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Dentre todos os gêneros cinematográficos, o drama e o romance são de longe os quais Woody Allen se destaca. O diretor até consegue fazer ótimos suspenses e comédias, vista a qualidade de “Match Point” (2005) e “O dorminhoco” (1973), mas são nesses gêneros citados anteriormente que ele encontra seu porto-seguro, onde pode transportar todas suas obsessões e pensamentos sobre o amor e os relacionamentos para a tela, fazendo inúmeras obras-primas. Porém, poucos filmes de sua carreira conseguiram a maestria que “Hannah e suas irmãs” conseguiu, de misturar toda a intensidade do drama com o encanto do romance numa obra inestimavelmente deliciosa.

Uma grande crônica urbana sobre relacionamentos é transportada para a tela de uma magnitude que só Allen poderia fazer. Entre prédios e avenidas, somos apresentados à diversas tramas que englobam vários tipos de relacionamentos, sejam eles de marido e mulher, irmãos e irmãs, cunhados, sobrinhos, ou uma simples amizade. Tratados de forma corriqueira e muito real, transformando a vida dos personagens em algo mais verossímil possível, passamos a acompanhar o cotidiano apressado de Hannah, a mulher que a trama toda está de algum jeito relacionada.

Ela vive num dos prédios no centro de Nova York com seu marido Elliot, onde suas irmãs Holly, uma drogada frustrada que nunca consegue arranjar o homem dos seus sonhos, e Lee, uma mulher imatura casada com um homem muito mais velho que ela, que a trata como se fosse uma adolescente, costumam visitá-la freqüentemente, tanto para conversas quanto pra pedir dinheiro. Quando Elliot simplesmente se apaixona por Lee, toda a estrutura familiar aparenta desabar a qualquer minuto, ainda mais porque Mickey, o angustiado ex-marido da protagonista, está cotidianamente questionando sua existência e nunca parece achar respostas. Nesse emaranhado de amizades, amores e frustrações, passamos a conviver com os dramas dos personagens junto ao que está sendo mostrado na tela, de uma forma mágica.

A forma com que tudo é realizado e flui com uma naturalidade traduz aquilo que mais se ama no cinema de Woody Allen, uma obra cotidiana a qual podemos nos identificar a cada frase dita ou atos dos personagens que acaba virando um deleite de tão “real” é o mundo “fictício” de Allen. Nossos receios, pensamentos e desejos refletidos a cada pensamento dos personagens que o diretor nos permite invadir (principalmente os devaneios de Holly e Elliot) e a cada palavra dos excelentes diálogos que transformam Hannah e seus relacionamentos parte da nossa vida cotidiana, principalmente pela simplicidade e naturalidade com que tudo é feito.

As teias dos relacionamentos que a obra tece ao longo de sua projeção ampliam ainda mais os diversos tipos de amor retratados. Temos o amor “proibido” entre um cunhado que se apaixonou pela irmã de sua mulher, num desejo que o consome pouco a pouco e domina seus pensamentos até a tentativa de conquista, a compaixão de Hannah por suas irmãs que não tiveram a mesma “sorte” que ela no jogo da vida, o homem reprimido que não vê o suicídio uma má idéia, o apoio que cada personagem dá ao outro para seguir em frente, o amor, a tristeza, a euforia, o ódio, e todos os problemas e fases de um relacionamento amoroso visto de várias óticas, as palavras ditas por eles englobando temas como drogas, sexo, compromisso, existência, tempo, amor, numa obra que chega a ser quase um épico dos relacionamentos contemporâneos.

As atuações estão muito naturais e combinam com o clima doce do filme, Dianne Wiest é a melhor do elenco feminino, que encara um papel tão simplório e normal de uma forma muito carismática e que tem certo charme, mas o resto das atrizes não fica muito atrás, com uma admirável Mia Farrow, um pouco mais apagada comparado ao seu desempenho em “Rosa púrpura do Cairo” e Barbara Hershey que está uma doçura. O destaque do elenco masculino fica por conta de Michael Caine, que acaba se apaixonando por quem não devia numa performance cômica e ao mesmo tempo até que sofrida, e Allen no papel de Mickey Sachs, novamente um baixinho neurótico urbano apaixonante. Ou seja, um equilíbrio agradável de sexos no elenco que gera uma maravilhosa obra unissex.


Se não for o melhor, com certeza é um dos melhores filmes na carreira de Woody Allen, misturando drama e romance, comicidade e sofrimento, amor e desejo, num conto extremamente urbano e que ainda continua vivo e atual. Além de possuir a dádiva de uma narrativa deliciosa de se acompanhar, como poucos diretores realmente conseguem gerar, o filme ainda se mostra muito bem filmado, dirigido e atuado, uma experiência completa. Um marco na vida de Allen e de muitos cinéfilos, afinal, Hannah e as suas queridas irmãs podem estar bem mais perto de nós do que imaginamos.

Avaliação: 5/5

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