A Estrada (Cormac McCarthy, 2007)

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“Caminhando no mundo dos mortos como ratos numa esteira”

            Histórias pós-apocalípticas sempre habitaram o universo das narrativas literárias e audiovisuais, ganhando destaque no século XX e todas suas guerras, conflitos diplomáticos e epidemias em massa. O temor do fim da humanidade, seja no sentido de existência do ser humano ou daquilo que o torna um, ganhou os mais diversificados tipos de forma, seja zumbis com conotações sócio-políticas, vampiros-zumbi, comunidades espaciais abandonando planetas inabitáveis, blockbusters explosivos, pregações religiosas extremistas. Fugindo de todo escapismo e ficções que ultrapassam a barreira do real, encontramos na literatura contemporânea uma história simples e verossímil sobre um pai e sua criança tentando sobreviver ao mundo cinzento e morto que costumávamos chamar de casa.

Ganhador do Prêmio Pulitzer de  Literatura em 2008, A Estrada” trouxe aos leitores de Cormac McCarthy a revelação de um lado mais intimista e sentimental do autor, mas igualmente trágico e se permitindo brutalidades. A simplicidade da história e a falta de virgulas tornam a escrita de McCarthy na grande mina de ouro da obra, deixando na secura, no silêncio e nas descrições abstratas a voz de duas vidas que apenas existem pela necessidade de sobreviver. Portando uma arma e duas balas, pai e filho contam um com o outro para seguir em frente em meio a um mundo pós-apocalíptico. Talvez não queiram encarar a realidade. As consequências baterão à porta.

O choque de realidade é constante. O marasmo de um planeta cinza e sem vida, de deteriorado senso de humanidade e organização tornam as páginas de calmaria do livro em desespero, angústia contida, tornando os dois seres em presas se alimentando enquanto os predadores saem por aí com suas facas e bastões de ferro. Como se a qualquer momento a jornada dos protagonistas pudesse ser interrompida pela violência esporádica, fazendo-nos questionar sobre todo o rumo até ali, se ainda vive aquela adoecida esperança.

Colhendo as migalhas de um mundo destruído, os dois preservam o laço familiar apesar de todos os abalos, e tentam manter a humanidade apesar de todo o horror. O pai não sabe mais se é melhor fechar os olhos ou deixá-los abertos. Pode apenas lamentar pela visão do inferno a qual seu filho é exposto, e aos atos horríveis e necessários cometidos durante a jornada. Jornada essa sem perspectivas, sem nome do Pai. Deus abandonou seus filhos às cinzas sem renascimento.

A sensação constante de ir pouco a pouco desaparecendo junto ao mundo. É a convivência com a morte, nossa velha conhecida. Nunca falada, sempre temida. A luta pela própria sobrevivência, a proteção da família e da integridade em meio a temores modernos de isolamento e sociedades selvagens, o outro não mais como semelhante, mas alarmante perigo. Os olhos ingênuos de uma criança tentam compreender e abraçar os mortais, os famintos e os animais, em contraponto aos espinhos do real, da malícia da vida adulta e do entendimento de mundo como uma cadeia alimentar banhada à sangue do próximo.

Relógios à 1h17min. Sonhos de dias coloridos. Lembranças que só corroem. O passado, os clarões de luz e a despedida da falecida esposa e mãe pouco importam, já que a realidade do agora não dá trégua. De dor já basta a visão do presente. Dias de estadia em casas de fantasmas e florestas sombrias, noites na mais completa escuridão e umidade de chuva, barulhos de riachos e pequenos grupos de extermínio pra quebrar o silêncio dominador, o vento e seu lamento. O carrinho de suprimentos sendo empurrado pela estrada era o único som que os lembravam de ainda estarem vivos, além de suas vozes.

Conversas breves, de uma criança curiosa e mais profunda do que se supunha, e um pai apenas tentando protege-la. Um a vida do outro. “Está tudo bem”. Diálogos curtos e objetivos, o mundo cinza não deixou muitas palavras para serem ditas. Conversas tão secas, mas que não deixam dúvidas da necessidade mútua do filho e pai. Continuam repetindo um para o outro que está tudo bem, está tudo bem, como se tentassem se convencer disso. Do pouco que restou, contentar-se com misérias está tudo bem.

Uma vida cercada de abismos, estranhos e assassinos cruzando caminho, porões de extermínio, corpos humanos putrefando e outros cozinhando. A subsistência com dias contados e a humanidade virando poeira. Porque a tragédia sempre vem acompanhada, e a ela estamos condenados.

De temáticas contemporâneas ao mesmo tempo em que referencia o Holocausto, as ditaduras e a situação dos refugiados em tempos de direitos humanos corrompidos, “A Estrada” invoca valores universais e sentimentos familiares para testar-lhes os limites, expondo a barreira entre aquilo que nos torna humanos e simples selvagens através de figuras familiares. Todas as cinzas e o sofrimento anunciam o que já sabemos de início, sem happy endings e sem ir em contramão à delicadeza por vezes cruel de McCarthy. O autor termina por fazer uma das grandes obras sobre o pós-apocalíptico, colocando em jogo a sobrevivência da família e da integridade, girando ao redor de expectativas, verossimilhanças e ritmo cadenciado que se encaixa perfeitamente à espera eterna do livro por algo desconhecido, mas almejado. “A Estrada” é um daqueles livros que nos coloca de frente às misérias da vida terrena, em busca de algo que nos aproxime de seu sentido, ou da falta dele. Por fim, assim como o pai e filho, somos entregues ao destino e aos mistérios do mundo.

Por Bruno Kühl. 

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Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson (I Am Legend, 1954)

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            Acredito que muitos leitores de narrativas de horror e fantasia tenham começado sua jornada literária através das obras de Stephen King, o grande nome hoje de uma geração de radicais escritores do gênero. Mas não são muitos aqueles que se aventuram nos autores da geração anterior, cujas obras abriram caminho para a liberdade artística do gênero fantástico e influenciaram seus sucessores. Talvez a grande inspiração do trabalho de King seja um dos mais aclamados escritores de ficção-científica de horror e suspense do século XX, um norte-americano naturalizado norueguês chamado Richard Matheson.

Autor de diversos contos e livros que habitam a cultura literária e fílmica, tendo várias obras adaptadas ao mundo cinematográfico e com sua própria autoria nos roteiros, Matheson é o nome por trás de várias obras cults, como “O Incrível Homem que Encolheu” (1956) e “Amor Além da Vida” (1978). Um de seus primeiros romances e o indiscutivelmente mais popular foi “Eu Sou a Lenda”, escrito em 1954 e carregando três adaptações literárias nas costas, a última com Will Smith em 2007 num filme morto, destruído pelo CGI e que deturpa muito a história original. Como a maioria dos grandes livros do gênero, “Eu Sou a Lenda” parte de uma história repleta de sofrimento e desumanização para tocar nas feridas e temores não só de sua época, mas do homem como ser social e, até certo ponto, racional.

Durante boa parte do livro, acompanhamos o cotidiano de tédio e solidão de Robert Neville, o sobrevivente de uma grande bactéria que assolou o mundo e transformou seus habitantes numa espécie de zumbi-vampiro. O dia-a-dia de Robert em Cimarron Street seria de constante horror e desespero caso ele não tivesse feito de sua casa um abrigo anti-vampiros, vivendo num tédio e acomodação sem fim mesmo com o inferno lá fora ao cair da noite. O tédio foi a consequência: O instinto de sobrevivência fala mais alto do que o de sair pelas ruas exterminando vampiros e provavelmente acabar como um cadáver drenado num beco qualquer. Segundo o próprio Matheson, “um homem habitua-se a tudo, se a isso for forçado”. Robert é o homem entendiado, sozinho, numa existência monótona e que cada vez mais perde suas razões de continuar.

Reflexo não só de uma vida vazia e marasmante, a sobrevivência de Robert ao “terrível vazio das horas” é frequentemente resumida a doses cada vez maiores de álcool, abstinência sexual e perturbação, numa mente torturada de sobrevivente de guerra e único resto humano de um mundo pós-apocaliptico. O sentimento que impera nesse isolamento em todas suas formas é o de solidão, é a falta de confiança no outro e no mundo, é o medo de se relacionar novamente e o sofrimento inevitável das perdas tão constantes na vida de Nevillle, em que algo a se segurar adquire formas líquidas. Sua solidão vira rotina e a esperança da manhã do amanhã ser um novo recomeço vai se deteriorando na medida em que o tempo modela Neville como um animal enjaulado. Sua prisão interior/exterior é rarissimamente interrompida.

Ben Cortman, Virginia, cachorro e Ruth. O grupo compõe o campo restrito de contatos de Robert com o mundo exterior, mesmo que seja por meio apenas de lembranças, ainda vivas e dolorosas. Isso sem contar que um já havia se tornado um vampiro sedento para drenar o sangue de seu amigo, outra só nos é apresentada no leito de morte, outro morreu imediatamente após selar união com o protagonista e a última se revelou uma filha-da-puta e uma das representantes da raça que emergia para exterminar a raça anterior, a humana. Seu escape da solidão que devora sua humanidade como traças são esses pequenos fragmentos de existência além da sua. Enquanto Robert não está socializando com o álcool – “beber pra fugir, esquecer” –, explodindo de raiva ou tentando tragicamente aliviar seu isolamento, também parte em busca da cura para a nova maldição da sociedade.

Porém, sem sucesso. No caminho, Neville vai conseguindo algumas explicações, como a razão do horror ao sol, a pouca ou nenhuma respiração e a necessidade dos vampiros em entrar em coma quando os raios solares rasgam o céu, mas vitória e alegria parecem coisas abstratas na nova realidade de Neville. O ato de viver se tornou um enigma. O instinto de sobrevivência dá os seus gritos mais primitivos e Robert luta não só para se preservar, mas também para manter sua própria individualidade, não morrer pelas mãos de uma massa uniforme e hostil, o isolamento como consequência. Bons eram os tempos em que não havia que agir por conta própria, nos quais sempre contava com Virginia, sua segurança e estabilidade, sua unidade familiar e porto-seguro, corroída pela bactéria e levando consigo toda a base de segurança da vida de Robert, que de marido típico se tornou o último homem na terra.

 Que de cônjuge amoroso se tornou o assassino de sua esposa vampira. Malditas criaturas trazidas pela bactéria, sedentas por sangue e destruição. Malditas tempestades de areia e epidemia. Malditos dias resumidos a caças, colares de alho e estacas, quebrados apenas por algum fator que logo desaparece e condena novamente Robert a suas falsas esperanças, ao seu cotidiano de morte. Mal ele sabia que, ao conhecer Ruth, sua vida estava a ponto de mudar. Se nos primeiros momentos ela era alvo de desconfiança e paranoia, ao mesmo tempo em que representava o alívio de Neville em encontrar outro ser humano ainda vivo, logo o destino trágico de Robert esmurrou sua cara e a revelou uma espiã vampira. E pior, uma vampira com a bactéria mutante, que agora os permite caminhar sob a luz do sol.

