Tags

, , , , , , ,

“O tempo destrói tudo”

Polêmica. Alguns filmes a usam para simplesmente se promover, conquistar um pequeno público fiel para defender suas atrocidades e atrair diversas pessoas para o cinema, muitas vezes se estabelecendo como um grande “cult” ou se auto-denominando corajoso e que vencedor por conseguir ultrapassar barreiras impostas pela sociedade, mas grande parte dessas obras não passam de um lixo hipócrita que recebeu mais atenção do que merecia, visto o pseudo-clássico “Saló – 120 dias de Sodoma”. Porém, há outros filmes (pouquíssimos) que usam dessa polêmica e ultraviolência para iniciarem um verdadeiro estudo profundo sobre determinado assunto, geralmente sobre a natureza humana ou as conseqüências dos nossos atos no grupo social em que vivemos, evitando exibir violência desnecessária ou gratuita, mas sim fazendo pensar pelo choque que causa inevitavelmente.

Em 2002, “Irreversível” finalmente chegou aos cinemas e abalou o mundo, justamente por sua tão famosa polêmica. Alguns condenaram o filme com todas as forças possíveis, achando que prestigiar o filme fosse uma coisa abominável, uma idiotice sem tamanho. Outros realmente captaram tudo o que a obra quis passar e deram a ela todo o prestígio que merecia, até elegendo-a como um dos melhores filmes daquele ano. Independe das opiniões, “Irreversível” é um filme que quando assistindo, nunca será indiferente na vida das pessoas que o viram. A história já surpreende pelo inesperado. Contado de trás para frente, narra a história dos dois amigos Marcus e Pierre, procurando o homem que estuprou a namorada do primeiro. Em seguida, mostra como eles conseguiram informações para realizar o ato. Depois, é revelado como Alex, a tal namorada, foi parar naquele túnel escuro e inevitavelmente estuprada. Logo, a trama se volta para o dia-a-dia do casal principal, dando base para muitas interpretações.

Quando a película começa, já percebemos que estamos pra ver algo bem diferente. Os créditos iniciais têm palavras com letras invertidas e bagunçadas, então tudo começa a entortar e são apresentados os principais nomes da obra, com as letras piscando incessantemente. Vemos uma escuridão vertiginosa, com a câmera rodando descontrolada no que parece ser uma rua escura iluminada pela luz fraca dos postes, e logo somos levados até uma boate gay de sexo hardcore, onde Marcus procura furioso algum homem que nem sabemos que é ou o que ele fez, mas vemos sua morte brutal pela câmera nervosa de Noé. Com o decorrer da obra, nota-se a quebra de uma ordem narrativa, onde toda a história é contada de trás para frente, presenciando todo aquele horror e violência que ronda os personagens se dissiparem para algo comum e leviano quando é retratada a vida cotidiana dos mesmos.

Gaspar Noé tem uma direção extasiante, adaptando meios de filmagem originais ou plagiados de outras obras em suas cenas, com câmeras vertiginosas, ‘takes’ muito demorados, a simples câmera de mão, tudo com uma faceta autoral. Devo confessar que a razão do filme não ser uma obra-prima máxima é um certo pretencionismo perceptível do diretor, que parece que nem tinha um total domínio daquilo que estava fazendo, mas não chegou a atrapalhar a obra num nível considerável. O maior feito do diretor aqui é elevar a verossimilhança num nível extraordinário, construindo durante toda a projeção um clima pesado de seriedade e veracidade.

Todos os aspectos técnicos contribuem para o clima alucinógeno na película. Primeiramente o som, um conjunto de sons angustiantes, que aumentam e abaixam, vem e voltam, como se estivéssemos compartilhando a fúria nauseante do personagem principal. Há algumas faixas de músicas clássicas belíssimas, como a da ultima cena, mas nada que se compare aos efeitos extraordinários dos sons torturantes do filme. Outro ponto que anda simultaneamente com esse último é a fotografia escura e vertiginosa presente até o final do meio do filme, tornando a obra uma experiência nauseante indescritível. Monica Bellucci conquistou meu sincero respeito em sua personagem Alex, aceitando um papel tão corajoso e desafiador, interpretando-o de forma tão natural, que ficou algo magistral. Vincent Cassel faz um homem que literalmente perde a razão e se move por sua fúria de uma maneira tão verdadeira que é quase impossível não ser afetado por todo aquele ódio que move sua alma. Não há nada demais na nudez mostrada no filme (até parece que alguém que assistiu a obra nunca tenha visto seios ou cenas de sexo antes), só foram incrementadas pra aumentar ainda mais o teor verossímil que quis passar somente pra experiência ser mais intensa e chocante. As cenas em que há os lugares onde acontecem as orgias trazem ao espectador uma reflexão bizarramente inteligente, na qual devemos nos questionar qual a diferença entre a boate de sexo gay e a casa onde há pessoas fazendo sexo em cada cômodo possível? Todas aquelas pessoas são seres humanos, iguais para iguais, só procurando uma forma de prazer instantânea. A grande diferença talvez seja que muita gente vê os homossexuais como pessoas sujas, sombrias e promíscuas, o que o filme retratou genialmente mostrando eles naquele lugar escuro e sombrio, e mostrando os héteros num local mais comum, caseiro e “limpo”, salientando a visão preconceituosa de muitas pessoas a respeito de orientação sexual e, posteriormente, a violência que é tão reprimida, mas sempre onipresente.

