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O universo. O que ele representa? Será ele infinito? Será ele eterno? Seremos nós os únicos seres vivos de toda sua grandeza? De onde ele surgiu? Foi Deus quem o criou ou o “Big Bang” que deu sua origem? Somos o centro da vida do universo ou apenas um pontinho brilhante numa imensidão de trevas?… A existência. Para que vivemos? Porque existimos? Para o que e para onde estamos evoluindo a cada dia? Seremos nós seres finitos apenas esperando o fim de uma vida efêmera? De onde viemos? Para onde vamos? Seremos nós seremos humanos? Mas, quem somos nós? O que estamos fazendo aqui? Por qual razão? Por quê?…

São essas muitas de infinitas questões que nunca serão respondidas, não importa o que disserem as religiões e suas crenças ou o avanço da ciência e da tecnologia contemporânea, serão sempre dúvidas que permanecerão de geração a geração até o fim da humanidade. E foi exatamente isso que Stanley Kubrick quis retratar em uma das maiores obras-primas que o cinema já gerou em toda sua história, “2001 – Uma odisséia no espaço”, um filme simplesmente atemporal a cada segundo na tela. Ao contrário de querer responder todas as perguntas sobre existencialismo e o universo em si, o diretor optou por deixar todas as questões em aberto e ainda adicionar mais uma boa dose de complexidade ao filme, um feito genial se considerarmos que são perguntas que nunca encontraram uma solução definitiva, seja por bem ou por mal.

Em conseqüência de deixar tudo em aberto, o filme dá base para múltiplas interpretações diferentes e teorias evolucionistas subjetivas que também nunca poderão ser a interpretação definitiva para uma obra de arte que abrange todo o infinito, portanto, se transforma também numa obra infinita. Incrementando um estranho retângulo preto em meios aos primatas aos quais evoluíram e deram origem ao que somos hoje, um robô chamado HAL 9000 que criou inteligência própria e se consagrou como um dos maiores vilões fictícios da história do cinema, o resumo de toda a vida do protagonista numa seqüência final aterrorizante e ao mesmo tempo brilhante, fez da terra a jaula da existência com um ovo enorme que abriga um bebê dentro, são tantas peças para um único quebra-cabeça que colocar tudo em palavras se torna uma tarefa quase impossível.

Por se tratar de uma obra atemporal, pode-se dizer que é muito a frente de seu tempo, até a frente que dos tempos atuais pra falar a verdade. São tantas idéias e metáforas que depois de décadas continuam mais contemporâneas do que nunca, aliadas a efeitos especiais inimagináveis para os padrões da época, mostrando todas aquelas naves enormes e imagens “psicodélicas” com maestria, que juntos transformaram o filme num enorme estudo sobre o infinito e o finito, o universo e a existência, a vida e a morte. Na medida em que vamos se aproximando do final, a obra até se parece um filme de horror, onde toda nossa vida se passa num piscar de olhos, olhamos todas nossas fases no passado e vemos um futuro incerto e angustiante que não temos certeza de absolutamente nada, como tudo na vida. Um filme que nunca estará datado, pois espelha tudo aquilo a que o homem se questionou, questiona e questionará até o infinito finalmente achar seu trágico fim.

A linguagem cinematográfica foi usada por Kubrick como quase nenhum diretor consegue fazer em toda sua carreira. Num filme quase mudo, o diretor utiliza todo o poder da imagem, principalmente da magnífica fotografia, em conjunto com a trilha sonora, que é marcada de óperas e músicas clássicas excelentes, além de ter uma das faixas mais famosas do cinema (Also Sprach Zarathustra), para montar uma obra extremamente sensorial e reflexiva usando da perfeição técnica para transmitir tudo aquilo que conseguiu em seu universo de hipóteses. O cineasta reflete ter um domínio sobre a imagem impressionante, tornando uma obra que tinha tudo para fracassar e ser muito cansativa em uma experiência complexa e absolutamente genial.

A respeito da parte técnica novamente, poderia dizer então que a obra tem um ritmo lento que acaba se revelando seu único defeito, mas como posso afirmar se não foi a pura intenção de Stanley? Se ele quis retratar toda a evolução do universo que demorou anos para ocorrer num filme que também desse a idéia de muito tempo ocorrido, numa obra de milhões de microssegundos? Não há certeza, só o ser humano que sobrevive a cada dia em seu vácuo existencial. Seria impossível tentar entender toda a magnificência da obra ou ter certeza de interpretações válidas sendo que elas simplesmente não existem.

 Infinito. Uma palavra que resume tudo aquilo que o filme representa em nossas vidas e em toda a história do cinema, uma obra simplesmente imortal que ficará para sempre como um dos maiores auges fílmicos não só do diretor, mas sim de toda essa arte em si, enquanto cinema for cinema. São infinitas interpretações para infinitas possibilidades, são infinitos elogios para infinitas qualidades, é o cinema provando novamente que pode ser uma das maiores expressões artísticas de todos os tempos. A terra possui cerca de 4.57 bilhões de anos que foram retratados na maior generalização espacial e existencial fílmica já feita, que só um mestre com o porte de Kubrick poderia tornar realidade. Uma obra infinita.

“Penso que estamos vivendo ainda na Pré-História do entendimento do universo.” – Ulya Prigogine

Avaliação: 5/5

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