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Sou apaixonado por musicais. Além de ser meu terceiro gênero cinematográfico favorito, acho eles uma verdadeira viajem deliciosa fora da realidade, onde pessoas repentinamente começam a cantar músicas magníficas, dançar coreografias muito bem treinadas, se transportar pra qualquer lugar a qualquer hora e fazer toda essa maluquice parecer verossímil. Até dos musicais mais fracos e menos prestigiados pela crítica acabo gostando, pois todos têm seu encanto, mesmo que muito pequeno. Imagine então o tamanho da minha satisfação em ver o melhor musical de todos os tempos, aquele que sempre eu esperei pra ver e idolatrar com todas minhas forças.

“Moulin Rouge” foi esse filme. Uma obra completa que se revelou um espetáculo em todos os sentidos possíveis, atemporal em cada frase maravilhosa que é dita e poético a cada olhar indecifrável que nos observa, magistralmente dirigida e atuada, uma verdadeira obra-prima de arte contemporânea, que alcança um sentimentalismo quase inalcançável para os parâmetros criados até hoje, são poucos os adjetivos que não se encaixam a esse fenômeno cinematográfico, uma enorme homenagem a todos os musicais da história, numa mistura magnífica de paixão, energia e sofrimento poucas vezes vista no cinema. A história pode até ser repetitiva, mas é encantadora principalmente pela simplicidade e magnífica em transformar uma trama tão batida em algo espetacular. Tudo tem início quando Christian, um escritor pobre e boêmio chega a Paris, procurando um emprego de escritor já que a cidade está enfrentando uma verdadeira revolução da arte. Mas quando Toulouse-Lautrec, um anão histérico, cruza seu caminho com seus amigos, acabam o chamado para escrever a peça “Espetacular Espetacular”, que procuram incrementá-la em alguma peça do Moulin Rouge, um cabaré cheio de sexo, drogas e animação. Quando o escritor finalmente conhece Satine, fica apaixonado pela cortesã, mesmo ela sendo a jóia mais rara do local. Mas o destino, como sempre, armou muitas confusões e desentendimento para os dois se encontrarem e se unirem, numa das histórias mais lindas que o cinema já foi capaz de proporcionar.

A direção orgásmica de Baz Luhrmann, que joga na tela um furacão de idéias e emoções, se encaixou com maestria na atmosfera do filme como poucos diretores conseguem. Seu mundo exagerado, com fadas verdes, danças na lua e diálogos acalorados, os cenários e figurinos detalhistas e de cores gritantes, dando vida a toda aquela bizarrice mostrada. Todas as suas características peculiares estão presentes, proporcionando momentos que são capazes de misturar comédia, mistério e romance, elevando a película para a maior obra-prima da carreira do diretor, o ápice de sua loucura apaixonante.

Os aspectos estilísticos também merecem muito destaque. Parece que quando adentramos no ambiente do filme, entramos em outro mundo. Uma abundância visível de fortes cores vermelhas, azuis e pretas, muitas vezes valorizando as sombras em diversas cenas, dando um aspecto misterioso e por vezes sombrio, os cenários detalhadamente desenhados, bastante criativos e chamativos, que variam entre ambientes paradisíacos e promíscuos. Cada figurino é criado com um capricho incrível, uma roupa mais maravilhosa que a outra, visivelmente na cena final, quando há todo o número indiano da peça, todos estão glamorosos e espetaculares, principalmente Satine que usa uma coroa de diamantes. Um deslumbre visual que completa mais a grandiosidade divina da película.

Com relação ao elenco, todos os atores têm desempenhos quase indescritíveis, mas o “triângulo” amoroso principal é logicamente o maior destaque. Nicole Kidman faz uma Satine encantadora, uma prostituta divertidíssima antes de realmente a conhecermos e um verdadeiro ser humano quando é revelada sua alma vazia procurando por um amor que parecia perdido, Richard Roxburgh como o Duke é uma criatura insuportável, que ganha carisma pela sua babaquice, Ewan McGregor está conquistador, a imagem viva do cavaleiro romântico à moda antiga que toda mulher sonha em possuir, que apesar de ser um pobre boêmio, vê a beleza de sua existência na poesia, na liberdade, no amor que move sua alma.

Mas sem as músicas, o filme não seria o mesmo. Prestando homenagem a diversos musicais clássicos, que vão desde a faixa “The Hills Are Alive” do antológico “A Noviça Rebelde” (1965), onde o protagonista sobe no alto de uma escada e canta inspirado a tal música, com uma pintura de colinas verdes e céu azul atrás, uma clara alusão a famosa cena de Andrews nas montanhas. Em outra cena, Satine canta energeticamente “Diamonds are a girls best friends!”, musica imortalizada pela deusa Marilyn Monroe em “Os homens preferem as loiras” (1953). Depois, há várias novas versões de artistas pop famosos, como as músicas de Elton John e Madonna, que rendem cenas respectivamente encantadoras e cômicas, ou na faixa “Lady Marmalade” em que vários nomes atuais cantam, inclusive Christina Aguilera e seu poderoso vocal. São detalhes e referências assim que tornam o filme um deslumbre inédito, um show insuperável.

Um detalhe magnífico na trama é capaz de mostrar toda sua alma, exibindo o fato de que a paixão de Satine por um escritor pobre como Christian não tem qualquer motivo aparente, visto a sua beleza e forte influência que possui naquele cabaré, revelando que amor não precisa ter sentido, não necessita de um significado pra ocorrer, simplesmente amamos e pronto. Somos seres humanos, que vadiamos pelas ruas, fazemos poesias bobas de amor, agimos que nem tolos, só por que queremos amar, achar a nossa alma gêmea, para tudo fazer mais sentido, mesmo que o amor não faça nenhum. O final da obra, por mais trágico que possa parecer, é como uma rosa que se abre em nossos corações, com uma mensagem bela e inesquecível: o amor nunca morre, apesar de todos os obstáculos e sofrimentos inevitáveis que possa causar, sempre estará pulsando em nossas veias intensamente.

“Moulin Rouge” é um daqueles poucos filmes que ultrapassaram a barreira cinematográfica e se tornam parte da alma, tocam o coração e se estabelecem nele para sempre. Uma obra que pulsa cinema a todo o momento, que provoca arrepios e lágrimas a cada verso cantado, é tanta emoção que quase não consigo colocar em simples palavras, é um sonho transformado em realidade na linguagem fílmica de forma indescritível. Uma jóia preciosa que mistura o clássico com o moderno, o cômico e o trágico, a complexidade e a simplicidade, o ódio e o amor, numa releitura de todos os musicais da história que acabou se tornando o melhor deles. Uma experiência completa e emocionante que faz chorar, sorrir, amar, que cada vez que vejo, me apaixono cada vez mais. A maior Odisséia de amor e paixão que já existiu nas telas de cinema. Perfeito.

“A coisa mais importante que você pode aprender é amar e ser amado em troca” – Christian

Avaliação: 5/5

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