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Todos nós já tivemos relacionamentos fortes aos quais nos apegamos muito. Pode ser um antigo amor, um grande amigo ou alguém que tenha passado pela nossa vida e deixado marcas que sentimos saudades. Muitas vezes, ficamos recordando dos momentos que passamos com eles, as horas engraçadas, as tristes ou as de que simplesmente, por algum motivo, continuam vivas em nossa memória. Nos divertimos e aprendemos tanto, mas há momentos em que queríamos mudar algumas coisas, ter outras atitudes ou ter falado coisas diferentes, mas não podemos, mas não se volta no tempo. O que nos resta é somente lembrar de quão maravilhosa foi essa época em que essa pessoa especial teve em nossa vida.

Refletindo sobre isso, Woody Allen deu origem a uma de suas obras mais prestigiadas pela crítica e memoráveis para o público, “Noivo neurótico, noiva nervosa”. Apoiando-se num roteiro hábil e inteligente, que se mostra mais atual do que nunca e habituado numa das grandes metrópoles mundiais, como na maioria de suas obras, o diretor reflete o passado e o presente, os relacionamentos amorosos e algumas questões existenciais, o que já passou e aquilo que vivemos no cotidiano, numa película que usa de muitos artifícios técnicos e se sobressai por sua dinâmica distrativa e cômica, num roteiro delicioso.

A história é tão simples que se torna encantadora: Um comediante judeu chamado Alvy Singer, que faz anos de psicanálise intensiva e se encontra divorciado, conhece Annie Hall, uma iniciante cantora de bar e solteira, que foi apresentada ao Alvy por Rob, seu melhor amigo. Assim que dois finalmente declaram seu amor e vão morar juntos, as discussões de relacionamento e os desentendimentos vão cada vez mais ofuscando o que nasceu como uma tímida história de amor, mas o desenvolvimento dos sentimentos do casal ao longo da trama vai se dar de forma sedutoramente cômica.

A impressão ao final da película é de que viajamos junto com o protagonista em suas memórias amorosas com Annie, como se fossemos convidados a relembrar antigos momentos no relacionamento do casal e as épocas que ficaram marcadas para Alvy, indo e voltando em seu emaranhado de lembranças, seja na academia de tênis onde se conheceram pela primeira vez, numa cozinha onde deram muitas risadas por soltarem acidentalmente lagostas vivas no chão ou em algum lugar que houve uma discussão séria de relacionamento. Mais que isso, o poder em se passar exclusivamente na memória do personagem o permite mudar a ordem cronológica da história, falar coisas que não fariam sentido em diversas situações de estivessem ocorrendo em tempo real, dividir telas de acordo com seus pensamentos mútuos e proporciona diversas cenas cômicas.

Alguns mínimos detalhes na estrutura narrativa são responsáveis por grande parte de seu sucesso. A quebra de uma narrativa convencional é feita magistralmente, proporcionando momentos cômicos e originais que até hoje podem ser vistas claras influências que causaram em obras futuras, como por exemplo, quando aparentemente estamos vendo um filme em terceira pessoa e de repente o protagonista começa um divertido diálogo com o espectador, em primeira pessoa, o que permite os personagens fazerem coisas que logicamente nunca fariam se fosse uma narrativa comum, ou quando aparecem legendas traduzindo o que os personagens estão realmente pensando, e não aquilo que estão dizendo, ou na divisão de cenários, o que faz com que os personagens contracenem na mesma cena de uma forma implícita e deliciosa, ou quando o protagonista viaja no tempo em suas memórias, voltando desde quando era criança até sua fase adulta, ou repentinamente participar de um desenho animado com uma madrasta vaidosa, são genialidades assim que fazem a obra ter seu brilho.

Diane Keaton se encaixou de uma forma surpreendente no personagem, criando uma mulher divertida, meio ansiosa e atrapalhada no começo do relacionamento, mas depois se mostra uma pessoa muito crescida e simpática, além de seu figurino estiloso ter mudado os conceitos de moda na época, Tony Robers é o mais ofuscado do elenco que consegue ver alguma luz de destaque, fazendo um Rob monótono. Allen, interpretando sempre o mesmo personagem em seus filmes, está engraçadíssimo com seus diálogos neuróticos sobre relacionamentos e suas opiniões obsessivas sobre amor, como sempre.

Uma obra que continua urbana e jovial depois de mais de trinta anos passados, um marco na carreira de Allen e uma de suas obras que mais angariou prêmios e foi reconhecida. Uma deliciosa experiência, que inspira originalidade e expira entretenimento de primeira classe, graças ao roteiro brilhante e a excelente direção de Woody, que produziu uma comédia romântica clássica que entrou na galeria das melhores de seu gênero. A personagem Annie Hall é a imagem perfeita de tudo aquilo que o filme representa, de relembrar todas as memórias e sentimentos que marcaram a vida por alguma pessoa que continua viva em nossas lembranças.

Avaliação: 5/5

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