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Os filmes de Almodóvar em sua maioria destacam imensuravelmente as mulheres e toda sua feminilidade que acaba as tornando personagens poderosas, lidando sempre com situações delicadas e difícies em que são necessários o tato e a cautela que só as pertencentes do sexo feminino são capazes de ter, o que fica claro no seu trabalho anterior “Tudo sobre minha mãe” (1999). São elas as grandes protagonistas destemidas, as fortes heroínas que enfrentam seus problemas de forma que só elas conseguem, mesmo que esses atos heróicos sejam manter a família unida e ainda cuidar de si mesma, do trabalho, da casa, ou seja, mulheres de múltiplas facetas e funções.

Raimunda é uma delas. Uma mulher atraente em sua beleza latina, trabalhadora em possuir diversos empregos e sustentar seu marido desempregado, mãe e dona de casa dedicada, viver com tantas responsabilidades e saber lidar com suas emoções e fragilidades que a assolam em seu dia-a-dia, principalmente da morte de sua mãe que ainda dói em seu enorme coração. Sua irmã mais velha Sole também sente a morte da mãe, mas supera em meio às dificuldades e a realidade que vive, sustentando um salão de beleza ilegal pra pagar suas contas, já que seu parceiro a abandonou. A vizinha delas Agustina também perdeu a mãe, mas continua sua vida pacatamente plantando maconha e cuidando de Paula, tia das duas irmãs órfãs. Todas as personagens vivem e arcam com suas responsabilidades mesmo com suas fraquezas e a morte sempre onipresente. Mas muitas coisas acontecem que viram o mundo das três mulheres de cabeça pra baixo. A filha de Raimunda, a adolescente Paula, acaba esfaqueando e matando o próprio pai por medo que ele a abusasse sexualmente. Raimunda, por experimentar uma situação parecida anteriormente, acaba encobrindo o crime e escondendo o corpo do marido. A vizinha Agustina se descobre vítima de câncer terminal. Ao mesmo tempo, Sole vai até um vilarejo cuidar do enterro de um parente e acaba encontrando Irene, sua mãe dada como morta num incêndio, o que acaba considerando precedentemente como um fantasma que voltou do passado.

 A partir dessas reviravoltas na vida da protagonista Raimunda e as mulheres que a rondam, o roteiro maravilhoso traz desenvolvimento de temas que sempre estão presentes nas vidas que qualquer ser humano. A conexão direta entre vida e morte, que por si só já estão interligadas, presentes cada vez mais em nosso cotidiano. Acertar as contas com o passado, que sempre voltam à superfície e abrem feridas esquecidas que estavam quase cicatrizando, por mais que seja um processo doloroso. Sentir novas emoções e reviver outros sentimentos apagados, aprendendo a perdoar os erros, a lidar com as situações delicadas, a reaprender a amar, prosseguir com o movimento da vida enquanto ela permite.

A presença masculina na obra é praticamente nula: o marido de Raimunda só aparece pra reforçar a complexidade da história, um homem aborrecido com sua vida, que não tem emprego, que contém dentro de si um desejo sexual ativo, seja por bem ou mal. O outro é o líder de um grupo de filmagem que a contrata pra servir almoço pra sua equipe, mas só serviu mesmo pra destacar a personalidade e simpatia da protagonista. Não há espaço pra masculinidade, é um filme feito de mulheres.O estilo sensacional da película lateja vida em toda sua duração. Cores chamativas e fortes (principalmente vermelho), graças à caprichosa plástica visual, o movimento sempre intenso e acalorado, que equilibra majestosamente momentos dramáticos e cômicos, a narrativa tão bem executada e agradável, personagens tão carismáticos e reais, sua trilha sonora caliente, seu ritmo vibrante, um conjunto de genialidades de Almodóvar que torna a película uma delicia de se acompanhar. A película inteira é cheia de cenas boas, como a da câmera filmando a protagonista lavando a faca ensangüentada, uma cena espantosa e sedutora, mas a melhor de todas com certeza é Raimunda cantando na festa do restaurante, com uma intensidade emocional tocante, por ainda sentir afetividade e saudades por sua mãe, enquanto a própria observa com lágrimas nos olhos, a encantadora letra na boa voz de Penélope fazem desta uma das melhores e mais belas feitas em todos os trabalhos de Almodóvar.

A película conta com belíssimas atuações por grande parte do elenco; Penélope Cruz está maravilhosa como Raimunda, desempenhando uma atuação que deu a ela a primeira indicação de uma espanhola ao Oscar de melhor atriz, Blanca Portillo consegue dar a sua personagem uma grande e eficiente carga dramática aumentada pela situação que a personagem encara ao enfrentar seu câncer, Carmen Maura está muito bem no papel da mãe das irmãs e transmite uma segurança reconfortante em sua representação, todo o elenco cumpre muito bem os papeis que os foram entregues, dando força e personalidade ás personagens.

O título do filme não podia ser mais perfeito: “Volver”, que significa “voltar”, voltar a viver e a amar enquanto estamos nossos corações batem em nosso peito, seja por uma nova paixão, por segredos e traumas revelados, por feridas que ainda pulsam, por dores e sentimentos que residem em nosso âmago. Pedro Almodóvar realiza mais uma obra-prima em seu ótimo currículo, com uma história sobre morte, vida e amor que sempre “volverá” em nossas vidas.

“Guardo escondida uma esperanza humilde que es toda la fortuna de mi corazón” – Raimunda

Avaliação: 5/5

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