Não demora muito para que esses novos vampiros, mas resistentes, inteligentes e violentos, deem início ao domínio do mundo. Se no começo Robert era um homem contra o mundo, o quadro se virou para o mundo contra um homem. Contra o horror e a contradição de ser diferente, de ser mortal. Engolido por essa violenta e primitiva nova geração de seres, no ápice da humanidade em ruínas, Ruth dá a possibilidade de Neville acabar com sua própria vida, e ele a acata, para que a sociedade possa completar seu ciclo. Justamente por ser a personificação da mortalidade no meio de criaturas imortais, Robert morre para finalmente se tornar a lenda. E o leitor, depois de massacrado pelo sofrimento e isolamento do personagem que serve como um passaporte entre a realidade e àquele mundo perturbador, encerra o livro numa quietude indecisa entre o alívio da angústia e a inconformidade de torcer em vão pela vida de um ser humano, tão igual e vicioso quanto qualquer um.

E esse é o horror construído por Matheson. Uma história de pouquíssimos picos de adrenalina e que privilegia o olhar para o cotidiano, para o ritmo gradualmente menor de batimentos cardíacos. Sua escolha na observação do dia-a-dia da vivência de Robert e seu modo em construir a narrativa potencializam a realidade de sua criação, o diálogo do fantástico com o retrato de sua época. É o homem do pós-guerra cercado de paranoia e insegurança, machucado por forças além da sua, levando sua família e sanidade pro túmulo. “Eu Sou a Lenda” continua sendo o homem de hoje, individualizado, perturbado, trancafiado, cada vez mais isolado e colecionando temores. É a existência líquida e a sobrevivência, a ameaça onipresente e a desconfiança generalizada, é a saúde deteriorada, é o homem que vê dentro de si um estranho, que antes denominava “consciência”. É o apocalipse interior.

Mesmo quase totalmente focado no pós-apocalipse na vida de Robert, Matheson dá brechas em sua história para o pré-apocalipse, se tornando fundamental que olhemos para os reencontros com Virginia, para as lembranças da bactéria se disseminando, a histeria coletiva, a imprensa sensacionalista e a desesperada busca por religiosidade, para chegarmos na completude do estado de Neville. Seu desenvolvimento no decorrer do livro é linear até certo ponto, seguindo a cartilha de aproveitar o espaço-tempo deixado pela separação de capítulos para avançar na história e na deterioração do protagonista.

O romance apresenta quadro capítulos que se diferem por essas brechas na trama. O primeiro retrata o dia-a-dia dessa nova realidade, o segundo narra Robert com Virginia e o cão, o terceiro concentra-se no contato com Ruth e o quarto é o grand finale. Devido a suas cento e poucas páginas, número reduzido de personagens, estrutura episódica e desenvolvimento psicológico conciso, o livro de Matheson se assemelha mais a um grande conto de um homem só, lembrando o passado do autor de pequenos contos escritos para revistas e jornais alternativos antes de virar romancista. Apesar de sua curteza, “Eu Sou a Lenda” é da linha de publicações breves e complexas, utilizando de uma narrativa que conjunta com eficiência os pensamentos do protagonista, as próprias reflexões de Matheson e a narração em terceira pessoa.

Pra quem ainda não se convenceu em colocar o livro em sua lista de meta de leitura, “Eu Sou a Lenda” é um dos romances mais influentes no mundo da literatura fantástica e também no meio audiovisual, inclusive na TV onde teve claras influências em “True Blood” (2008-Hoje) e sua concepção de vampiros inteligentes, mas hostilizados, passando a viver “vidas noturnas e predatórias” e sofrendo preconceito principalmente religioso, e também em “The Walking Dead” (2010-Hoje), no isolamento e psicológico perturbado, na dinâmica de sobrevivência a um mundo que só deseja o seu sangue. Além da fama de ser um dos únicos trabalhos que trazem uma explicação científica sobre os vampiros, “Eu Sou a Lenda” continua firme e forte habitando o mundo cult da literatura, sendo muito mais do que a releitura de uma criatura que acompanha o homem desde os fins do século XIX, e um retrato ainda moderno sobre os medos, mágoas e solidão da frágil existência do homem moderno.

Escrito por Bruno Kühl. 

Twin Peaks (1990-1991)

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   “Bem-vindos a Twin Peaks. Meu nome é Margareth Lanterman. Eu moro em Twin Peaks e sou conhecida como a Mulher do Tronco. Há uma história por trás disso. Há muitas histórias em Twin Peaks. Algumas são tristes, outras são engraçadas. Algumas são histórias de violência, de loucura. Algumas são ordinárias, mas todas possuem um certo mistério. O mistério da vida. Às vezes, o mistério da morte. O mistério da floresta, a floresta ao redor de Twin Peaks. Para introduzir essa história, direi que ela inclui o tudo. Vai além do fogo, apesar de poucos saberem o que isso significa. É uma história de muitos, mas começa com uma. E eu a conhecia. Aquela que nos leva a muitos é Laura Palmer. Laura é a escolhida” – Senhora do Tronco

   É assim que se inicia uma das melhores e mais revolucionárias séries de televisão da história. Se você é um apreciador de seriados ou acompanha programas de televisão, com certeza já ouviu falar de “Twin Peaks”. Isso porque a série ultrapassou várias das barreiras de seu tempo para se tornar um programa atemporal, uma experiência única que transformou o mundo dos seriados televisivos, que se divide no antes e depois de “Twin Peaks”, e a visão do público a respeito do que passariam a consumir a partir daquele ponto. Mesmo passados mais de vinte anos de seu ano de estreia, em 1990, a série continua um espetáculo cult, sendo admirada por muitos fãs ao redor do globo e usada como parâmetro para não só outras séries, mas também novelas e filmes.

Criada por David Lynch e Marc Frost, o seriado rapidamente se tornou um fenômeno de audiência, conquistando o apreço dos críticos e a admiração de milhões de pessoas, que não paravam de se perguntar “Quem matou Laura Palmer?”, frase essa que virou um dos slogans da cultura dos anos noventa. Tudo presente na série acabou contribuindo para seu status de revolucionária. Tendo seu plot principal a investigação do brutal assassinato de uma bela e aparentemente exemplar jovem da pequena cidade de Twin Peaks, a história se liberta de quaisquer amarras ou fórmulas para trazer uma narrativa inovadora, cheia de camadas e metáforas, que vai se desenvolvendo junto à complexa investigação do crime e se amplia para as histórias dos vários moradores da cidade, trazendo a estrutura das novelas para o mundo das séries, numa trama estranha cercada de personagens duvidosos e enigmas que se desenrola em continuidade durante várias temporadas, abrindo as portas para que outras séries fizessem o mesmo. Ou seja, “Twin Peaks” é a grande mamãe de seriados também espetaculares como “Arquivo X” e “Lost”.

   Mais do que isso, a série também apresentou uma absurda liberdade criativa para a época, dando brechas em sua própria lógica para exibir sonhos, delírios e personagens ainda mais bizarros que, de certa forma, contribuíam ainda mais no andamento dos fatos. “Twin Peaks” não só quebrou com o tradicional no que se refere à narrativa dos seriados, mas também abusou de ousadia ao colocar como o centro da história o assassinato de uma adolescente, trazendo temas como estupro, drogas, obsessão, morte, segredos, prostituição, seres humanos dúbios e a revelação de todo um outro mundo bem debaixo dos narizes dos habitantes da cidade, rasgando com o “american way of life” e a ilusão de que todos viviam algo perfeito (prática comum dos filmes de David Lynch). Como o próprio Mark Frost definiu, a série é uma “novela noir”, uma sucessão de mistérios embalada em tramas de relacionamentos humanos e imergida numa atmosfera de segredos, do horror, do cômico e dramático.

O seriado foi um dos primeiros fenômenos culturais (se não o primeiro) em seu campo, ao se expandir para outros meios de comunicação além da televisão. Expansão essa influenciada pelos numerosos e ávidos fãs que, em busca de respostas e teorias, partiram para á mídia e redes sociais, aumentando ainda mais a popularidade da série e o culto ao seu redor. Vendo-a nos dias de hoje, “Twin Peaks” continua hipnotizante. Seus fascinantes e amplos mistérios, embarcando numa montanha-russa de diversos outros gêneros, sua refrescante originalidade, sua insanidade conquistadora. A cidade de Twin Peaks simplesmente se torna um microcosmo, como se aquela pequena comunidade fosse um mundo próprio, vivendo os gêneros mais comuns da maneira mais estilizada. Porém, seu efeito de hipnose deve-se também a sua excelente produção, trazendo a sofisticação e qualidade do cinematográfico para os programas de TV, e a antológica trilha sonora de Angelo Badalamenti, composta de pianos, estalos e saxofones, sempre presente e ajudando a solidificar a tão perfeita atmosfera.

   Todo esse delírio e fascinação tem início quando somos apresentados aos cenários da cidade interiorana de Twin Peaks, onde o corpo da jovem Laura Palmer é encontrado, enrolado em plástico. Uma garota aparentemente do bem, tida como exemplar, assassinada brutalmente por algum morador da cidade. Devido a grande comoção da comunidade e complexidade do crime, o agente do FBI Dale Cooper é chamado para ajudar o xerife nas investigações do crime. Logo, o que parecia um acontecimento isolado numa cidade banal e pacífica, ganha múltiplas camadas no desmoronamento das aparências, revelando um mundo controverso, denso e bizarro. Rompendo com a tranquilidade de uma cidade serena apenas em superfície, mergulhamos junto a Cooper num outro mundo, profundo, de violência, sexo e crime. De uma vida e convivência perfeitas sendo desmoronadas. De segredos mortais, escondidos na grama tão verde do vizinho, e em nosso próprio gramado.

Esse caminho de escuridão e sucessivas descobertas é traçado por uma minuciosa e atípica investigação, que segue na linha entre a lógica e a ilusão, para nos conceber mistérios fascinantes, além do fogo, de pistas constantes de um quebra-cabeça que esfrega suas soluções em nossa cara, da forma mais camuflada e abstrata possível. Seu desenvolvimento é gradual, mas dá fôlego às partes que o compõem e origina uma trama ágil, sempre em movimento. O curso de Cooper naquela cidade traiçoeira é marcado também por ótimos diálogos, que fogem do óbvio e complementam a formação das pistas, e uma galeria de personagens excelentes que, além de suas caricaturas, se mostram dúbios, redondos e completos de personalidade.

