abordagem inocente e agradável de um tema que exige muita cautela. Escapando com triunfo dos estereótipos de afeminados e promíscuos, os gays são retratados de uma forma tão humana que é capaz de nos identificarmos com aquela paixão adolescente e querer sentir a força do primeiro amor novamente pulsando em nossas veias. A narrativa é muito básica e não revela grandes surpresas, apesar do final ser de um encanto contagiante por uma revelação feita por um dos personagens.

Até a fotografia mais clara e leve ajuda na construção do clima de quase um conto de fadas, num ambiente colegial bastante verossímil justamente pela simplicidade adotada, mostrando os personagens em situações cotidianas sempre com essa áurea especial de um puro sonho prestes a se realizar. Não é um curta de atuações, já que consiste em apenas três atores jovens desempenhando papéis normais e que não exigem uma grande dose de dramaturgia, mesmo que eles se saiam bem em suas representações. É acima de todas as atuações, planos e palavras, algo para sentir em todo seu esplendor e ingenuidade.

É incrível o fato de uma obra tão simples e ingênua possa ser tão sublime e corajosa. Um dos melhores curtas do excelente diretor Daniel Ribeiro não é só uma imensa surpresa, mas é prova autêntica de que o cinema brasileiro pode ser tão sensível e delicado quanto o estrangeiro. Dezessete minutos de puro encanto, sinceridade e muito conteúdo ético ao tornar cegos e homossexuais parte de uma sociedade cada vez mais perto de se tornar real. Resta-nos somente apreciar essa jóia que chegou tão silenciosa, mas trouxe um brilho ofuscante consigo de tamanha intensidade que é impossível não se sentir tocado com o sorriso de Leonardo em simplesmente estar amando.

Avaliação: 4/5

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