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Antes de dirigir o prestigiado “Magnólia” em 1999, Paul Thomas Anderson trouxe as telas de cinema dois anos antes sua ótica extasiante do cinema pornográfico da década de setenta, abrangendo as relações humanas e o preconceito da sociedade numa obra intensamente brilhante. Mais tarde nos entregando outros filmaços como “Sangue negro” (2007) e “Embriagado de amor” (2001), Anderson já mostrava no início de sua carreira ser um excelente diretor, de obras caprichadas, corajosas e bastante originais, e “Boogie Nights” comprova isso.

Tudo começa quando Eddie, um jovem bem dotado que procura algum emprego que o sustente, conhece Jack Horner, um diretor de cinema pornográfico, que o convida para estrelar seus filmes e rapidamente o transforma na grande estrela pornô “Dirk Diggler”, recebendo muitos prêmios prestigiados e lucro. Quanto mais Eddie vai se infiltrando naquele mundo promíscuo de sexo e drogas, mais aquele universo vai se revelando algo decadente e falso, que vai contaminando todos que se atrevem a adentrar nele.

Nem é preciso dizer da tamanha ousadia do filme em abranger um universo cheio de tabus e provocações de uma forma tão divertida, mas por vezes pesada. Mostrando cenas de nudez e sexo picantes, o realismo do filme o torna um deleite de acompanhar , inclusive quando a trama se torna mais séria e violenta. Uma obra sensual e ao mesmo tempo inteligente, usando daquela comunidade para construir um discurso maravilhoso sobre o amor e os relacionamentos que as pessoas constroem entre elas. Construindo toda uma ambientação realista da época, inclusive na escolha das músicas que compõem a trilha sonora, que variam entre os gêneros que dominavam o final dos 70 e começo dos 80, com faixas que revezam entre os sucessos absolutos das discotecas e um rock com estilo mais clássico, a obra capta o puro espírito “livre” daquele tempo. Anderson faz uma direção muito competente, com pequenos travellings de câmera maravilhosos, dando um ritmo ágil ao filme e explorando várias técnicas de filmagem e artifícios do roteiro em uma obra alucinante.

O universo ao qual os personagens estão inseridos se mostra tão instantâneo que é necessário aproveitar ao máximo cada momento. Tudo pode se passar num piscar de olhos, pois nada é real e definitivo naquele lugar. Na cena em que Brandy rapidamente tira uma foto de Eddie mostra sua necessidade de marcar aquele momento único, mas principalmente, muito passageiro. Outro exemplo é quando Eddie começa a ficar nervoso e ergue uma mania de grandeza só por que se sentiu ameaçado por outro jovem com potencial de ser a nova estrela pornô, podendo ser substituído tão facilmente quanto chegou ao estrelato.

O ramo pornográfico emergente da década de setenta retratado no filme mostra que antes da pornografia ser ridicularizada e banalizada como é atualmente, com uma falsa democracia de qualquer um filmar qualquer cena amadora que quiser devido a forte expansão da internet, era uma indústria cinematográfica como todas as outras, talvez não tendo o sucesso de público dessas, mas ainda assim garantindo seu espaço, pois os filmes tinham um roteiro (mesmo que precário), atores, recebiam prêmios respeitados, lucro com a distribuição e arrecadação,tendo suas estréias na tela de cinema e sendo “respeitado” como qualquer outra obra de outro gênero. Ou seja, com o passar do tempo, o gênero pornô foi cada vez mais sendo vulgarizado tanto pela sociedade quanto pelos os próprios envolvidos.