Basta lembrar da Senhora do Tronco, uma velha estranha que leva em seu colo um pedaço de tronco, e suas introduções em cada episódio, praticamente um diálogo entre o diretor David Lynch e seu público, se comunicando através de códigos e discursos enigmáticos que induzem a certas linhas de pensamento e são capazes de mudar toda nossa visão sobre o que veremos a seguir. Lembrar do próprio agente Dale Cooper, um profissional experiente de métodos inusitados, satírico, irônico e cativante; do xerife e seus companheiros policiais; da mimada e absurdamente carismática Audrey Horne e seu ambicioso e corrupto pai Ben Horne; da colegial Donna e seu amor pelo rapaz James; de Shelley e Norma e seus corações divididos; dos perigosos Leo, Hank e os irmãos Renault; da sedutora Jocelyn e seus constantes atritos com Catherine Martell; do alívio cômico trazido por Lucy e Andy; da grosseria e objetividade de Albert; da dor infinita de Leland; e, finalmente, de Laura. Garota dúbia, perigosa, autodestrutiva, libidinosa, perdida em sua própria existência e condenada ao inferno.

   Além de seus habitantes, acidade de Twin Peaks é construída também como um personagem. Longe de tudo, o local parece um conjunto isolado de cenários comuns de cidades pequenas, num clima de interior, de comodidade, trazendo tons amarelos e marrons frutos das madeiras usadas nas paredes, móveis e em todos os lugares, pra depois ser rompido pelas fortes cores e mudanças visuais, de luz e sombra, descontrole. A cidadezinha perfeita, de convivência saudável, desmoronada no cair das cortinas, nas mortes, no tráfico, no passado sujo e desenterrado. Uma terra onde todos são suspeitos, camuflam sua hipocrisia, escondem seus segredos. Com suas florestas sombrias, de árvores de muitas camadas e troncos descascando, podemos sentir a presença de uma outra parte, desconhecida. É nessa simbologia das florestas, troncos e raízes que “Twin Peaks” se abre para vários de seus símbolos e metáforas.

   Na madeira, nos semáforos, nas cores. Em tudo há uma dualidade, um outro significado na linguagem formada por David Lynch e Marc Frost, conversando com o espectador através de imagens e sons, personagens e ideias, de forma  sempre extraordinária e desafiadora.  Instigando seu espectador a não só buscar por respostas, mas também adquirir uma obsessão por suas teorias e possibilidades deixadas em aberto, o seriado foi o grande pioneiro ao exibir mistérios em continuidade, múltiplas interpretações, várias provas para inúmeras hipóteses, decifrar sonhos para encontrar soluções. Mais do que isso, se consagrou como uma arte além da compreensão, tão normal quanto fantástica, tão real quanto extraordinária, algo que desafia todas as lógicas e fórmulas na sua transição entre o clássico e moderno, variabilidade de gêneros e mistério infinito.

   Com relação aos episódios, sua primeira temporada expõe tudo do que fez da série um marco televisivo, caindo no gosto do público com seu estilo inovador, estranheza, pistas e seu status de pioneira, dando espaço também aos jovens incompreendidos e descontrolados em contraponto aos adultos sem compreensão e “caretas”. Sua season finale é simplesmente sensacional, fechando com chave de ouro um ciclo inconclusivo de mistérios, entregando respostas e fazendo surgir outras, enquanto exibe momentos fortes e decisivos. Nos episódios iniciais da segunda e última temporada, “Twin Peaks” já era um espetáculo próprio e resolveu deixar a investigação ligeiramente mais pesada, com um certo tom sobrenatural, mais bizarrice na comédia e mais violência, enquanto vai caminhando para o fim de seu problema principal. Eis que chega o excelente episódio 2×09 e a série resolve encerrar sua trama central, a morte de Laura. A tão esperada revelação do assassino é feita, chocando pelo horror e resolução quase irretocável, deixando ainda para o próprio espectador montar todas as peças do quebra-cabeça e presenciar em si mesmo, no mundo ao seu redor e no microcosmo da série um lado desconhecido, mais obscuro.

A partir do episódio 2×10, a série se perde e o nível de qualidade sofre uma grande queda, devido à falta de estrutura e objetivo que a opção por revelar o assassino tão cedo causou. O clima que impera é o descontraído, há muito humor pra pouca graça, algumas decisões contradizem com o mostrado até então e tudo o que restou foi tentar desenvolver as outras partes da trama e pendências da série. Desenvolvimento esse tão previsível e na maioria das vezes óbvio, sem mistérios que realmente funcionassem e resolvendo os problemas por um estilo bem mais novelesco e carente de criatividade, que a série continuou com seu nível insatisfatório de audiência e caminhou para seu cancelamento. Tentaram traçar por um lado mais sobrenatural, de alienígenas e mensagens secretas, traçando um caminho parecido ao de “Arquivo X”, tentaram reconquistar seu público com novos personagens e participações especiais de futuras celebridades, como David Duchovny, Billy Zane e Heather Graham, tentaram até dar novos tratamentos a figuras já conhecidas, como as atrocidades cometidas contra a família Horne, mas nada funcionou. Mesmo que a estética cinematográfica e o trabalho sonoro continuassem lá, a série caminhava entre excessos e tramas novelescas, mas sempre continuando algo assistível.

    Nos momentos finais do 2×16, após a morte de uma personagem, as alucinações voltam a acontecer e a série começa a voltar aos trilhos. Corrigindo o que estava errado, a comédia voltou a ter graça, a criatividade estava lá novamente, junto aos pequenos mistérios e revelações, e a série ganhou força novamente com suas investigações alienígenas e as peças de xadrez de Windom Earle, porém não da maneira perfeita de antes. Mesmo conseguindo estabelecer um ótimo nível em seus episódios finais e acertar na sua construção de um direcionamento bizarro, já era tarde demais e o cancelamento era realidade. Diante disso, temos um dos melhores episódios da série (se não o melhor) sendo o seu último. Explorando alienígenas, as armações de Earle, o passado de Cooper, o interessante mistério ao redor do White/Black Lodge e fazendo tudo isso dar certo, o episódio final, com direção de David Lynch e com certeza seu dedinho não creditado no roteiro, se encerra em momentos de pura criatividade e genialidade, e acaba numa das melhores e mais chocantes cenas da história dos seriados.

“Twin Peaks” foi vítima da própria modernidade, condenada por ser à frente de seu tempo. Mesmo revolucionando a televisão e destoando com o conservadorismo de sua emissora de exibição ABC (na época em que não era esse grande monstro que é hoje), sendo um de seus programas de maior sucesso, o seriado sofreu com a pressão crescente da própria emissora e também do público (os níveis de audiência haviam caído entre as temporadas) para revelar logo o assassino de Laura Palmer, não compreendendo o intuito da série em fazer das investigações da morte apenas uma desculpa para uma avalanche de revelações e tramas complexas. Com a revelação indo ao ar, o público cada vez mais abandonou a série devido à posterior queda de qualidade, e seus criadores David Lynch e Marc Frost perderam o interesse em continuá-la, migrando os dois para projetos no cinema, resultando na fase sem rumo do seriado. Apesar de consolidar um caminho alternativo no final e entregar um encerramento perfeito, a série já estava cancelada. Foi o fim de um dos maiores espetáculos que a TV mundial já proporcionou.

Como já dito e redito aqui, ver “Twin Peaks” é uma experiência única. É como entrar num thriller corajoso que ousa não seguir com a verossimilhança, fórmula ou lógica, mas se guia através um delírio agarrado à realidade e às pistas de mistérios repletos de significados. Um thriller de profundidade, de caminhos diversos e mentes dúbias, um mundo próprio de aparências, de homens sucumbindo à loucura, corações partidos, maldade. Com os símbolos de inocência, ética e beleza se perdendo nesse cada vez mais “mundo cão”, uma rosa se abre em meio a ramos de galhos espinhosos, uma rosa chamada Laura Palmer. Sua morte é o princípio, seu legado é o abrir das cortinas para toda a verdade enlouquecedora residente em todos os lugares. “Twin Peaks” é o acordar para um mundo obscuro e íntimo bem debaixo de nossos narizes, é o penetrar numa atmosfera de mistério, horror, do tragicômico e bizarro, é o flertar com o nonsense, com a ilusão e o próprio pensamento.

    É a arte recriando a realidade e ao seu próprio público. Se derruba a barreira entre sonhos e realidade, se abre um portal que nos leva ao desconhecido, aos segredos, ao mal, às nossas florestas interiores. Somos apresentados a um mundo além da compreensão, sanidade ou qualquer limite. Criou-se um exercício de liberdade criativa, de múltiplas interpretações e multissensorial, que revolucionou a televisão e até hoje se configura como uma das grandes artes que a mesma já nos concebeu. O que nos resta agora é aplaudir Lynch e Frost, e aprender a viver com essa nova visão de mundo pós-“Twin Peaks”.

“O que vemos não é a natureza, mas a natureza exposta ao nosso método investigativo” – Annie Blackburn

American Horror Story – Asylum (2012-2013)

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   De uma série que começou sua nova temporada com a imagem de uma cruz feita de pedaços de madeira, ao mesmo tempo em que ouvimos Adam Levine falando sobre sexo, não se pode esperar algo dentro dos padrões. “American Horror Story” estreou sua segunda temporada em outubro de 2012, após ser intensamente divulgada através de um bizarro material, que incluía teasers e pôsteres, com refinamento artístico sinistro e repleto de mensagens subliminares sobre a trama.  Carregando o subtítulo “Asylum”, a série já iniciou suas novas histórias com tudo, prometendo ser aquela mistura deliciosa de bizarrice, terror, personagens estranhos, mistérios excitantes, muito humor negro e sexo, que acabou se comprovando no passar dos episódios. Longe de ser aquela bagunça tosca e descontrolada principalmente do começo de sua temporada original, a série conseguiu passar por cima de seus erros no passado e nos entregou uma temporada sensacional, rica em acertos.

   Como já sabiam os mais bem informados, tudo mudou aqui, mas de certa forma continua o mesmo. Dos anos 2000, vamos parar na década de 60, de conservadorismo forte, da tentativa de se manter intacto o american way of life em frente às mudanças sociais que começavam a transformar a sociedade norte-americana. De uma misteriosa casa mal-assombrada, somos levados a uma instituição psiquiátrica enlouquecedora. De uma família suburbana sendo aterrorizada por espíritos, passamos a acompanhar os criminosos e habitantes perturbados de um hospício. De Rubber Man, somos apresentados ao doentio Bloody Face. De vizinha diabólica, Jessica Lange se transforma numa freira-chefe maléfica. O reordenamento das tramas, cenários, temas e papéis dos atores principais mudaram, porém, a essência da série continua intacta, a de afogar gradualmente seus espectadores nas histórias anormais e sangrentas de um lugar engolidor de vidas e liberdade. Enquanto a primeira temporada clama por anarquia, bizarrice, sexo, confusão, violência gratuita e muita pressa, a segunda optou pela classe, numa ótima construção de tramas, metáforas, apresentação de temas sociais e arrancando diversas feridas, horror físico e psicológico, muita claustrofobia, dor e sofrimento, mas sem deixar de lado o sexy e o insano.

