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A crucificação de Cristo e sua inevitável morte foi o tema mais explorado pelas igrejas católicas e filmes religiosos no geral. Um acontecimento de ganhou força de uma forma monstruosa, dividindo a história e definindo muitas estruturas da sociedade que continuam em pé até hoje, e se espalhou pelo mundo, conquistando fiéis que tornaram o cristianismo o que ele significa hoje. A intensidade emocional daquele momento e sua trajetória até chegar à conclusão que chegou foi ilustrado em inúmeras obras cinematográficas que visam moral religiosa ou somente relatar o fato, independente da opinião ou religião. Difícil é perceber o real objetivo do filme de Mel Gibson a respeito desse fato histórico, pois se quis fazer um filme de lição de moral, não conseguiu fazer nenhum tipo de reflexão, se quis somente relatar o fato, o fez de forma crua e dotada de nenhum sentimento.

 
Um fato de gigantesca importância abordado de uma forma até ofensiva por Gibson, com a premissa simplória de retratar as ultimas horas de Cristo antes de ser crucificado e revelando toda a violência sofrida por ele. Mas o diretor não tenta dar nenhum carisma ou personalidade para os personagens em tela (afinal, já conhecemos todos, ele deve ter pensado), não há qualquer tipo de aprofundamento na história, os personagens estão lá e pronto, e o resto será contado de forma mais óbvia e violenta que podia ter sido tratada. Quando há lembranças de Jesus ajudando Maria Madalena enquanto era apedrejada em praça pública, é um dos momentos em que parece que finalmente o filme engrenará e mostrará seu conteúdo, mas logo a cena é cortada e o resto ínfimo de conteúdo é esquecido. Um vazio incômodo enquanto assistimos horrorizados todas aquelas agressões físicas e psicológicas, sem nada pra realmente contar e nenhuma novidade em sua projeção.

 
O que deu a fama passageira ao filme e sua polêmica considerável na época foi mesmo a violência excessiva e gráfica, um verdadeiro banho de sangue cinematográfico usando de um fato histórico importante e sério pra promover toda aquela babaquice brutal. Mostrando cenas em que o sangue literalmente espirra e mancha a tela, espinhos entrando e machucando as costas de protagonista, chicotes rasgando sua pele, imagens tão absurdamente cruas abordadas de forma tão pobre e superficial, numa obra que realmente tinha potencial para ser uma profunda reflexão sobre o homem que deu sua vida para salvar a humanidade e mostrou os verdadeiros significados de amor e compaixão, que acabou um amontoado de material pretensioso, que até pode beirar ao ridículo.

 
Alguma dignidade à película pode ser considerada no fato de ser feita com um aspecto técnico belíssimo, principalmente com a maquiagem dos atores de convence por seu capricho técnico, visível nas cenas de tortura a Jesus. As cenas são bem fotografadas, com uma imagem seca e gráfica, captando os detalhes friamente com seu estilo áspero, os cenários são muito bem feitos e constroem a ambientação da época com realismo. A trilha sonora é responsável por grande parte dos pontos positivos do filme, dando algum sentimento a todas aquelas imagens apelativas, misturando o clássico das faixas com o clima histórico da época. Se não fossem por esses detalhes, iria ser uma das piores falhas da década sem a menor dúvida.

 
Não tem muito pra falar das atuações, os personagens são vazios de sentimento e pronunciam pouquíssimas palavras durante toda a projeção do filme, o único contato que estabelecem entre si e temos com eles são os olhares preocupados e tristes, que em algumas passagens viram mais caretas do que expressões verdadeiras. O destaque fica por conta do trio principal, onde Monica Bellucci está linda como Madalena e Maia Morgenstern bem apagada pelo brilho de sua colega, que possuem desempenhos que se resumem a lagrimas e mãos no rosto pra esconder o espanto, James Caviezel fica fazendo inúmeras caretas de dor e olhares que refletem uma esperança mórbida na expressão de Jesus Cristo, conseguindo um carisma, mesmo que ínfimo, por transportar todas aquelas reações e não chegar a ter um desempenho muito exagerado.

Uma obra depressiva, não porque nos emociona pela história sofrida de Cristo e todas as atrocidades cometidas a ele, nos fazendo sentir profundamente todo aquele horror e tristeza, captada de uma forma inteligente e uma ótica inovadora, mas por gastar todo o potencial que tinha numa realização vazia, superficial e com violência exagerada, que choca pela crueza, mas nunca toca o coração. Um filme que tem como protagonista um dos homens que mudaram toda a história justamente por seus atos de bondade e sua compaixão inestimável, acabou numa enrolação sádica e sem graça, ainda que visualmente bonito. Apesar de possuir algumas obras excelentes em seu currículo na direção, Mel Gibson escorregou e feio nessa adaptação que valoriza mais a violência do que o coração, exatamente o contrário do que prega o cristianismo.

Avaliação: 2/5

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