Duas cenas presentes na obra ficam na memória de qualquer um que já se submeteu a essa experiência complexa. A primeira é logo no começo da película, onde o protagonista Marcus e seu amigo encontram o suposto estuprador de sua namorada numa boate gay sombria e psicodélica, portando de um extintor de incêndio que usa pra estraçalhar o rosto dele, numa cena sem cortes e impressionante pela violência explícita que invade a tela em mostrar a cara do sujeito sendo destruída e encharcada de sangue. A segunda praticamente já se tornou antológica de tão comentada, quando a personagem Alex atravessa o túnel do metrô em plena madrugada e é abordada por um homem doentio em seu caminho, que a estupra violentamente e logo após a chuta até ela ficar em coma profundo e com o rosto deformado, numa cena de mais de dez minutos também sem cortes, provavelmente a cena de estupro mais famosa do cinema.

Muitos disseram que a obra degrada a humanização, mas ela só está lá no filme pra ser questionada, pois já é degrada naturalmente pela sociedade hipócrita. No final, é refletido que até a pessoa mais sã, bondosa, inteligente, mãe, pode ser futuramente vítima dos piores horrores da vida urbana, uma pessoa que vive uma vida normal, ama e é amada, gosta de crianças e se prepara pra ser mãe, de repente pode ser brutalmente violentada a qualquer minuto. Não há exceções pra violência, e nem para as conseqüências da passagem do tempo que acabam por trazê-la. Depois, há um pequeno detalhe na cena do extintor que faz toda a diferença na trama, pois Marcus e seu amigo não matam o estuprador de Alex, mas sim um cara qualquer que achavam que era ele. Ou seja, o estuprador ainda está vivo e sem nenhum arranhão, os dois mataram uma pessoa que não tinha nada haver com a história num ataque de fúria animalesco, retratando que nada difere Marcus do estuprador, pois os dois matam e violentam pelos seus instintos mais primitivos, o que nos traz bizarramente uma grande lição de moral: Combater violência com mais violência é errado.

A violência é chocante, de uma forma surpreendentemente perturbadora, mas completamente real em nossa vida urbana, o que muitas pessoas preferem ignorar e fechar os olhos. A violência está por toda parte, dentro de nossas casas ou nos becos escuros das ruas, sempre esperando uma nova vítima, que pode ser algum conhecido, algum amante, ou até você mesmo. Vemos todo dia nos jornais televisivos e boatos que se espalham em nossa comunidade, atos de extrema violência que simplesmente deixamos passar, fechamos os olhos, apenas esperamos o tempo passar e nunca descobrir o gosto amargo dela.

Mas o tempo vem e traz consigo coisas horríveis, porém inevitáveis. Momentos que transformam nossa vida para sempre, avassaladores e que estavam destinados a acontecer. E o destino é algo irreversível, um poder que está além do nosso controle como seres humanos, impotentes mediante a vida que passa rapidamente por nossos olhos, o que podemos fazer é somente continuar a viver antes que o tempo comece sua influência devastadora. O que antes era tão feliz, harmonioso, aparentemente agradável, se torna num piscar de olhos algo horrível, desagradável, em que não é possível tentar voltar ou fazer tudo diferente, pois a vida é irreversível.

Não é um filme pra qualquer um, principalmente para aqueles de mente fechada ou que procuram um ótimo entretenimento divertido. Não é uma obra pra ficar vendo e revendo toda hora, devido ao seu efeito nauseante e imagens fortes, mas é uma experiência pra ser sentida e analisada, não degustada como forma de prazer, é um tipo de cinema diferente ao que estamos acostumados. Muita gente apaga a genialidade do filme só por ódio a toda violência mostrada na tela, mas as coisas não devem ser vistas nessa ótica preconceituosa, mas sim pela visão do cinema arte, uma forma de expressão para fazer pensar e muito. Posso até arriscar dizer que seja o melhor filho prodígio de “Laranja Mecânica” (1971), a obra em que questões sobre a violência atingiu seu ápice. Mas “Irreversível” conquistou o seu devido espaço no cinema como um filme que pode ser taxado de doentio, violento, assustador, mas nunca negado que é genial e uma verdadeira obra-prima, mesmo que seja um dos filmes mais brutais já feitos na história.

“O tempo destrói tudo”

Avaliação: 5/5

Anúncios