Indo de psicopatas e humanos deformados até alienígenas, a série teve uma grande expansão de seus temas centrais, e amarrou todas as histórias desenvolvidas durante seus treze episódios de forma majestosa. É claro que Ryan Murphy podia não ter matado quase todos os personagens e não ter entregue algumas soluções fáceis (que na verdade nem incomodam), mas foi incrível como depois de um início de temporada tão alucinado e cheio de teias, os roteiristas conseguiram conectar cada história e fazer cada detalhe ter sua importância no desenrolar dos fatos, com nada soando gratuito. Aliás, aquela trama inicial de Leo e Teresa indo transar nas ruínas de Briarcliff e sendo mortos por Bloody Face realmente pareceu avulsa, tanto que não apareceu em diversos episódios, mas depois recebeu um esperto encaminhamento e recebeu sua devida importância do final da temporada, com Dylan McDermott sendo Bloody Face Jr. e interpretando um papel que caiu perfeitamente em seu estilo, ao contrário da atuação sofrida que fez de Ben Harmon.

Apesar das criaturas, dos demônios e de toda a maluquice, “Asylum” encontrou seu principal triunfo na representação de um horror real, palpável, de vítimas de uma sociedade doentia e humanos monstruosos. Todos aqueles que, de alguma forma, não se encaixavam no perfil de aceitação sessentista, acabam subjulgados a um submundo como é aquele hospício. Pepper e os deficientes mentais, que eram culpados por tudo e tendo sua deficiência aproveitada por aqueles ditos normais, Lana e os homossexuais, submetidos aos mais cruéis tratamentos e tidos como portadores de alguma doença, Kit/Grace e os adolescentes incompreendidos, condenados por acreditarem na verdade diante de seus olhos e clamarem por justiça, Shelley e a libertação sexual feminina, condenada pelo machismo dominante. Os internados na instituição eram alvos de uma sociedade tão conservadora, infeliz e a favor dos bons costumes, que acabou criando um sistema hipócrita e desumano para trancafiar todos aqueles que, de alguma forma, ameaçam seu estilo de vida e a lembrava de como as coisas estavam muito erradas.

   Briarcliff era o perfeito retrato disso. A representação de um mundo dominado por loucos, que criava monstros e seres humanos iguais, onde os inocentes e os diferentes eram culpados, oprimidos por saberem da verdade, e os soberanos mantinham seu sistema problemático, quase sem escapatória, decadente. Todos que detinham poder na instituição eram, de alguma forma, condenáveis. Basta lembrar de Jude (que contém semelhanças com a história nada santa de Madre Teresa de Calcutá), freira que escondia por trás de seu conservadorismo, fanatismo, moral e absurda crueldade, um passado de hipocrisia e sujeira com vícios e morte, de Padre Timothy, um mentiroso e covarde disposto a fazer tudo para obter reconhecimento, de Dr. Arden, que atropelava quaisquer dos direitos humanos para avançar em seus experimentos, usando pacientes como cobaias, e ainda mantinha segredos sobre o tempo quando era um oficial e médico nazista, como vimos no episódio duplo “I Am Anne Frank”, de Eunice, uma jovem literalmente possuída pelo mal, de freiras que maltratam seus pacientes, de cozinheiros que não lavam as mãos, de policiais armados de cassetetes e armas prontas para atirarem.

Talvez, o maior exemplo desse poder corrupto seja o de Oliver Thredson, o psicólogo assassino que nunca conseguiu curar sua própria loucura. Um monstro que conseguia se infiltrar e se manipular a todos, que julgava a sanidade de outros, sendo que a sua mente era uma das mais perturbadas. Sua revelação como Bloody Face foi simplesmente chocante, já que Kit e Arden também eram grandes suspeitos, e as cenas em que demonstra toda sua insanidade são algumas das mais fortes da série, incluindo necrofilia, estupro, tortura, assassinato. Nascida pra sofrer, Lana Winters se torna a última vítima de Bloody Face após a grande revelação, surtando em horror, e acabando grávida do monstro. A jornalista passou a temporada inteira sofrendo, e o público junto à ela, já que rapidamente se tornou a melhor personagem. Teve sua namorada morta, foi internada injustamente, eletrocutada, iludida, torturada, mantida em cativeiro, estuprada, quase assassinada duas vezes, presenciou o suicídio de um homem, sofreu um acidente de carro, foi novamente internada, tentou abortar com um cabide, foram tantos traumas e horrores que ela não podia continuar a mesma.

   Após sua liberdade, possuindo a fita da acusação de Oliver, Lana logo começa todo seu legado de denúncias e sucesso. Meteu uma bala na cabeça de Thredson, denunciou as pessoas mortas e desaparecidas em Briarcliff, e lançou o histórico “Maniac”, livro que narrava suas desventuras nas mãos de Bloody Face. Após essa onda de exposição, Lana se mostrou uma jornalista astuta, corajosa, mas com esperteza em primeiro lugar e dona de uma certa arrogância, egoísmo. Durante sua vida, foi um símbolo de feminismo, da igualdade, mas também da luta contra aquilo que julgava errado numa sociedade que não cansou de apontá-la como o erro. Por encarar o mal e horrível, a escritora também arcou com as consequências, e se tornou bem mais amarga do que aquela doce Lana que conhecíamos, e bem mais oportunista também, mesmo fazendo o correto e se tornando um ícone. Nem tudo realmente é da forma perfeita como nos é mostrado na deturpação midiática. Exemplo disso é o fato de que só depois da tecnologia da filmagem chegar a ser disponível, é que Lana resolveu fazer sua reportagem denunciando Briarcliff e todos seus absurdos e horrores, já que via o futuro do jornalismo na área do visual.

Winters conseguiu fechar Briarcliff, após as terríveis e realistas imagens que gravou para a matéria, mostradas no último episódio da temporada, denunciou Timothy, que covardemente cometeu suicídio, e foi buscar Jude, mas ela não estava mais no hospício. Fuçando nos papéis da instituição, ela descobriu que Jude foi entregue aos cuidados de Kit. Em sua emocionante visita ao rapaz, Lana ouviu o quando aquela senhora foi capaz de mudar. De uma mulher conservadora, cruel e hipócrita, Jude teve que passar por tudo aquilo que proporcionava aos seus pacientes, ser oprimida pelo próprio sistema que criou, passar anos enlouquecendo para que pudesse ter sido mudada. Se os opressores experimentassem o que fazem aos oprimidos, o mundo não seria essa injustiça toda que todos já estamos acomodados. Com uma pequena ajuda alienígena, Jude se torna uma senhora amável, tolerante, em paz em consigo mesma. Quando vê a morte a esperando, ela dá um lindo discurso para as duas crianças de Kit, agora mais crescidinhas, e aconselha à filha de Alma a ser livre, pois já se deu início à década de setenta, e ao filho de Grace seguir uma carreira que ame, e que não faça nada apenas pelo dinheiro.

   Ao desenrolar da temporada, a mudança dos personagens foi um dos grandes pontos. Oliver se revelando, Lana passando de vítima para uma arrogante justiceira, Kit de assassino e perturbado para um garoto altruísta, Jude de vilã cruel para uma doce “vovó”, Eunice de santa para demônio, Arden de cientista nazista e gelado para alguém que via numa jovem freira a representação de uma inocência e bondade extintas no seu mundo de horrores. A bela construção de vários mistérios durante principalmente os episódios iniciais, como quem era Bloody Face; o que eram as criaturas das florestas criadas por Dr. Arden, que depois descobrirmos serem cobaias de seu experimento para elevar a imunidade humana; qual era o envolvimento de Kit com os alienígenas, revelando ser o garoto um estudo sobre a vida e reprodução de sua espécie; foram gradualmente se resolvendo e reduzindo para os roteiristas darem mais atenção ao desenvolvimento de cada personagem. Alguns partiram muito cedo (a mais desperdiçada foi Shelley), outros ganharam destaque lá pro final (Pepper), mas o tratamento dado para os protagonistas foi sensacional.

   Deu pra sentir amor e raiva, pena e rancor por cada um deles (tá, pelo Kit talvez não). Suas tramas, que de início pareciam isoladas, foram ganhando encaminhamentos interessantes e se convergindo em entrelaçamentos que, no final, acabaram quase irretocáveis. Muitos estranharam que vários pontos e figuras da narrativa foram se encerrando meio cedo, como a morte daquela que se tornou a grande vilã da temporada, Irmã Eunice, e a saída repentina de Lana do hospício, mas tudo foi contornado com esperteza, não deixando nada faltar ou a peteca cair, resultando numa maravilhosa season finale. Coesa, dando dignidade a cada personagem e tão poética a ponto de cair lágrimas, com o Anjo da morte buscando Jude, mas nunca deixando de ser violenta e absurda. Apesar dos ótimos textos da temporada, dando tempo para cada história em tela, seus triunfos também se devem à edição rápida, à agilidade sempre presente nas direções e também à sua concepção visual, que acaba formando grande parte de seu estilo.

Com tons cinzentos e desbotados, explorando escuridão, luz e sombra e cores em momentos fortes, aliados aos ângulos estranhos, movimentos de câmera por vezes cinematográficos, por vezes bizarros, a série conseguiu uma bela perícia técnica em seu retrato de podridão e terror, retratando um mundo decadente através de uma fotografia irretocável. Mas o deslumbre da temporada também se expande para diversas referências cinematográficas, na busca de fórmulas de boas histórias, e de fazer delas um delírio irresistível. O assassino com máscara de pele humana, referência direta a Leatherface, o serial killer da série de filmes slasher “O Massacre da Serra Elétrica”; a figura da enfermeira-chefe prepotente e sádica, já vista no clássico “Um Estranho no Ninho” na pele de Mildred Ratched; as cenas estouradas e clean de raptos alienígenas no melhor estilo “Arquivo X”; tudo no resultado dos roteiristas em estudar e fazer uma constante rebuscagem de personagens e histórias que conseguiram impacto e do medo em sua forma mais crua.

   “American Horror Story – Asylum” foi um épico do horror como há muito tempo não se via na televisão. Tanto sofrimento e dor num mundo de realidades cruéis e dobras no fantástico foram recompensados na entrega de uma temporada concisa, brutal, emocionante, com diversos de seus segmentos tocando em feridas morais e sociais, trazendo à tona confrontos ideológicos, preconceitos, intolerância de uma sociedade hostil e conservadora, sistemas opressores, aparências e realidades. Ultrapassando os obstáculos que tornaram a primeira temporada algo enfadonho, Ryan Murphy presenteou os fãs de sua mais bizarra e assustadora criação com um espetáculo além do terror, da bela recriação de época e duelos de interpretações. Com sua estética rápida, expansão temática e perturbação, “Asylum” nos mostrou o quanto estamos suscetíveis ao mal e como, ao enfrentá-lo, uma parte dele residirá sempre em nós.

