Tags

, , , , , , , ,

A guerra é um dos maiores horrores da humanidade contra ela mesma. É o cúmulo do ódio da raça humana aos seres de sua mesma espécie, que podem sentir, pensar e amar como qualquer outro de seu gênero. Seja por questões políticas ou ideológicas, a guerra destrói famílias, sonhos e nações. Os que potencialmente mais sofrem com a execução delas são os bravos soldados que sacrificam sua própria existência pelo país, pois se escapam de lá com vida, arcam com conseqüências físicas e psicológicas graves e muitas vezes irreversíveis, causando insanidade e distúrbios terríveis em suas consciências, os transformando em algo que lutam para não ser. É o apocalipse da raça humana, onde ela própria se destina a determinar seu fim, algo aparentemente sem solução e muito menos salvação.

É disso que se trata uma das maiores obras-primas da carreira de Francis Ford Coppola, que tem ainda tem em seu currículo a clássica trilogia “Poderoso chefão” e o inteligente “A conversação” (1974), realizando uma obra magnífica e complexa sobre o significado da guerra e todas suas conseqüências para a humanidade, num trabalho técnico louvável. Lançado originalmente em 1979, a película confirmou Coppola como não só um diretor monstruoso da década de setenta, mas um dos melhores de todos os diretores daquela época, gerando filmes corajosos e ousados, que angariaram seu espaço na história do cinema.

 A trama que dá origem à filosofia da qual o filme inteiro se desenvolve começa quando, durante a Guerra do Vietnã, o capitão Willard é convocado pelo exército a voltar à selva e matar o coronel Kurtz, que suspeitam que tenha enlouquecido e esteja montando seu próprio exército. Adentro de toda a violência e insanidade da guerra novamente, afetado pelos horrores da luta no sudoeste asiático, Willard se vê no meio de um inferno na terra quando seus amigos são mortos um por um, enquanto chega mais perto do homem que deve matar.

É nesse ambiente de guerra e sofrimento que a obra revela seu conteúdo: a linha tênue entre o homem e o animal. Logo no começo, somos apresentados ao Capitão Willard, um homem solitário e completamente perturbado pelas atrocidades que presenciou nos combates que fora convocado, é convocado novamente para uma nova batalha, o que ele alto denomina “azar”, pois sabe que é algo ruim, mas está viciado naquilo, como uma droga alucinógena. No decorrer da trama, Os soldados ficam a todo o momento lutando contra aquela insanidade se instale em suas próprias consciências, o que as vezes fica transparente em suas atitudes, como a de que matam os asiático por simples prazer, não por que tenham sido mandados para fazer aquilo. Tentando sempre buscar seu lado humano, seja vendo pornografia, conversando com os amigos ou cuidando de um filhote de cachorro, os personagens ficam o tempo inteiro intercalando entre o racional e o irracional.

Apesar do coronel aparecer só no final da película, era no desfecho que sua presença tem um grande significado, o que justifica sua ausência na maior parte da obra. Kurtz é a perfeita imagem do tema do filme, um ser humano perturbado, doente de tanto sofrimento que teve de presenciar, que acabou sucumbindo à violência doentia e o raciocínio animalesco que a guerra é capaz de proporcionar, um homem que chegou ao ápice da loucura, com corpos putrefatos e cabeças decepadas nos degraus do templo em que foi construído por habitantes daquela região em Camboja que ele se instalou. Ao mesmo tempo que é um monstro, também questiona de maneira inteligente as razões das lutas entre os homens e o lado irracional do ser humano perante sua sociedade, tratado como um rei pelos habitantes de lá. Quando Willard finalmente cumpre sua missão, é como se quisesse gritar para os moradores do local que todas as pessoas devem pensar por elas próprias, não ir junto ao senso comum e ignorante, que acaba por destruir e gerar sofrimento em vez de amenizá-los, gritar para não seguirem um líder e que sejam manipulados, pois eles próprios criaram um deus que não é real, visto que o protagonista consegue por fim matá-lo.

A veia anti-guerra do filme fica visível quando se reflete sobre a cena da vaca, sobre o que nos difere dos animais selvagens que usam de seu instinto violento pra sobrevivência, e se for a racionalidade, estamos usando corretamente? Estamos fazendo jus a um dom tão especial dado ao ser humano? Parece que não. É preciso reaprender a avaliar as atitudes e valores de populações e governos, pra finalmente ser possível ver que a guerra é um sacrifício desnecessário, um duelo insignificante que só reforça a idéia de que os humanos são simplesmente animais selvagens mais sofisticados que os outros, o cúmulo da destruição e do caos por atitudes inúteis tomadas por motivos injustificáveis. A cena inicial já mostra que estamos diante de uma espetacular trilha sonora, com a faixa “The End” tocando enquanto vemos todas aquelas explosões e fogo destruindo a natureza. Depois, a obra varia entre faixas de rock clássico e música clássica, como por exemplo, a popular “Satisfaction” dos Rolling Stones e as contagiantes “Suzie Q” do Flash Cadillac e “Surfin’ Safari” dos Beach Boys, em contraponto à antológica “Cavalgada das Valquírias” de Richard Wagner, músicas que engrandecem a obra numa proporção inimaginável.
 A fotografia é seca e dá impressão de algo áspero, com aquele clima selvagem das matas onde fica implícito que algo sempre está esperando entre as plantas, é mostrado também com freqüência os territórios do exército e campos de treinamento que os personagens vivem, aumentando ainda mais o realismo. Quando está numa cena de batalha, muitas vezes é usada a visão panorâmica de helicópteros pra visualizar todo aquele massacre e destruição; a cena das coelhinhas da playboy (uma das mais divertidas do longa) abusa de luzes de holofotes e reflexos, dando a impressão que estamos vendo uma miragem ou coisa parecida; em muitas cenas também há sempre poeira ou fumaça no ar, colaborando com o ambiente sujo e desconhecido, mas principalmente, perigoso.

 Martin Sheen teve nessa obra a performance de toda sua carreira, interpretando um homem perturbado lutando contra os adversários na guerra e contra si próprio, numa performance séria e muito madura. Marlon Brando possivelmente tem o maior destaque do longa, gerando um personagem complexo e genial que se tornou um ícone sobre o filme, consegue uma de suas melhores atuações. Apesar de tudo somente Robert Duvall foi o único do elenco que concorreu a algum Oscar de atuação pelo filme, o que não desqualifica o ótimo desempenho do resto do elenco.

Simplesmente a obra mais próxima que já vi que chegou perto do horror real da guerra e todas suas conseqüências, um espetacular depoimento em forma de imagem de toda a insanidade da guerra e do ser humano em sua forma crua, uma obra de arte que se tornou um dos filmes mais importantes de guerra da história, que foge dos clichês de seu gênero e se entrega a chocante realidade presente em todo aquele terror. Um filme ao pé da letra da frase “O horror, o horror”, que resume toda a experiência que somos submetidos nessa obra-prima vinda de um dos maiores nomes do cinema americano.

Avaliação: 5/5

Anúncios