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O gênero terror ao longo de sua história criou vários monstros, criaturas, assassinos de diversos tipos e maneiras, criando em cada época o que a platéia desses filmes mais temia ou o que passou a temer. Conseqüentemente, surgiram também diversos subgêneros que definem o tipo e estilo de cada filme do gênero, mas talvez o subgênero mais antigo de todos seja o de vampiros, que surgiu por volta da década de 20 com “Nosferatu”. Desde então, os vampiros vêm tomando as telas do cinema, seja pra matar, assustar ou seduzir suas vítimas, fazendo história com filmes como “Drácula” de 1931, com uma atuação brilhante de Bela Lugosi, o mesmo “Drácula” foi refilmado em 1958 com Christopher Lee no papel principal, em 67 com “Dança dos vampiros”, nos anos 80 invadiram as produções teen com “Garotos perdidos” e “A hora do espanto”, nos anos 90 viraram cavaleiros legítimos com “Entrevista com o vampiro” e “Drácula de Bram Stoker”, nos anos 00 voltaram de diversas formas, como vampiros selvagens em “30 dias de noite”, vampiros frescurentos em “Crepúsculo” e finalmente com vampiros pré-adolescentes com o ótimo “Deixa ela entrar”, filme sueco de 2008 que conquistou os críticos e milhares de fãs ao redor do mundo.

A história do filme começa no subúrbio de Estocolmo, em 1982, quando Oskar, um garoto introvertido e que sofre bullying pelos colegas de sua escola, conhece sua misteriosa vizinha Eli, uma garota pálida e peculiar, que primeiramente tenta manter distância, mas depois começa a formar laços de afetividade com o garoto, conduzindo-os a novas experiências e situações que os guiarão para novas descobertas em suas vidas. O roteiro é fabuloso em criar uma história sobre vampiros atual e original, mas ao mesmo tempo respeitando as regras e o estilo dos clássicos filmes que fizeram desses seres uma lenda no cinema. Aqui a jovem vampira sente a necessidade de consumir sangue, mas só o faz quando estritamente necessário, gatos e outros animais sentem antipatia desses seres, não podem se expor a luz do sol, tem que ser convidados a entrar na casa da próxima vítima, mas tudo sobre um ponto de vista mais contemporâneo. Fabuloso também em ser rico em metáforas e significados em sua narrativa e no relacionamento do jovem casal. Afinal, a história se resume em duas crianças, ou melhor, dois pré-adolescentes presos num mundo único e solitário de sua infância, onde os adultos nunca estão em concordância ou compreendem os sentimentos puros dessa época singular da vida, tendo somente um ao outro pra confiar seus pensamentos e atitudes.

São diversas metáforas sobre a inocência da infância dando lugar ao sentimentos maduros presentes no filme, as figuras de crianças amadurecendo descobrindo um mundo novo, degustando de novas experiências que vem eminentemente com a idade e com as situações que vão os apresentando a novos horizontes e novos universos a ponto de serem explorados. Suas dúvidas, suas incertezas sobre a vida, sua solidão em meio a um mundo remoto são supridas com a presença de cada um na vida do outro. O relacionamento entre os dois pré-adolescentes demonstra o quanto o amor pode ultrapassar barreiras, quaisquer que sejam elas, étnicas, culturais, raciais, ou no caso, espécies heterogêneas, sempre andando paralelamente a veia doentia do filme, fato que fica claro no romântico e banhado de sangue beijo dos indivíduos. Quando Oskar está separado dela por uma parede, ele pode senti-la presente em seu interior. O contato físico que os dois possuem no desenrolar do filme revela a descoberta gradual da atração e sexualidade deles, enrijecendo ainda mais o laço afetivo entre eles.

 Apesar de se tratar de um filme de terror, a narrativa se mostra muito delicada e sensível, mesmo com toda a frieza presente, dando as cenas e aos personagens um toque especial e uma profundidade quase nunca vistos em filmes do gênero ao qual pertence. O estilo de dirigir de Tomas Alfredson é calmo e seguro, demonstrando que tem controle sobre seu projeto, conduzindo o filme paulatinamente, mas nem por isso chato ou desinteressante, sempre mostrando algo que merece uma devida atenção ou reflexão.

Além disso, o longa tem algumas cenas das melhores do cinema do horror atualmente; a da Virginia no hospital, as escolhas trágicas de Hakan para proteger a jovem Eli de ser descoberta, e a melhor do filme, destinada a ser sempre lembrada, a maravilhosa cena da piscina, feita com um apuro técnico brilhante e ao mesmo tempo assustadora, já estabelecida como clássica. Mas não é só a cena da piscina que tem um apuro técnico brilhante, mas o filme inteiro é feito com planos e quadros muito belos, uma fotografia correta e formosa, com uma frieza que combina totalmente com a atmosfera da película, um trabalho técnico que quase atinge a perfeição. Os atores também saem satisfatoriamente em seus papéis, mas o destaque fica por conta da surpreendente atuação da dupla mirim Lina Leandersson (Eli) e Kåre Hedebrant (Oskar), que tornam seus respectivos personagens criaturas críveis e carismáticas, talento refletido principalmente no fato da dupla em conduzir o filme inteiro.

Um sopro de originalidade a um subgênero desgastado, uma metáfora fascinante sobre a infância e as descobertas no amor, um ótimo filme de horror com pitadas de romance e drama que fazem toda a diferença, uma das melhores películas sobre o mundo vampiresco que nunca morre nas telas de cinema, um filme frio, mas cheio de sentimento, uma obra-prima lendária assim como os seres que retrata.

Avaliação: 5/5

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