“Just remember. If you look in the face of evil, evil’s gonna look right back at you” – Irmã Jude

Argo (2012), Ben Affleck

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Seja mais cedo ou mais tarde, eventos históricos sempre chegarão às grandes telas do cinema. Desempenhando um papel de registro em sua recriação de época, revivendo momentos específicos da trajetória da humanidade para se sentir na pele os acontecimentos passados e nos darmos conta das diferentes situações através dos tempos, é na arte cinematográfica que tais eventos alcançam sua maior representatividade sensorial, quando bem feita. Mesmo que já saibamos o resultado, a tensão, a revolta e o sentimento de que somos um personagem dentro daquele universo de realidades é o que torna o “baseado em fatos reais” tão chamativo e vivo, seja para experimentar a podridão do holocausto nazista, mergulhar na época das grandes navegações, nos banhar em sangue honrado nas guerras travadas, sentir o coração batendo por conflitos entre países e pessoas.

Em época atual de democracia virtual, revoltas violentas e luta pela autoafirmação cultural, eis que surge um filme de referência direta a uma época passada, com semelhante panorama histórico-social. Marcando seu terceiro trabalho na direção, Ben Affleck nos conduz a “recentemente” revelada trama da CIA para resgatar os seis diplomatas estadunidenses que correram perigo de vida dentro de um Irã em estado de fúria e revolta, em plena Revolução Iraniana, após a invasão da embaixada americana pelo povo motivada por desentendimentos entre os dois países. A trama, de situação atual e realista, encontra seu alívio de seriedade e tensão no mirabolante plano elaborado por Antonio Mendez, a cabeça da operação secreta, de fingir que está fazendo um filme sci-fi no melhor estilo Star Wars, no qual os seis diplomatas fariam parte, a fim de tirá-los de lá sem suspeitas. Tal falso filme, que aposta na fantasia para literalmente escapar da realidade, recebeu o nome de “Argo”, servindo de título para a obra de Affleck.

Apesar de se passar no auge da Revolução Iraniana, são em seus ecos no futuro dos movimentos sociais no Oriente Médio/Norte da África e risco na soberania estadunidense que “Argo” encontra sua inspiração e força, sem medo de trazer alusões à Primavera Árabe e acontecimentos como o recente assassinato do Embaixador J. Christopher Stevens e mais quatro norte-americanos, na Líbia, pelo conteúdo de um filme que supostamente desrespeita o islamismo. Esse confronto ao mesmo tempo barulhento e silencioso entre forças do ocidente e oriente se mantém instável no cotidiano de ambas as partes, trazendo à superfície dramas também retratados pelo filme de Affleck, como o limite de ação entre uma nação ou cultura sobre a outra e as cabeças inocentes agora cortadas devido a discordâncias diplomáticas, algo semelhante com que Rodrigo Cortés fez no excelente “Enterrado Vivo”, no qual a principal questão são as vidas perdidas de ambos os lados, instalando entre eles um ódio silencioso, porém poderoso.

O triunfo de “Argo”, além da temática efervescente e de seu roteiro adaptado, é a bela construção de uma atmosfera de urgência, uma tensão que anuncia desde o começo que qualquer erro pode conduzir a situação a finais sangrentos. O auxílio de um uso inteligente das cores dá ao trabalho de Affleck um caracterização sensitiva, colorindo seus quadros conforme às emoções de cada cena. Com exceção das cenas passadas em Hollywood, nas quais o cômico impera e o veneno crítico come solto, ironizando as supostas almas vendidas por dinheiro e obras industrializadas de uma terra de cabeças não pensantes, e as cores amarela e laranja pintarem os quadros, o resto da obra é acompanhado por uma paleta fria de tons cinzentos e, principalmente, azulados, algo parecido com a construção visual de “Rede de Mentiras” (2008), thriller de terrorismo de Ridley Scott. É bastante contraditório que a cor que transmite paz, segurança e tranquilidade é a mais presente no filme, exatamente o oposto do enfrentado pelo grupo de norte-americanos em meio a furiosos iranianos, tendo que fingir tais sentimentos à força pela sua própria sobrevivência em território inimigo.

Essa plástica visual complementa toda a sofisticação de “Argo”, com uma direção repleta de classe, que nunca se rende a ações gratuitas, exageros técnicos ou cenas apenas de transição, mas entrega uma câmera controlada, ângulos valorizando o espaço, a claridade, os contrastes de luz e o sufoco, aproveitando os cenários finos das embaixadas, aeroportos, casas familiares que servem como refúgio e a sensação de conforto passageiro para dar de quebra com a instabilidade de uma filmagem mais descontrolada e por vezes amadora para caracterizar a ação de mão, da câmera agora no punho que acompanha o movimento em tela. Aproveitando do uso de filmagens de celulares e câmeras digitais em momentos de euforia do povo israelense, cria-se um efeito de realismo do qual muito se aproveita “Argo”, como se assistíssemos aquilo por televisores ou links da internet, espectadores de uma caprichosa recriação de época que invoca passado e presente, câmera instável e controlada, num espetáculo de dinamismo para vislumbrarmos a mudança advinda de uma massa furiosa por defender sua própria justiça.

Essa sanguinária busca por justiça ganha energia, medo, elegância e um forte caráter político de custo de vidas graças à já experiente condução de Ben Affleck, provando ser bem mais capaz em desempenhar esse papel do que atuando, mesmo sendo ele mesmo o protagonista de seu próprio filme, Tony Mendez. Buscando imprimir um estilo próprio, Affleck busca diversas influências cinematográficas para montar seu próprio thriller político, sendo a principal delas “Todos os Homens do Presidente” (1976). O filme de Alan J. Pakula é perceptivelmente uma base para seu thriller, no método de construção de uma tensão política, no estilo visual e nas cores calculadas, na composição visual semelhante nas cenas internas, nos passeios de câmera, na valorização de cores frias e tons azulados e até no perfil dos personagens, controlados pela ação. Tudo para montar sua estrutura de desespero contido.

Como era de se esperar de um bom fruto das entranhas dos padrões de Hollywood, Ben Affleck entrega uma direção que absorve vários dos moldes tradicionais do cinemão hollywoodiano, refletindo sua crença em reviver fórmulas de sucesso e, a partir delas, gerar algo novo ainda dentro de uma base segura. Podemos ver os vestígios dela aqui, no clichê das primeiras tentativas; várias ações que se completam no último minuto da possibilidade de sucesso; o esquema nos passos do roteiro; a resolução final dada ao filme; o desenvolvimento da trama voltado para a ação e o tratamento dos personagens como apenas peças atuantes dela. Para destoar desses convencionalismos, seu trabalho também invade, além do olhar sobre o registro histórico social/diplomático, o campo das sutilezas, levando poesia à sua representação do real, o que justificaria o final quase inverossímil com o simples fato de que a realidade é tão difícil e brutal que acreditar na ficção já não é mais uma escolha, é uma necessidade.

Diferente da situação de seus personagens, que contra todas as possibilidades acreditam no sucesso da operação, Ben Affleck só confirma o que muitos já esperavam, depois de “Medo da Verdade” (2008) e “Atração Perigosa” (2010). Sólido, classudo e estiloso, “Argo” é fruto de uma direção experiente e da profusão de um perigo iminente, abordado através de uma estrutura familiar no cinemão norte-americano e modelado bem na coragem em tratar-se de temas tão atuais. Assim como o filme de Kathryn Bigelow, “A Hora Mais Escura”, que também segue essa linha de confronto e demarcação história entre forças do ocidente e oriente, é injusto classifica-lo como simples “filme de Oscar”. Há tensão, há atritos diplomáticos, mas “Argo” também acredita na força da narrativa hollywoodiana, no elegante e na metalinguagem, e foi seguindo por esse caminho que conquistou os críticos da Academia, os cinéfilos de plantão e os espectadores casuais prontos para um entretenimento inteligente. O filme de Affleck ganhou a estatueta pelo fator que mais investiu, o senso de justiça.

Avaliação: 4/5 

Acossado (1960), Jean Luc-Godard

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Quando tudo está dentro dos padrões e em aparente calmaria, é sinal de que alguma coisa está errada. Uma falsa calmaria para um crescente movimento de mudanças. Situação essa tão comum no desenrolar da história da humanidade, também se encontra na história das artes, cheias de novas ondas ideológicas, movimentos e rejeição do pré-determinado. Foi assim que aconteceu o famoso movimento da Nouvelle Vague, uma redefinição do cinema em todas suas vertentes, iniciado na França e depois se espalhando pelo mundo. Um dos expoentes desse movimento foi a obra inicial de um dos realizadores de maior sucesso e genialidade de todo o desenrolar da história cinematográfica.

Tradicionalmente com as características de obras de estreia, “Acossado” é a pura efervescência da cinefilia e do inconformismo cultivado por anos pelo seu autor, que mais tarde viria a se tornar um dos maiores diretores da sétima arte. Antes escritor da revista francesa “Cahiers Du Cinéma”, fundada em 1951, campo impresso no qual cinéfilos e jornalistas podiam discutir abertamente sobre o mundo cinematográfico, realizar artigos e críticas a respeito dos filmes realizados até então, e sendo ela a porta-voz para as reflexões e expressões de ideias de seus autores, trazendo futuramente uma onda de novos e jovens diretores, Jean-Luc Godard se consagrou não só como um crítico brilhante e de opinião própria, mas também como um dos visionários que oficializariam uma nova linguagem à sétima arte.

Essa instauração de uma nova linguagem originou obras pertencentes ao movimento que se denominou Nouvelle Vague, talvez o movimento de maior relevância na história dessa arte. Expressando a insatisfação dos jovens e cinéfilos franceses com o status do cinema no período, dominado pelo comum, pela covardia, por fórmulas fáceis, raciocínios preguiçosos e passividade, a Nouvelle Vague foi um grito, uma determinação de toda uma nova forma de se fazer cinema, relevando-o novamente como arte e não como máquina de se fazer dinheiro e cabeças não pensantes. Godard, acompanhado de muitos autores como François Truffaut (que viria a trazer “Os Incompreendidos” (1959), uma poesia sobre a liberdade e a juventude) e Claude Chabrol, transpôs todas suas insatisfações e ideias, expressas anteriormente na revista, para às telas de cinema, gerando algumas das obras que conduziriam o movimento do período.

