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Nunca foi fácil ser jovem. Sempre a classe juvenil esteve sobre as asas das mais velhas traçando suas vidas de acordo com as concepções positivas que os adultos tinham de ideal e renunciando suas verdadeiras escolhas, foram praticamente séculos travando uma guerra para a independência e conseguirem provar que são dignos de respeito e igualitariedade. Incluem-se também os momentos em que se tornaram a força da população, principalmente no que se refere às ditaduras militares e revoltas políticas, mas muitas vezes não tem o reconhecimento devido que merecem, justamente pela visão limitada dos jovens sendo criaturas que ainda estão se descobrindo para o mundo, para o sexo, para as drogas, para novas responsabilidades, para a vida. É cada vez maior a freqüência com que os adolescentes são vistos como seres inexperientes e irresponsáveis, diminuindo-os a um ponto de calarem suas vozes para questões fundamentais.

Utilizando-se de um momento primordial na atual vida vazia juvenil e aproveitando dos resquícios de mágoas restantes sobre a tragédia real que aconteceu na universidade norte-americana de Columbine, onde dois jovens portando armas de fogo invadiram a escola onde estudavam e acabaram acarretando a morte de muitos alunos e professores, para no final tirarem a própria vida com tiros na cabeça, Gus Van Sant deu origem à uma das maiores obras-primas de sua carreira, demonstrando possuir uma brilhante ótica tanto para produzir filmes quanto para os problemas da juventude. É um fato admirável ver a sutilidade de Gus em abordar temas tão pesados e conseguir transformá-los em belas imagens a que se deve reflexão, triunfando em tornar o brutal e o assustador em delicadeza e emoção, chegando ao ponto de tentar humanizar o assassino com melancólicas notas de piano.

Um dos principais triunfos da obra é mostrar o quão vazia se mostra a juventude hoje. A vida se tornou um grande vazio aparentemente sem sentido, o dia-a-dia passou a ser algo tedioso, não há mais tantas preocupações que os aflijam e os fazem refletir seus passos futuros, a razão de viver que se mostra tão almejada escapa de suas mãos e levam cada vez mais adolescentes à viverem nas incertezas de suas dúvidas e angústias. Talvez seja o reflexo das atuais relações construídas pelos adultos, conflituosas a cada divórcio legalizado, as quais os jovens tomam como ideal e desenvolvem um complexo descontentamento precoce com a vida. Percebe-se que o diretor torna as conversas coisas banais, os relacionamentos superficiais, tudo para aumentar o vácuo existencial daquelas pessoas cujas tem uma vida inteira pela frente. O breve e trágico final retrata a verdadeira carnificina que ocorreu naquele massacre histórico e também em todas as vidas adolescentes perdidas pelas graves conseqüências de uma juventude que cada vez mais perde sua voz quando mais necessita dela.

Pode-se perceber que o diretor nos dá base para criar vários estereótipos dos personagens, incluindo a loira fútil, os esportistas, os nerds esquisitos, os gays enrustidos, influenciando o espectador a criar rótulos para as outras pessoas assim como fazem os adolescentes em seu cotidiano, rotulando não só todos a sua volta como a si mesmos para tentarem se moldar em características que acabam mais os prejudicando que ajudando. Tudo para nos darmos conta de que criar imagens pré-concebidas de qualquer pessoa é um grande erro, somos todos seres humanos iguais que nos sentimos inseguros, inadequados, estranhos, tentando ingressar numa sociedade que dá mais valor a imagem construída do que há além dela, exatamente um dos principais conflitos enfrentados na adolescência que realmente merecia muita cautela quando tratado, a necessidade de ser alguém.

As motivações possíveis para o ocorrido são analisadas ao decorrer do filme e geram várias especulações para o que foi o ponto decisivo que fez aqueles dois jovens realizarem seu feito cruel. Há espaço para a liberdade virtual que foi possibilitada com os vídeo-games e televisores, cujos parecem não respeitar os limites morais com sua violência exacerbada e acabam por influenciar-los a cometerem tais atos insensatos, há espaço para a visível cegueira dos professores e pais em relação aos sentimentos conflituosos dos adolescentes, perceptível quando se nota que todos os contatos entre as duas gerações são ásperos e cheio de problemas, e esses se sentirem tão rebaixados e não levados a sério que são capazes de tudo para terem suas vozes ouvidas, há uma pequena hipótese sobre homossexualismo, que vem a tona numa cena completamente inesperada, mas há um bom espaço também para o bulliyng, perfeitamente retratado, sem exageros, mas com muitos ressentimentos daqueles que o sofrem tanto na trama quanto na vida real.

As escolhas de Van Sant ao originar sua obra se demonstram tão necessárias como inteligentes. Não querendo defender quaisquer grupos ou indivíduos presentes naquele colégio, ele recria o ambiente escolar como quase nunca é possível de se ver nas telas, com longas caminhadas de personagens nos corredores da escola, grandes cenas sem cortes das conversas e relacionamentos dos mais diversos jovens naquele ambiente, a fotografia fria que combina com o tom melancólico visual, o roteiro muito mais baseado em gestos do que nas próprias palavras em si, que na duração são realmente poucas.

Mais do que um admirável testemunho sobre um fatídico dia numa escola americana, essa obra-prima de Van Sant é um sublime retrato de uma juventude que cada vez mais grita por identidade enquanto é engolida pelo vazio existencial da sociedade em que vivem, um desabafo intenso e belíssimo de indivíduos perdendo a esperança precocemente enquanto continuam andando perdidos pra lugar algum. Seja para transportar perfeitamente os espectadores ao clima colegial e fazê-los vivenciar um quadro fiel sobre as várias divergências da juventude atual, seja para proporcionar uma complexa experiência ao mesmo tempo inteligente e perturbadora, Gus acabou criando um dos melhores filmes sobre o contemporâneo mundo jovem, um verdadeiro oceano de pensamentos e sensações prontos para serem finalmente descobertos.

“A juventude, ainda que ninguém a combata, acha em si mesma seu próprio inimigo”- Shakespeare

Avaliação: 5/5

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