O preconceito da sociedade a respeito do sexo e seus significados (na época até os dias atuais) se reflete nas situações dos personagens que enfrentam dificuldades em se integrar a uma sociedade mais conservadora, justamente por terem escolhido tal carreira. Por mais que Brandy tente ser “alguém” em sua vida, se dedicando cada vez mais aos seus estudos, sofre pela personagem “Rollergirl” que criou de si própria para os filmes em que atua. Amber acaba sofrendo muito por uma imagem estereotipada criada de seu caráter, que acaba a atrapalhando em suas tentativas de inclusão a uma vida normal, principalmente com a relação ao seu filho. Eddie, quando não vê mais soluções para seu sustento e escolhe a prostituição, é agredido na rua violentamente. Os personagens são tratados como se pertencessem a um submundo repulsivo, em que se deve manter distância aos olhos do senso comum. Mas a pura verdade está bem diante dos olhos de quem quer ver, pois foi assistindo a filmes pornográficos que muitos relacionamentos foram salvos, muita gente aprendeu várias dicas de como melhorar o desempenho na cama e algumas pessoas solitárias e infelizes encontraram sua fonte de prazer instantâneo. Uma hipocrisia tão transparente, mas que todos preferem ignorar, já que fazemos parte de uma sociedade que ao mesmo tempo em que condena tal ato, o pratica incessantemente.

As pessoas carecem de sentimentos reais. Essa necessidade fica evidente a todo o momento da película, com personagens tão humanos, mas ao mesmo tempo em que sustentam um mundo artificial e passageiro que sabem que não possui uma essência verdadeira. Por exemplo, quando Bill, cansado de agüentar toda a falsidade descarada daquele ambiente, sendo ridicularizado por sua esposa que faz sexo com qualquer homem na hora que quiser e sendo incentivado pelos outros a nem dar atenção ao fato dela não sentir nada por ele (se já sentiu algum dia), resolve tomar atitudes drásticas que para ele parecia a melhor solução. Em outra cena, Scotty J. arrisca um beijo de Eddie, mas logo é advertido pelo mesmo, pois foi vítima de seus próprios sentimentos que julgou que eram reais, com as trocas de olhares e tudo mais, porém não passavam de ilusão. Nota-se em algumas partes singulares da trama que os personagens sentem falta de uma família a qual possam se sentir seguros e felizes, sempre apelidando uns aos outros de “filhos” e “mães” nesse intuito de construir relações que não precisem de laços sanguíneos, mas simplesmente de coração. Todos estão naquele local pra trabalho, ignorando parte de seus sentimentos e valorizando demasiadamente o sexo, uma alternativa rápida e eficaz de conseguir muito dinheiro e prazer, como uma forma de preencher aquilo que os mantêm vazios.

O elenco é recheado de estrelas e merecem crédito por aceitarem atuar num filme tão corajoso, já que alguns atores tiveram uma nudez considerável na película. Mark Wahlberg faz um de seus melhores protagonistas, pegando todo o espírito jovial e sensual de Eddie e o transportando pra tela, construindo um personagem bastante carismático. Julianne Moore está maravilhosa como Amber Waves, fazendo jus ao posto de uma das melhores atrizes da atualidade, adequando suas emoções com os sentimentos da personagem em todos os momentos da trama. Burt Reynolds, que teve sua única indicação ao Oscar por esse filme, tem um desempenho notável que se encaixa muito bem no papel do diretor que se acha mais do que é. Heather faz um dos primeiros grandes filmes de sua carreira, com uma “Rollergirl” insegura e consciente que está jogando sua carreira profissional no lixo, tomando atitudes para sua vida valer realmente a pena antes que seja tarde demais.

O universo pornográfico nunca foi tão bem representado quanto nessa obra-prima de Anderson, um filme ousado e diferente que elevou seu autor a um novo patamar fílmico e já se tornou um pequeno clássico da década de noventa. Um filme maravilhoso nas mensagens sobre família e relacionamentos que trata, além de ser entretenimento de primeira classe, mesclando um diretor talentoso, atores brilhantes, um roteiro ousado e usando da pornografia e das drogas como um tempero para toda aquela mistura orgástica que acabou num dos melhores filmes de seu diretor, o que já é muita coisa.

“Debaixo desse jeans há algo maravilhoso esperando pra sair” – Burt

Avaliação: 5/5

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