Seu primeiro filme foi “Acossado”, dirigido em 1960 e marcando o início de um período de grandes mudanças. Essa verdadeira revolução não se restringiu somente ao linguajar e estética do cinema, mas se ampliou para sua própria representação social e suas temáticas. “Acossado” talvez seja o filme-símbolo de todo esse movimento, uma explosão de contracultura e contemporaneidade, uma obra que transpira inovação por seus poros. Captando toda a energia e paixão dos diretores principalmente norte-americanos que já realizavam o cinema de autor, ou seja, que imprimiam nos filmes suas próprias características e ideias, como Hitchcock e seus suspenses magistralmente conduzidos, ou Nicholas Ray e Samuel Fuller e suas forças reflexivas de forte apelo social, Godard traduziu as transformações ocorridas em seu tempo, exaltando o potencial imagético e ideológico da linguagem cinematográfica para dar à luz ao seu próprio cinema, de fascinante fluxo de ideias, experimentações, quebra de padrões e, mais tarde, de constante veia política.

Moderno talvez seja a palavra que melhor defina “Acossado”. Em uma hora e meia, a obra conseguiu reformular a arte de se fazer cinema. Repudiando todas as fórmulas e padrões pré-estabelecidos pelos filmes antecessores e inexpressivos, que exerciam o controle da arte fílmica no tempo correspondente, o filme de Godard rompe violentamente com a tradicional narrativa e estética cinematográfica, impõe uma literal quebra de espaço-tempo, na qual a cronologia é fragmentada, a condução da narrativa se dinamiza com novos cortes, montagens ideológicas e trama fluida, não influenciada por fórmulas desgastadas, a estética é solta de qualquer paradigma e a liberdade se torna alcançável. A inovação se estende também para o próprio ato de se capturar imagem, com uma câmera livre, que acompanha os personagens em suas andanças e expressões, realiza travellings e explora cenários, é palco para um verdadeiro estudo de campo, com os mais calculados enquadramentos, as diferentes iluminações, ganha profundidade de plano e diferentes focos de atenção no mesmo quadro, uma exaltação imortal ao poder da imagem.

Como um real visionário, Godard já entendia o moderno como algo que tende ao veloz, à informação cada vez mais instantânea e abundante, traduzindo o conceito para seu filme na rápida transição de assuntos e ações, principalmente em seus dois personagens principais, que trafegam entre diferentes sentimentos, pensamentos e atos numa velocidade surpreendente, e nem sempre simultânea. A demora na cena do quarto quebra com a divisão padronizada de cenários nos filmes e contrasta a mudança rápida de espaço-tempo proposta, mas a incorpora justamente no relacionamento do casal, que transformam aquele banheiro e quarto em um palco das mais variadas expressões humanas e permitem as mais diversas experimentações estilo-narrativas. O autor faz nascer um novo ritmo, de gradual aceleração e constante transporte de ideias, marcado por um compasso inédito, por uma montagem em harmonia com o ideal proposto e por uma trilha sonora que invoca o jazz e sua aceleração para sua elegante reinvenção narrativa.

Toda essa subversão também é acompanhada de um reflexo da nova sociedade que os franceses viam nascer, de toda uma nova gama de moralidade e valores, fruto da atitude e dos movimentos das classes insatisfeitas com o quadro social preservado, futuramente vistos de forma mais explícita no ano de 1968, no qual Godard também tirou inspiração, com seu político “A Chinesa”, do mesmo ano. O casal principal de “Acossado” traz consigo a marca da mudança, da juventude, é paralelo dos novos moldes da revolução. Michel é o anti-herói de um filme de anti-convencionalismo, um malandro roubador de carros e sedutor mulherengo, que pouco se importa pelo ético e correto, fugindo totalmente na figura do protagonista moralista e heroico. Patricia é a imagem da nova mulher, em crescente liberdade, praticante de sexo, foge dos padrões de castidade e possui atitude, seja para o que for. Os dois protagonistas são livres, provocantes, quebradores de limites e até sensuais, servindo de figuras vivas dessa energia e contraversão juvenil, que acabou construindo novas bases sociais e novos movimentos artísticos.

O sexo também ganha destaque, revelando nudez, recebendo várias insinuações e com os personagens incorporando uma certa conotação sexual, explicito na contagem da dupla de quantas pessoas cada um já dormiu e nas cenas em que dialogam na cama, sobre velhice, morte, partes do corpo, relacionamento e cultura expoente, até irem para baixo dos lençóis. Com identidade própria, dúvidas e desejos, eles formam um casal de efervescência juvenil e transgressora, mas, por outro lado, até podem significar um paralelo entre a relação da França (Michel) com os EUA (Patricia), que mais tarde ganhará um rumo inesperado. Para além das simbologias, também encontramos diversas referências culturais, principalmente no que remete à literatura e aos formadores de opinião. Se permitindo exibir os novos modos e valores sociais, referências e simbologias, em sua forma inédita de se dirigir um filme, Godard traça uma quebra de paradigmas sociais e culturais que vai de encontro com a quebra na sétima arte, uma ampla ruptura tão significativa quanto o foco num beijo mais prolongado e acalorado.
O surpreendente em “Acossado” é sua constante insistência na quebra, sua essência sendo construída ao longo de toda a obra a partir da inconstância do definido, o que se revela no final, fruto de um encerramento que foge totalmente das expectativas, um desfecho de acontecimentos estranhamento cômico e trágico para o enceramento de uma película. A maneira como o autor resolve finalizar sua obra é retrato vivo da racha do esperado, do comum, dando espaço para as inovações, mesmo aqui sendo contraditória, provavelmente resultado dos sentimentos conflitantes do casal e da própria indefinição do ser humano, e até podendo remeter ao possível simbolismo França-EUA citado anteriormente. “Acossado” se finaliza e se consagra como um marco cinematográfico, uma constante subversão e reinvenção, um filme pelo cinema, feito por um gênio que sempre conseguiu ver além das limitações de seu período e do cultivado passivamente pelo âmbito social e pelas artes, que compreendeu que o cinema, antes de uma composta captura de imagens ou articulada narração, era um veículo de ideias, um porta-voz para a alma de seu realizador, uma rede imagética e sonora de reflexões em simultaneidade com seu tempo. O passo inicial para a arte infinita e contemporânea de Jean-Luc Godard.

Avaliação: * * * * *

Escrito por Bruno Kühl 

Alemanha Ano Zero (1948), Roberto Rossellini

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  Usando da cruel realidade presente nos países destroçados pela Segunda Guerra Mundial, um grupo de diretores italianos se utilizou da arte cinematográfica para não só obterem um registro histórico sobre a presente situação de seu país, mas também para gerarem um reflexo do que se tornou a sociedade a partir daquele ponto. Esses cineastas deram origem ao movimento Neorrealista italiano, em que se abordou a nova realidade enfrentada por parte dos países da Europa, englobando a decadência do país, as pessoas corrompidas e uma expectativa de futuro nada amistosa. Em pelo menos dois dos melhores filmes do movimento, o registro histórico caminha de mãos dadas com o mundo infantil, focando a visão e o novo modo de vida das crianças italianas e alemãs, sendo eles o clássico “Ladrões de Bicicleta” (1948), de Vittorio de Sica, e “Alemanha Ano Zero” (1948), de Roberto Rossellini, do qual essa crítica se trata.

Não que o uso da figura da criança no ramo cinematográfico tenha sido originado do movimento neorrealista, mas foi nele em que a construção de mundo, ingenuidade e imaginação de uma criança entrou em contato direto com os horrores do pós-guerra e do mundo devastado, um choque entre o idealismo simples e pré-amadurecimento de uma criança com o mundo cercado de imoralidades e corrupção dos direitos humanos. Manusear um contraste desse porte e torná-lo algo artístico e não escandaloso só poderia ser feito por um mestre naquilo que propõe, no caso, Roberto Rossellini. Sendo a terceira parte de uma trilogia sobre a guerra e suas consequências, que conta com “Roma, Cidade Aberta” (1945) e “Paisà” (1946), “Alemanha Ano Zero” é uma das melhores e mais fiéis obras do neorrealismo italiano, refletindo a Alemanha do pós-guerra através de uma criança afogada na decadência presente naquilo que a cerca.

  A força de sua obra está principalmente em Edmund, a criança a qual o filme se desenvolve ao redor. Ele é parte desse novo grupo que nasce para o mundo ao redor assim como uma nova Alemanha morre em seu estado de podridão, para futuramente nascer de novo, contar desde o início os anos de sua nova realidade, o ano zero de transição. A criança, Edmund, é a representação perfeita da nova geração alemã. Confuso, perdido, sem ideais e amigos, vagueando pela cidade desmoronada como se não houvesse para onde ir e gerando algumas das imagens mais fortes do cinema neorrealista em seus passeios solitários pela Berlim em destroços, sendo visível o estado emocional tênue e de tímida tristeza que habita a alma do garoto. Sua família desestruturada se apoia nele e em seus trabalho ilegalmente remunerados para que haja garantia da sobrevivência à miséria e que o dinheiro para despesas seja ganho, refletindo o peso de responsabilidades na mente ainda em fase de amadurecimento de Edmund e a esperança dos mais velhos nos novos indivíduos que vão surgindo para sustentar uma Alemanha decadente.

Mesmo que o protagonista seja uma criança, há a abordagem também da família e seus pertencentes, que se encaixa no contexto do filme de exibir as mudanças no tratamento e nos papéis sociais de cada um deles. Rosselini entrega encaminhamentos corajosos aos seus personagens, atribuindo-lhes significações e destinos, no mínimo, trágicos. A estrutura da família, abalada pela guerra, agora enfrenta uma maré de mortes, perdas e reconstruções cíclicas de estado emocional e condições das mais diversas. A miséria deteriora o luxo, a dor engole a felicidade, a ética é substituída pela necessidade de se sobreviver. Para um filme da década de quarenta, é impressionante a abordagem crua de seu autor para assuntos como suicídio, culpa, crises, até deixando nas entrelinhas possíveis abusos sexuais de prostituição infantil, com crianças retraídas e inseguras, e adultos suspeitos e próximos fisicamente até demais, porém a gama de assuntos polêmicos ganha cenas apenas sugestivas, uma desconfiança de que um ato tão horrendo possa estar dando seus indícios bem na frente de nossos olhos, e somente nas cenas finais há a liberdade de se tornar explícito um dos temas ao qual o filme faz referência, originando uma das cenas mais cortantes de todo o neorrealismo.

