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Steven Spielberg quando resolve fazer filmes mais maduros, escolhe temas delicados e emocionalmente fortes pra desenvolver suas obras, com ambientes pesados e assuntos polêmicos que são explorados pelo diretor de uma forma sutil e muito sensível. Foi assim com “A lista de Schindler” (1993) onde foi mostrado o holocausto e todo seu horror, “Resgate do soldado Ryan” (1997) em que a Segunda Guerra encheu as telas do cinema, mais recentemente em “Munique” (2006) retratando o histórico ataque terrorista nas Olimpíadas. Mas pode-se considerar que o primeiro filme realmente sério de sua carreira foi em “A cor púrpura” (1985), onde provou que podia fazer películas mais adultas que as de arqueólogos aventureiros e extraterrestres pacíficos.

Abordando principalmente a situação das mulheres negras no começo do século XX, Spielberg realiza uma obra encantadora e ao mesmo tempo de apertar o coração, que apesar de possuir um tema tão pesado, consegue gerar uma leveza pairando no ar que a torna bela. Situada ao sul dos EUA, uma comunidade rural negra e pobre, a história se concentra numa mulher chamada Celie, que já na juventude teve dois filhos com o próprio pai e foi vendida para Albert, um rude e brutal homem, com quem passou a morar como uma escrava, até que conhece a amante dele, uma cantora chamada Shug Avery, com quem inicia uma boa amizade, que a fará reaprender a amar e a ser feliz novamente.

A personagem Celie é tão sofrida que é impossível não sentir empatia por ela. Desde pequena foi exposta a coisas tão horríveis e teve que agüentar tudo calada, foi mal tratada e até estuprada ainda jovem sem que nada fosse feito, o que fez com que ela não tivesse a oportunidade de amadurecer naturalmente, tendo um espírito bastante infantilóide, o que explica as risadinhas e sua timidez ingênua, uma mulher completamente reprimida pela época. A vida foi cruel pra ela, mas quem colaborou com essa impunidade foi a própria sociedade que fechava os olhos para o racismo e pra coisas que não deveria. No momento em que conhece Shug Avery, ela vê na cantora tudo àquilo que queria ser: uma mulher independente, sedutora, livre e amada. Celie a trata muito bem, cuida dela quando adoece e a respeita muito, o que facilita os fortes laços de amizade que as duas criam. Quando Shug a estimula a dar um sorriso verdadeiro e a beija, numa grande demonstração de amor, é como se a protagonista finalmente começasse a virar uma verdadeira mulher, que mais tarde se rebelaria contra a opressão que sofre pra tentar ser aquilo que deseja.

O tamanho colossal do preconceito contra as mulheres, que eram taxadas como dona de casas e inferiores da maioria da população, e contra pessoas de cor, tratadas como se fossem de outra espécie, ganha uma proporção e uma realidade que só um gênio do calibre sentimental de Spielberg poderia gerar. Havia luta e indignação, mas muitas vezes eram calados e omitidos pela grande ignorância onipresente, o que fica evidente na situação da personagem Sofia, a imagem da mulher forte e destemida, que desafia os preconceitos das pessoas da época e não aceita que seja maltratada, mas que acaba sendo engolida pela ignorância da sociedade.

O desfecho da obra demonstra que por mais sofrimento as personagens tenham passado, é uma grande história de superação, pois se rebelam da escravidão e maus tratos que são submetidas, mas principalmente de amor, já que no filme inteiro Celie espera a carta de sua irmã que só chegou ao fim da trama, demonstrando que o amor nunca morre com a distância nem o tempo, e a protagonista finalmente achar o caminho de sua felicidade com o amor que lhe é dada, por Shug e mais tarde pelas outras pessoas que sofreram ou presenciaram situações parecidas. Além disso, demonstra a ascensão feminina negra contra a opressão racista da época, numa cena linda e inspirada que encerra o longa.

Apesar de Whoopi Goldberg, na época desconhecida pelo público, ter uma ótima performance como Celie, captando a ingenuidade da personagem, quem mostra o verdadeiro talento são as coadjuvantes. Margaret Avery está fabulosa como Shug, carismática e literalmente brilhando na cena que canta no bar, Oprah Winfrey mostra que além de boa apresentadora, também é uma ótima atriz, captando uma grande intensidade emocional em seu desempenho. Não foi por acaso que as três atrizes concorreram aos respectivos Oscars de atuação naquele ano. O desabafo das personagens da cena do jantar é um dos ápices emocionais do longa, onde todas conseguem atuações admiráveis.

 Com o passar do tempo na história, vemos a qualidade da maquiagem na tela. Conforme as personagens vão amadurecendo e ficando mais velhas, são exibidos traços visíveis dessa passagem nos cabelos brancos, que antes eram castanhos, nas olheiras em volta dos olhos e em partes do rosto, até há uma diferença sutil na pele dos atores em cena. Essa travessia temporal também pode ser acompanhada nos figurinos dos atores, que usam roupas respectivas para cada idade em que vão passando, com modelos simples se estão pobres e modelos belos quando estão melhor financeiramente, tudo para deixar a película mais real e intensa.

Desta vez, não houve parceria de John Williams com Spielberg na composição da trilha sonora, pois o responsável por ela foi o músico Quincy Jones, que fez um trabalho caprichado e belíssimo numa composição de diversas faixas que misturam blues, um estilo musical onde nas letras, muitas vezes, são incluídas sutis sugestões ou protestos contra a escravidão ou formas de escapar dela, e uma parte de musica gospel. A melhor das músicas é a “Miss Celie’s Blues (Sister)” cantada por Shug em homenagem à Celie por tudo que havia feito por ela, mas também merece destaque a cena onde Shug também canta, mas desta vez uma musica gospel, enquanto todos os moradores da comunidade vão a acompanhando até a igreja, seqüências lindas de se ver.

Uma pequena obra-prima vinda de um dos maiores diretores de todos os tempos, que aqui já dava pistas de seu enorme potencial, demonstrando uma época difícil de luta e opressão das mulheres negras num tempo onde as pessoas eram dominadas pelo preconceito e a ignorância, uma grande história de amor e superação contada com tanta delicadeza e encanto que é impossível não se emocionar e aderir a essa obra tocante, principalmente quando Celie abre seu sorriso tímido e saberemos que assistimos uma obra linda e verdadeira, pintada com cores fortes e belas por um dos pintores mais talentosos do mundo.

Avaliação: 4/5 

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