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Tango. Completamente sensual, é uma dança que necessita perfeita sincronia entre o casal para fluir majestosamente, com passos ensaiados e movimentos ousados. Paris. A bela cidade mundial dos amantes, onde os amores nascem e morrem a cada vez que as luzes da cidade são acesas e iluminam os corações dos apaixonados. Amor. Capaz de levar as pessoas até a mais alta nuvem no céu, até o ápice da felicidade que nunca mais encontrarão pelo resto de suas vidas. Sexo. Um dos atos mais íntimos possíveis, é capaz de levar qualquer um ao êxtase do orgasmo com o atrito entre os corpos, o calor que os consome, os fazendo se sentirem completos instantaneamente. Instantaneamente…

Uma reflexão profunda sobre os significados do sexo e do amor num dos filmes mais polêmicos da década de setenta, o famoso “Último tango em Paris”, dirigido por Bernardo Bertolucci, que mais tarde viria a fazer outras grandes obras como “O Último Imperador” (1987) e “Os Sonhadores” (2003), aqui realiza uma obra reflexiva e bem menos absurda se vista com olhos corretos e não preconceituosos, pois comparado aos parâmetros atuais, a película não se mostra tão pornográfica e ofensiva quanto fora divulgada. Qualquer que tenha sido a intenção do diretor, o cineasta criou uma obra lembrada por muitos, seja numa lembrança positiva ou negativa, mas que nunca após vista ficará indiferente. Se apoiando numa situação simplória, a verdadeira complexidade está nos bons diálogos da trama.

O filme já começa nos apresentando duas obras de artes distintas, mostrando que será uma experiência onde não devemos buscar a lógica, mas sim sentir aquilo que será nos mostrado. Depois, passamos a conhecer de forma brusca Jeanne, uma mulher jovem que vive infeliz por causa do namorado que não dá a ela atenção suficiente e de sua vida monótona, e Paul, um homem solitário e rude beirando aos cinqüenta que não suporta mais o grande vazio que se resume sua vida. Logo descobrimos a inusitada relação entre eles, que se revela tão superficial quanto nos é mostrado deles primeiramente na cena, onde os dois arranjam um apartamento sem móveis e vazio (que quase se tornam um personagem na trama) para poderem se satisfazer sexualmente, não importa o que se passe, e sim atingir o prazer sexual das mais diversas formas.

Dando lugar as reflexões e o vácuo na vida dos dois personagens principais, a história se torna um complexo estudo sobre aquelas duas almas perdidas que encontraram uma na outra a satisfação momentânea e o ápice da intimidade física para talvez enganarem a si próprias e tampar o grande vazio que sentem em suas vidas. Jeanne é um bom retrato da faceta da juventude, sempre com medo de envelhecer e tomar escolhas erradas em sua vida efêmera (há até uma alegoria de personagens velhos que sempre se mostram doentes ou esquisitos para a moça), enquanto também mantém uma relação amorosa com Tom, seu marido que sempre faz dos seus momentos mais apaixonados uma cena para seu novo filme, o que a faz perceber que ele somente ama a imagem dela como sua namorada e futura esposa, mas não há sentimentos reais aos quais Jeanne possa sustentar aquela frágil relação.

Já Paul se mostra um ser completamente solitário, fechado, um homem retraído por causa de sua vida passável, os traumas de infância que carrega até hoje e dificultam sua relação com a sociedade, o carecimento de amor verdadeiro e a recuperação emocional lenta devido a uma grande tragédia em sua vida, que acabou o transformando numa pessoa rude e que vê no sexo sua forma de expressão de liberdade para quebrar sua rotina tediosa. No encontro dessas duas pessoas depressivas, nunca é mostrado como elas se conheceram, ou uma dizendo o verdadeiro nome para a outra, por que nada disso importa no mundo do casal, o que é relevante se torna o ato em si, sem compromissos, sem nada para se agarrar, só o contato animalesco que os satisfaz até a hora da próxima relação sexual, originando base pra muitos questionamentos a respeito de quem eles realmente são e o que sentem um pelo outro de verdade.

Entre reflexões e tragédias, Bertolucci arranja um espaçinho pra homenagear o cinema que move sua alma. Tom talvez seja a representação do cinema em sua forma mais bruta, pois só consegue ver a realidade por meio da imagem, na lente da câmera que nunca para de filmar, ele ignora a realidade e passa a viver daquilo que é mostrado em tela, ou seja, o mundo real de Tom é transportado por inteiro para o seu filme em produção, num clássico exemplo que a arte imita a vida, mas a vida imita a arte. Além de tal personagem, há também referências sobre atrizes famosas do cinema como Rita Hayworth, Joan Crawford, Ava Gardner (entre outras) numa inspirada dança na chuva que comprova sua intenção. Além disso, o diretor discorre em sua trama densa e erótica a peculiar relação entre o diretor e o espectador, que sequer nem se conhecem, mas compartilham juntos a intimidade reflexiva da obra que os une.


Mesmo com seus pequenos desequilíbrios, “O Último Tango em Paris” é uma obra corajosa que angariou seu espaço na história do cinema, seja por sua razoável polêmica ou por sua veia reflexiva magnífica, onde os personagens adentram nas sombras de seus reflexos vazios e sempre estão em busca de algo que parece distante, quase não existir. Uma pequena jóia em suas grandes atuações, com Marlon Brando e Maria Schneider perfeitos, em seu roteiro sedutor, em suas cenas mais ousadas e em se estilo conquistador, que consagrou não só muitos dos nomes envolvidos, mas a si própria em toda sua magnitude.

Avaliação: 5/5

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