  O conflito central do filme, da decisão de Edmund de acabar ou não com a vida de seu avô, que já se pergunta o porque de ainda estar vivo, e as consequências do ato, dá origem ao drama da substituição das antigas para as novas gerações, essas últimas nascidas de uma nação arrasada e um mundo caótico, bem diferente das suas antecessoras. A antiga geração, de cultivo de valores frágeis, inúmeros erros ao longo da história e incapaz de dialogar pacificamente, agora morre por seus próprios frutos, pelas mãos na nova geração, da fragilidade da família, da confusão ideológica, da falta de perspectiva de um futuro bom. Arcando com os erros cometidos e com uma nação destruída, agora a nova geração elimina o passado para poder se reconstruir das cinzas. Edmund vê, em suas mãos, a responsabilidade de terminar com o passado, como uma atitude voltada a um bem maior, sem segundas intenções, mas somente no desejo de seguir em frente. Seria um erro ou não se livrar do passado?

Entre questionamentos e imagens simbólicas que ultrapassam a barreira imposta pelo Realismo em se limitar ao imparcial registro histórico, encontramos na visão um mundo em ruínas. Rossellini explora a Berlim do pós-guerra em vários de seus cenários caóticos, de construções destruídas, de ruas imundas, com a tradicional fotografia estourada do movimento do Realismo e com uma trilha sonora sofrida em sintonia com os sentimentos ali retratados, tudo para representar o mundo físico abalado, mas também o mundo interior agora desestruturado e atingido pelos ecos de horror do conflito mundial. Alguns dizem que luto e guerra ficam melhor em preto e branco, evitando feiura visual, descolorindo cenários de cores mortas e conflitantes, mas que antes era habitado por vida e harmonia, o que se encaixou perfeitamente no filme em questão e em seus contrastes e choques. O antes vivo agora se transforma em simples matéria cinzenta.

  Como disse Marcel Martin no livro “A Linguagem Cinematográfica” (1985), “o cinema não é, ao contrário do que os neorrealistas pensavam, um puro registro do real”, e Rosselini, sendo minoria, comprova que sua opção pelo cinema vai muito mais longe do que apenas imagens fílmicas para arquivos históricos. Captando a verdade de seu tempo através de um realismo cruel, uma ótica áspera e uma moldura do que é, como ocorrerá e o que será o conflito sempre presente da transição de gerações, o diretor se consagrou como um cruelmente entendedor do reflexo do real no interior de seus personagens e no meio onde vivem, captando o sofrimento de cada um deles, principalmente da criança e em seu mundo de inocências e belezas gradualmente sendo destruído, e os trazendo instantaneamente para a luz, enquanto não são novamente engolidos pelas sombras. Rossellini foi um dos grandes nomes do movimento ao qual fez parte e elevou a relevância dele para com a arte do cinema, se tornando num real poetista da nova vida do pós-guerra e da nova maneira encontrada de se fazer cinema, numa mistura de intenções que abrange registro histórico, simbolismos e sensações, que quebram sua barreira como integrante de um movimento, e transporte da alma de degradação daquele período, justamente a combinação que os maiores mestres do neorrealismo conseguiram fazer tão bem.

Avaliação: 4/5 

Prometheus (2012), Ridley Scott

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Sabe aquela sensação de não saber o que você achou do filme que acabou de passar pelos seus olhos? Pois bem, “Prometheus” foi uma dessas experiências, já que os trailers e a imensa divulgação prometiam um outro tipo de filme do que nos foi apresentado. Todos já sabiam que o mais novo filme da franquia “Alien” não teria muitas relações com o Xenomorfo, aliás, seria o início uma nova história, com novos monstros, para uma possível nova franquia, estabelecendo sim conexões com o filme original, mas não fazendo delas os seus pontos centrais. Portanto, todos já sabiam também que o filme carregaria boa parte da atmosfera originada por Ridley Scott no primeiro “Alien”, de mistério se revelando gradualmente e tensão absurda que vai engolindo o espectador, perdido, assim como os personagens, em meio a todo aquele visual moderno, de escuridão e mortes inesperadas.

 
Então, o que fez muitas e muitas pessoas se decepcionarem com “Prometheus”? Bem, pode-se dizer que o prelúdio de “Alien – O Oitavo Passageiro” quis, erroneamente, ser a ficção científica de horror do século, assim como o primeiro filme da franquia passou a ser a maior do século XX. Com o próprio Ridley Scott afirmando que seu filme seria uma espécie de “2001 – Uma Odisseia no Espaço com anabolizantes”, o pretencionismo de seu filme começou desde aquele viral com Guy Pearce, interpretando o (ainda) jovem Peter Weyland (o presidente da Corporação Weyland, que financia a pesquisa dos cientistas), e foi aumentando cada vez mais com a imensa divulgação, virais, fotos e os excelentes trailers, prometendo ser um filme diferente do que acabou sendo. “Prometheus” carrega sim muitas das características do primeiro “Alien” e consegue uma identidade própria, porém pertence a uma espécie de filme diferente da que o próprio diretor pensava estar realizando.

Comecemos pelo enredo. Um grupo de pesquisadores, liderados pelas investigações científicas de Elizabeth Shaw e Charlie Holloway, guiados pelos indícios de conexão entre alienígenas e humanos em pinturas rupestres, partem numa viagem para uma distante lua, a fim de descobrirem as respostas para a origem da raça humana e todo seu futuro. Abordo da nave Prometheus, metaforicamente se referindo à mitologia do titã Prometheus que roubou o fogo de Zeus e foi eternamente punido, os cientistas aterrissam na lua LV-223 e passam a explorar o grande templo alienígena encontrado, mas nem imaginavam o quanto suas ambições em descobrirem o início, agora os encaminham para o fim de suas próprias vidas. Estabelecendo real contato com formas de vida alienígenas e obtendo algumas das respostas que procuravam, o grupo passa agora não a procurar descobrir nosso surgimento no universo, mas a fazer de tudo para sobreviver ao pesadelo ao qual deram início.

A dupla de roteiristas, Damon Lindelof (“Cowboys & Aliens”, alguns episódios de “Lost”, acostumado a deixar pontas soltas em seus roteiros) e Joh Spaihts (“Hora da Escuridão”) fizeram um trabalho competente, que praticamente pode ser dividido em duas partes. A primeira parte é o desenvolvimento dos questionamentos e de premissas fascinantes sobre a origem da existência humana, de onde viemos, qual o nosso início temporal e biológico, e para onde vamos, até quando nossa raça irá viver e até onde poderá chegar, inicialmente guiando os tripulantes através de um mapa estelar que pode revelar a origem humana e sua relação com alienígenas, mas depois chegando cada vez mais perto das verdadeiras questões a qual o filme se desenvolve ao redor: Estamos preparados para as respostas de nossas maiores perguntas? Será que realmente queremos ter conhecimento delas? O que nossa ambição em descobrir verdades maiores que nós mesmos pode acarretar? As respostas, como visto na segunda parte, são as mais pessimistas.

As questões de cunho mais filosófico e a estética que muito lembrava “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, com contemplação de corpos celestes e um ritmo mais gradual, presentes na primeira parte, agora são substituídos pela insanidade da segunda parte, que revela a verdadeira faceta do filme a que estamos assistindo, a de uma experiência violenta, bizarra, de luta pela sobrevivência e arrependimento pelas ambições descontroladas e intenções mal calculadas, a sede pelo conhecimento tem agora sua garganta rasgada. De uma ficção-científica filosófica de tensão delicadamente construída, somos imersos num filme de horror intenso, de ações brutais e resultados absurdos, alguns até inverossímeis. De um intenso mistério pela procura de sinais dos nossos criadores, tomando cuidado para nada ser revelado antes de seu momento, agora somos levados a uma viagem alucinada, de monstros com grandes tentáculos, uma nova espécie de facehugger, zumbi alienígena e Space Jockeys exterminadores.

“Prometheus”, com seu desejo intenso de ser um épico do horror, consegue sim tocar em vários assuntos, mesmo que muitos deles sejam tratados de forma bastante simplista. A obra toda gira ao redor da hipótese de alienígenas serem os criadores da existência humana, visitantes constantes da Terra e controladores de todo o desenvolvimento da humanidade com o passar dos milênios, portanto, nossos “Engenheiros”. Apesar de todas as perguntas e dos tais “Engenheiros” serem revelados, não ficamos sabendo quem eles realmente são, se apenas se trata de alienígenas avançados que usaram a raça humana como cobaia e, agora, desejam encerrar suas experimentações, ou se eles podem ser uma espécie de semi-deuses, encarregados de guardar as respostas divinas para as maiores perguntas, preferindo matar e se calar ao invés de entregá-las. A criatura humanoide, albina, misteriosa, de grande força e altura, é de longe o ser estranho que ganha mais destaque, já que seu papel é fundamental na trama para todo o entendimento dela e sua conexão com o primeiro “Alien” (porém é bom lembrar que os dois filmes ocorrem em luas diferentes).

Aliás, não é só em relação ao Space Jockey que “Prometheus” tem conexões com a franquia “Alien”, em especial com o primeiro. Afinal, a premissa desse mais novo capítulo é muito semelhante a do filme original, com um grupo de pesquisadores aterrissando numa lua (por motivos divergentes, já que no de 1979 é a intercepção de um estranho chamado o motivo do pouso), interagindo com forças alienígenas desconhecidas e enfrentando brutais consequências pelos seus atos. As funções sociais de cada tripulante na nave ainda estão lá, conservadas, como o otário que morre de maneira terrível, o cara simpático e com alma de liderança que é morto pelas circunstâncias, o negro que se sacrifica para ajudar os sobreviventes da tripulação, a mulher forte que vai criando força na película e crescendo de importância cada vez mais. A atmosfera carregada de tensão e frieza do primeiro é renascida aqui, primeiramente dominada por uma curiosidade sombria e descobrimento de segredos universais, depois mergulhada numa imensa claustrofobia, de horror no espaço, de impossibilidade de fuga, com tripulantes sendo mortos por monstruosidades e o pânico se instalando. Apesar do que possa parecer, Ridley não repete o trabalho que realizou a mais de trinta anos atrás, mas sim o remoderniza para um novo modelo de sci-fi horror, mais explícito, ágil e com maiores expectativas em torno de si mesmo.

Ainda com relação aos personagens, tirando a protagonista Elizabeth Shaw, interpretada pela sempre ótima Noomi Rapace, que dá vida a uma mulher forte e responsável por grande parte dos questionamentos sobre fé e religião presentes no filme, e o androide David, o coadjuvante mais bem trabalhado (apesar de ser sugado do robô do primeiro filme), cheio de intenções duvidosas e atitudes ambíguas, interpretado por um dos grandes nomes do cinema atual Michael Fassbender, quase todos os outros são desprezíveis. Isso não chega a denegrir o filme, já que em todos os capítulos da franquia (menos no inicial) os personagens também não recebem muita importância, profundidade e poucos ganham destaque (somente para suas mortes serem sentidas). Com exceção do primeiro filme, os personagens de cada exemplar da franquia são antipáticos e mal escritos, sejam eles os tripulantes imaturos de “Aliens – O Resgate”, os marginais de “Alien 3”, os vândalos de “Alien – A Ressurreição”, os gananciosos de “Alien VS Predador” e agora os idiotas de “Prometheus”. Mesmo que nesse mais recente capítulo da franquia a nave tenha 17 passageiros, torcemos para apenas dois deles alcançarem um final digno.

