Tags

, , , , , , , ,

A violência é uma das coisas mais divertidas de se assistir!” disse Quentin Tarantino. Pelas suas obras, a frase faz todo sentido. Ultraviolência é a maior especialidade do astro, é sua fonte de inspiração, é a razão de fazer filmes tão excelentes, é o pretexto de sua paixão pra encher a tela de palavrões, sanguinolência, humor negro, drogas, sexo, homenagens, mutilações, e muitas das outras características que fizeram dele um diretor lendário. O que fica evidente nos longas anteriores de sua carreira, com “Cães de Aluguel” (1992) e “Pulp Fiction” (1994), filmes cultuados por crítica e público que aderiram ao modo tarantinesco de se fazer cinema.

Com “Kill Bill”, Tarantino realiza sua obra-prima máxima. Todas as marcas tarantinescas estão todas lá, com muitos litros de sangue esguichados literalmente, o humor negro hilário nas horas mais inusitadas (“É o que merece por se meter com os yakuzas! Vá pra casa e pra sua mãe!”), os diálogos afiados e inteligentes, a ultraviolência espantosa, a quebra de uma ordem cronológica na narração da história, referências a cultura pop (apesar de um pouco mais contida), revelando uma direção com muita personalidade e gerando um filme surpreendentemente estiloso.

 Se em “Cães de aluguel” temos uma carnificina envolvendo somente personagens masculinos em destaque, em “Kill Bill” temos um massacre sangrento envolvendo somente personagens femininos. O diretor dá lugar às mulheres poderosas, esbanjando toda a perversidade e sensualidade que possuem, raramente usando armas de fogo, o que fez as lutas com armas brancas ficarem ainda mais eletrizantes, uma abundância inaudita de femmes fatales. É admirável que o diretor consiga trabalhar tão bem com personagens de ambos os sexos, destacando suas características, o que fica visível com o lado materno de Thurman na seqüência.

O que Tarantino faz com o personagem “A Noiva” é coisa de gênio. Ele faz com que o filme inteiro estejamos torcendo pela protagonista concluir sua vingança de forma mais violenta possível, desejando fazer a mesma coisa que ela fez com suas vítimas, por mais que anteriormente ela fosse uma assassina cruel. Sentimos uma satisfação animalesca quando corta braços e cabeças, dando uma sensação de justiça sendo feita com as próprias mãos. É como se até Deus estivesse ao seu lado, ela pode ser cortada, chutada, arranhada, enforcada, até receber um tiro na cabeça, mas continua viva e forte pra completar sua tarefa sádica.

 A perfeição técnica do filme é quase inigualável, a responsável por grande parte de seu sucesso. Uma montagem estilosa, com uma fotografia magnífica, com cenas preto-e-branco, ou iluminadas somente por uma luz de fundo azul, ou que dão um close nos olhos furiosos de Thurman e deixam a tela dourada, são detalhes técnicos que fazem toda a diferença. Até os cenários demonstram um cuidadoso detalhismo, dando preferência as cores amarelo e vermelho. O som também é muito bom, captando todos os barulhos nas cenas de briga e em algumas partes incrementando algo inesperado, como o som de strike de boliche quando a personagem Gogo cai em cima de uma mesa e os barulinhos de vídeo-game em partes das lutas.

A cultura oriental tem uma forte presença na obra. Sua admiração quase obsessiva por essa civilização peculiar propicia uma grandiosidade fascinante à trama, que é recheada de espadas e adagas afiadíssimas, língua japonesa, principalmente nas musicas alucinadas, personagens característicos dos melhores filmes de luta asiáticos, como por exemplo O-Ren Ishii que mais parece um chefão de vídeo-game de tanta dificuldade em alcançá-la (e odeia que falem de sua descendência americana, uma indireta para os sobrinhos do Tio Sam) cenas de luta com Kung-Fu e particularidades samurais, homenagens aos animes, grande parte do filme se passa também no território asiático.

Há muitas homenagens aos filmes da infância do diretor, colocando logo no início do filme o logo Shaw Scope usado nesses filmes antigos, abusando de cenas de luta com artes marciais indescritivelmente brilhantes, o que inclui vôos literais de alguns personagens, cenas de kung fu dignas dos filmes antigos, e inúmeras referências à obras fílmicas japonesas nem tão conhecidas e mangás/animes cults que modelaram o estilo do filme e encharcaram a obra de referências menos conhecidas pela maioria do público.

O filme também é responsável por uma das melhores trilhas sonoras do cinema, aproveitando músicas e temas de outras obras pra constituir suas excelentes faixas, abusando de assobios (vide cena da Elle Driver no hospital), gaitas, fundidos com sons eletrônicos, produzindo canções empolgantes e modernas, mas com um fundo “retro”, já que foram utilizadas músicas principalmente dos anos cinqüenta até os setenta, que foi a época que o diretor se inspirou para fazer o filme, e o resultado é uma trilha divertida e com um ritmo musical alucinógeno, que fica gravada na memória junto ao resto do filme.

 É também um quadro perfeito do antiético contemporâneo. Assuntos polêmicos são trazidos á superfície, como estupro, pedofilia, xingamentos, tortura, mutilação, uso de diversos tipos de armas (brancas/de fogo), assassinato e muito, mas muito derramamento de sangue. Apesar de tratar de temas tão pesados, são todos mostrados de uma forma sarcástica e divertida, afinal não são feitos pra ofender e desagradar o espectador com crueza e impetuosidade, mas sim feitos pra entreter com o abuso de imoralidade e com a fúria vingativa e animalesca presente na obra que energizam seu discurso devastador do que é considerado certo e ético.

Por parte dos atores, cada um encarnou no personagem de forma surpreendente, tendo até que ter aulas diárias de artes marciais e lutas com espadas para que tudo saísse nos conformes. Uma Thurman está impecável como “A Noiva”, mostrando todo o ódio e obsessão por vingança magistralmente, Lucy Liu como O-Ren Ishii faz um dos melhores desempenhos de sua carreira, destaque também para Chiaki Kuriyama que transforma Gogo Yubari numa das melhores personagens do filme, e Daryl Hannah, que apesar de ter um destaque muito maior no volume dois, nesse primeiro já mostra que Elle Driver é uma vilã à altura da protagonista.

Algumas cenas já entraram pra história do cinema moderno. Elle Driver, vestida de enfermeira, caminhando com a injeção fatal que pretendia usar para matar a protagonista, enquanto assovia a musica tema do filme é com certeza uma das melhores do longa, a história de O Ren contada em forma de anime é chocante e triste, com uma carga emocional muito forte, a luta com Gogo é eletrizante e muito bem feita, o ritual de iniciação com a espada demonstra todo o amor do diretor por esses objetos afiados e sagrados, o confronto da “Noiva” com os 88 loucos é um delírio visual e de um apuro técnico admirável assim como o resto do filme.

 Um espetáculo sádico e impetuoso, uma obra-prima sobre vingança e justiça que pulsa adrenalina a todo momento, um filme que hipnotiza o espectador e o faz esquecer de todo seu censo moral e embarcar junto nessa excursão sanguinariamente prazerosa, o êxtase soberbo da violência num dos maiores clássicos da última década. Tarantino consegue fazer outra obra-prima em sua carreira, comprovando mais uma vez que é um dos melhores diretores da atualidade e que ainda pode fazer muito sangue jorrar nas telas de cinema.

Avaliação: 5/5

Anúncios