Se há uma coisa em que “Prometheus” acerta com exatidão, é o deslumbre visual. Captando a alma de mistério pelo desconhecido e pelo perigo mortal, temos uma lua desértica, de terrenos cinzentos e montanhosos, que escondem um imenso templo alienígena, sombrio e cheio dos mais diversos detalhes. A estética futurista, presente principalmente nas naves humanas e alienígenas, impressiona pelo realismo, pelo inédito e pelos efeitos especiais avançadíssimos com relação aos quais a série já apresentou em filmes anteriores, já que não há razão para que a tecnologia apresentada aqui seja inferior a da apresentada em “Alien” e suas sequências, pois obviamente estamos hoje num nível superior dela do que trinta anos atrás, ou seja, a lógica temporal na qual os filmes foram feitos torna completamente compreensível a evolução técnica de “Prometheus”. Seja em planos gerais absurdamente belos ou em planos mais fechados, é no deslumbre visual que o filme consegue atingir o mesmo nível de perfeição alcançado em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, uma de suas maiores influências.


Se “Prometheus” não fosse tão ambicioso, se levando tão a sério e querendo ser a sci-fi de horror do século, talvez a decepção de muitos não teria acontecido, ou, pelo menos, seria amenizada. O filme de Ridley Scott é um belo exemplo de obra cinematográfica prejudicada pela publicidade extrema e pela imagem que fez de si mesma, que não corresponde ao real filme que é. “Prometheus” é o típico filme B de sci-fi horror, com teorias mirabolantes, monstros diversos, momentos chocantes (a já clássica cena da cirurgia), inúmeros furos, cenas absurdas e personagens, em sua maioria, estúpidos, porém com estética de filme A, com atores de altíssimo escalão, ótimos efeitos especiais e um visual arrebatador. Por mais que Scott queria ter feito seu filme o mais sério e inteligente possível, é justamente não o levando tão a sério que sua obra se transforma numa viagem angustiante, de questionamentos válidos e absurdamente divertida. Se nas outras obras de ficção-científica de Ridley Scott o objetivo é amedrontar (“Alien – O Oitavo Passageiro”) ou provocar reflexão (“Blade Runner – O Caçador de Andróides”), aqui fica bem claro que o principal objetivo é o essencial entretenimento.

Avaliação: 4/5 

Uma Breve Análise da Franquia “Alien” (1979 – 1997)

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Acabei de completar a quadrilogia “Alien”, e cheguei à conclusão de que é uma das franquias de horror mais divertidas de se acompanhar, já que cada filme tem sua própria personalidade.

 O primeiro é disparado o melhor da série, e um dos melhores filmes de horror que existem. Obscuro, sombrio, claustrofóbico e de tensão absurda, revelando o Alien gradativamente e permitindo a liberdade de seu ataque a qualquer momento, é o filme em que a criatura se mostra mais ameaçadora. Uma viagem que exala perigo, aliada ao ótimo roteiro de Dan O’Bannon, com reviravoltas e metáforas, como Ripley e o feminismo, a ordem de morte dos passageiros, a rejeição da razão gerando monstros, ao visual espetacular, tanto da nave, como do planeta em que os tripulantes aterrissam, e à direção de Ridley Scott, que explora o físico e o psicológico de uma forma tão genial que seu filme ficou marcado na história do cinema e influencia até hoje o gênero de sci-fi e horror.

 Já o segundo, seguindo o estilo megalomaníaco de seu diretor, James Cameron, é uma grande aventura banhada a muitos tiros e sangue. Os personagens simplesmente não param quietos, e a todo momento há movimento, há tiros e gente sendo morta, muita correria, explosões, grupo de humanos conta exército de aliens, uma verdadeira bomba de adrenalina, um ritmo ágil e intenso. Como não podia deixar de ser, há impressionantes efeitos especiais e o visual é arrebatador, apesar de eu preferir o do primeiro.

 O terceiro lembra muito do David Fincher de “Clube da Luta” e “Millennium”, ou seja, seu filme é sujo, metafórico, pesado. Com visual podre, enferrujado e cinzento, numa escolha de cores que remete ao inferno (amarelo, vermelho e muita fumaça), sua obra mergulha num mundo decadente e estagnado, dominado por homens doentes, loucos e assassinos, e subjugação de mulheres, tanto que Ripley tem lá suas semelhanças com Lisbeth Salander, principalmente em assumir uma posição de independência e liderança. É um dos mais violentos da saga, com baldes e baldes de sangue, porém é o que o Alien menos assusta, já que o CGI não ajudou em nada, e um dos menos divertidos, pois acompanhamos um monte de personagens antipáticos e o andamento da trama é bem irregular.

 Já o quarto e último filme da quadrilogia apostou na quebra de previsibilidade, resultando num filme que foi uma espécie do que “Jason X” foi para “Sexta-Feira 13”. É recheado dos mais estranhos absurdos, com Ripley sendo um clone de intenções duvidosas, grande força e sangue ácido (!), personagens escrotos e bacanas ao mesmo tempo, é todo trabalhado num humor negro esquisito e piadas fora de hora, é situado num mundo futurista, de estética curiosa e visual repetitivo, e consegue ser um dos mais divertidos da franquia, pelo alto nível de WTF presente.

 Enfim, a franquia Alien é um marco na história do cinema sci-fi horror e vale muito a pena uma conferida!

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Avaliação da Franquia:

– Alien – O Oitavo Passageiro (1979): * * * * *

– Aliens – O Resgate (1986): * * * *

– Alien 3 (1992): * * *

– Alien 4: A Ressurreição (1997): * * *

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A Mulher de Preto (2012), James Watkins

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Lá pela década de cinqüenta até o meio da de setenta, a produtora Hammer era a principal responsável por trazer a maioria dos mais insanos filmes de monstros, desde vampiros (“O Vampiro da Noite”, de 1958) até aberrações científicas (“A Maldição de Frankestein”, 1957), lançando várias novas versões para obras antigas, mas mantendo a essência clássica que ainda movia o gênero, até morrer pouco a pouco e acabar destinada exclusivamente para a televisão. Ressurgindo das cinzas, a companhia passou a produzir novos filmes de horror a partir da metade da década passada, dentre eles “A Inquilina” (2011), com Hilary Swank, e “Wake Wood” (2011), que recolheu boas críticas por onde passou, mas nenhum filme que realmente lembrasse seu passado histórico.

Valorizando várias características do horror antigo, “A Mulher de Preto” estreou nos cinemas não só sendo o quinto filme desse revival da produtora, mas também representando sua volta num terror mais arcaico. Tendo como diretor o novato James Watkins, que apenas havia dirigido o excelente “Sem Saída” (2008), e como estrela principal o ator Daniel Radcliffe, imortalizado pela saga Harry Potter, a obra passou pelos cinemas arrecadando um ótimo lucro, batendo recordes no Reino Unido e recolhendo as tradicionais críticas mistas do público. É o tradicional filme que satisfaz aos fãs e simpatizantes do gênero, mas desagrada os mais críticos ou descrentes em filmes do tipo. Quem procura furos ou improbabilidades no roteiro, vai se sentir realizado.

A história é basicamente um advogado (Radcliffe) que, após perder sua família recentemente e ter seu emocional abalado, vai para uma mansão no interior da Inglaterra para tratar dos documentos de seu proprietário falecido. Mas alguma coisa habita aquela casa. Alguma coisa escondida entre os segredos daquela pequena vila inglesa. Tendo a adaptação de Jane Goldman para o romance gótico de Susan Hill, James Watkins prefere bem mais dar atenção a uma boa direção estética e criação de ambientes, do que realmente focar em certos pontos importantes da história. É incrível a capacidade do diretor de absorver a leitura obscura e incômoda da obra literária de Susan, e recriar essas mesmas características dentro do filme, filmando paisagens nubladas, desérticas e cinzentas, pessoas gélidas e quartos escuros, felicidade morta. São nas imagens melancólicas e no rosto das pessoas que a tão explorada presença da morte se faz sentir, com a câmera registrando toda a frieza que ultrapassa a tela e instala aquela atmosfera mórbida na alma de quem se deixar penetrar.

Como o próprio título já insinua, é uma obra mergulhada no sentimento de luto, de pessimismo em buscar a vida e da onipresença da morte. Como se não bastasse todas as esperanças e inocência serem destruídas, com crianças se suicidando e adultos com olheiras cada vez mais profundas, ainda há o clássico fantasma assombrando o vilarejo, um legítimo encosto para seus habitantes, uma sombra para sempre segui-los e destruir suas chances de perpetuarem suas famílias. Cada vida caminha para um destino trágico e inevitável, que se confronta a todo o momento com ruas sem saída, restando apenas o choro e o silêncio para aceitar a deterioração de qualquer esperança. O clima é de funeral, pessoas de preto no enterro. Tudo se arrasta para a cova negra.

Já que se trata de um clássico filme de casa mal assombrada, é claro que ele conservará muitas características e passagens desse estilo. Palavras nas paredes, casas pegando fogo, fantasmas e barulhos surgindo e desaparecendo, histórias obscuras que eram para permanecer em silêncio, bizarrices cada vez mais frequentes. Cada cômodo da casa emitindo sons diferentes, arranhões, pegadas, sussurros. Todos os clichês sendo bem usados, contribuindo com uma familiaridade com a história, mas também despertando um estranho interesse. Não são só as características do subgênero que se conservam, mas também as do próprio diretor, com seus personagens desnorteados, a xenofobia (em intensidade mais diminuída) e o final inevitavelmente trágico. É uma obra que deixa explícitas suas referências e sua própria personalidade perante o seu subgênero e o que ele representa.

Pra quem já começa um filme procurando defeitos, “A Mulher de Preto” pode ser um deleite. É inegável que o clímax da obra realmente deixa a desejar, e as cenas improváveis geram um estranhamento. Porém, assim é o cinema de horror. A realidade sucumbe ao inexplicável e o crível se expande para outro nível. Esse segundo trabalho de James Watkins não só prova seu talento em dirigir histórias sombrias e gradualmente desesperadoras, o colocando próximo a nomes como Alexandre Aja e Christopher Smith, os grandes e jovens diretores atuais do gênero, mas marca um dos pontos altos do cinema fantástico deste ano. Seja na imersão ao sentimento de morte ou na nostalgia de um belo tratamento a um tema tão explorado, o longa deve ser visto sem grandes expectativas e com olhar observador para cada presença incorpórea poder ser sentida.

Avaliação: 3/5